National Portrait Gallery
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Historiador investiga como surgiram as celebridades no século 18

'A Invenção da Celebridade' mostra como a fama individual minou o sistema político monárquico

Elias Thomé Saliba*, Especial para o Estado

20 Outubro 2018 | 16h00

“A celebridade é a vantagem de ser conhecido por aqueles que não vos conhecem” Esta concisa e certeira definição de celebridade bem que poderia ser de alguém de nossa época, mas não é. Ela é do ano de 1781, seu autor é Nicolas Chamfort, o mestre do paradoxo na cultura iluminista e serve de mote para a excelente pesquisa do historiador Antoine Lilti, no recente A Invenção da Celebridade (1750-1850). Ao contrário da maioria dos intérpretes, para os quais a celebridade é um fenômeno muito recente, ligado ao desenvolvimento da cultura de massa – Lilti mostra como uma cultura da celebridade apareceu ao longo do século 18, no contexto de uma profunda transformação do espaço público É incontestável que as novas tecnologias midiáticas e digitais transformaram os mecanismos de advento da celebridade numa escala inédita. No entanto, esta mutação na cultura impressa e visual já acontecia, em menor escala, no decorrer do século 18, fundada tanto em inovações técnicas – como a gravura, que já permitia múltiplas e numerosas tiragens de retratos –, quanto na aparição de um embrionário e barulhento jornalismo de fofoca, infinitamente tagarela, que inauguraram a cultura da celebridade no mundo moderno. 

No universo monárquico, o cerimonial da corte, que colocava os soberanos sob o olhar permanente dos cortesãos, pressupunha a identidade entre o privado e o público: o rei era uma pessoa integralmente pública e a encarnação transparente do Estado. Lilti mostra como a cultura da celebridade, fundada na invenção conjunta da vida privada e da publicidade vai lentamente minando os rituais políticos da representação monárquica e, não por coincidência, a própria palavra celebridade, em seu sentido atual, surge na mesma época. Mas quem serão a principais figuras que irão encarnar este novo personagem social, o homem (ou a mulher) célebre? 

É aí que a leitura se torna mais atraente, pois permite rever sob novos olhares a trajetória tanto de figuras notáveis, como Voltaire, Rousseau, Liszt ou Byron – como de figuras obscuras, como atores, charlatães e assaltantes.

É que a principal característica da celebridade é a sua autonomia em relação aos critérios gerais que regem as reputações de uma pessoa. Quando um escritor, um ator, político corrupto ou um assaltante tornam-se célebres, a curiosidade por eles gerada deixa de ser avaliada à luz dos critérios próprios à sua atividade original: transformam-se em figuras públicas, que não são mais julgadas quanto às suas competências. A essência da cultura da celebridade é que ela iguala o estatuto de personalidades oriundas de esferas de atividades muito diferentes. Lilti examina trajetórias emblemáticas desta mutação, sobretudo quando as celebridades, além de serem fortemente erotizadas, começam a migrar para o mundo político: Maria Antonieta, que ficou mais célebre como “rainha da moda”; Mirabeau, o ator político mais contestado e admirado da Revolução Francesa; Washington, a “celebridade fundadora da democracia americana”; e, enfim, Napoleão, “a celebridade intacta”, mesmo quando encarnou a imagem do imperador destituído.

A celebridade é indissociável da existência de uma massa indistinta de leitores e espectadores que ficam sabendo das mesmas notícias, no mesmo momento, através dos mesmos jornais, interessam-se pelos mesmos acontecimentos e experimentam as mesmas emoções na leitura dos mesmos textos. O lugar inicial onde começa a aparecer este mecanismo de reconhecimento da celebridade, ao mesmo tempo social e íntimo, coletivo e individual, será a literatura, que colocava o escritor sob o olhar simultâneo e anônimo de uma infinidade de leitores, capturados em sua individualidade. Isto será particularmente visível na recepção do público aos dois grandes best-sellers do século, Júlia ou A Nova Heloísa, de Rousseau e Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. O próprio Rousseau desenvolveu uma teoria: a leitura deve permitir um acesso imediato e autêntico do leitor à sensibilidade do autor, graças ao qual este é, ao mesmo tempo, reconhecido como um escritor talentoso mas, sobretudo amado como um ser sensível. 

Mas como as pessoas experimentavam as bençãos e as maldições da celebridade? Lilti examina e documenta vários exemplos de figuras notáveis da época do Iluminismo e do Romantismo, que levaram até os últimos limites o conflito entre a intenção de exibir e promover sua própria fama e a cruel e completa perda da sua identidade privada – que chegou a conduzir alguns até mesmo a um desejo de serem esquecidos. Mas, neste cenário cheio de intensidade, nada chama tanto a atenção quanto as figuras de Rousseau e Byron. Os dois buscaram a celebridade menos nas suas obras do que em eventos pitorescos que galvanizaram o público: exageraram a solidão sentimental e as bizarrices do gênio em atitudes e eventos que se transformaram em relatos anedóticos e imagens que viralizaram na época. Byron amava o seu cachorro predileto, de nome Boatswain, um filhote de Terra Nova que morreu aos 5 anos, após ser mordido por um cão hidrófobo. O poeta não apenas encomendou um retrato do cão como gastou uma fortuna num mausoléu de mármore para o animal. Já Rousseau, que vestia roupas de armênio em seu retrato mais conhecido, adorava o seu pequenino cachorro, que atendia pelo nome de Sultan, um vira-latas marrom e de cauda enrolada que vivia rosnando.

De qualquer forma, a celebridade, buscada como forma moderna de prestígio social e, ao mesmo tempo, desacreditada como mero simulacro midiático, não seria, afinal, um resultado natural da ambivalência e pluralidade das opiniões coletivas em sociedades democráticas? Nesta ótica, ficava claro que fugir do paradoxo da celebridade era algo inacessível. Ou talvez concebível apenas em criaturas ensimesmadas ou completamente desprovidas de ambição, desejos de poder ou delírios de grandeza.

 

*Elias Thomé Saliba é historiador, professor titular da USP e autor de 'Crocodilos, Satíricos e Humoristas Involuntários: Ensaios de História Cultural do Humor' 

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