PIERRE FIRENS/WELLCOME COLLECTION
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Historiador Marc Bloch investiga cura milagrosa de reis medievais

Autor descarta hipótese sobrenatural para o fenômeno em 'Os Reis Taumaturgos'

Martim Vasques da Cunha*, Especial para o Estado

12 de janeiro de 2019 | 16h00

Quando o historiador Marc Bloch publicou o clássico Os Reis Taumaturgos, em 1924, ele desejou dar o seguinte subtítulo: História de um Milagre. Disse que não o fez por motivos pragmáticos, envolvendo o tamanho do tomo, mas suspeita-se que Bloch tinha um motivo mais simples: ele nunca acreditou que o seu tema fosse realmente miraculoso. No caso, o milagre é o célebre ato medieval dos reis franceses e ingleses de tocarem os seus súditos adoentados com a “escrófula” – um inchaço grotesco e fétido dos gânglios linfáticos provocados pelos bacilos da tuberculose – e assim curá-los após alguns dias, sem nenhuma explicação aparente. Ora usado como um evento religioso, ora político, o toque do rei transformou-se em um ritual que comprovaria o papel organizador da monarquia na ordem da sociedade europeia.

Bloch é um historiador modernista e, portanto, de nítida perspectiva racionalista, mas isto não o impede de documentar meticulosamente – e com nítido fascínio – o fenômeno. Percebe-se que ele deseja alcançar a lógica secreta do poder, alguma espécie de epifania, mesmo que seja laica, sobre o que significa todo aquele ar de mistério que o nosso progresso científico ainda não conseguiu compreender adequadamente.

É nítida a tensão desse impasse metodológico e epistemológico nas páginas do livro. Se Bloch não tivesse sido assassinado na 2.ª Guerra Mundial, em 1944, durante a ocupação francesa, talvez ele pudesse resolver isso ao ler os estudos do grande filósofo analítico americano Alvin Plantinga, nascido em 1932. Com duas obras-primas lançadas recentemente no Brasil – Crença Cristã Avalizada e Ciência, Religião e Naturalismo – Onde Está o Conflito? –, ambas publicadas pela editora Vida Nova, consegue unir dois mundos que pareciam díspares: a pesquisa filosófica neokantiana com uma perspectiva metafísica que abraça a religião cristã, sem ter medo de enfrentar o ceticismo moderno. Seu campo de batalha, por assim dizer, é a limitação do conhecimento humano não como um modo de impedir o uso do conceito de Deus, mas sim como uma forma de ampliá-lo e, dessa forma, ajudar o homem a entender melhor o que significa ser uma imago Dei, a imagem de Deus em um mundo que vive seu pleno desencantamento.

A própria pesquisa histórica de Bloch é uma parte importante deste desencantamento, mas é também o registro dos problemas analisados por Plantinga em sua obra filosófica. Em Os Reis Taumaturgos, o historiador busca fazer uma ciência que se dissocie do sagrado, simplesmente porque isso seria, ora bolas, mais “científico”; já Plantinga afirmará, por meio de uma linguagem técnica e detalhista, que a verdadeira ciência não tem nenhuma incompatibilidade com a religião, em especial a cristã. Para ser mais exato, ele afirma categoricamente que a verdadeira ciência sempre foi realizada por cientistas que abraçaram sem pudor a perspectiva metafísica adotada pelo judaísmo, pelo cristianismo e pelo islamismo.

Portanto, se alguém falou o contrário, não passa de uma velha e triste notícia falsa. De certa forma, Bloch se antecipou a este tipo de comportamento quando ele estraga o seu livro ao concluir que era “difícil ver na fé no milagre régio senão o resultado de um erro coletivo”, mesmo que fosse “mais inofensivo que a maior parte dos erros de que está repleto o passado da humanidade”. Trata-se da condescendência típica do intelectual iluminista que, afoito por querer agradar aos pares que pensam da mesma maneira, prefere desprezar o milagre evidente que existe diante dos seus olhos – e abandoná-lo, literalmente, ao deus-dará.

A atitude da “suspeita epistemológica” de Marc Bloch é uma moléstia que infestou todo o século 20 – e permanece no nosso. Plantinga registra corretamente que, apesar das nossas faculdades cognitivas serem limitadas (por causa do pecado original), ainda assim conseguimos apreender o miraculoso nas nossas vidas, simplesmente porque temos de confiar nos dons epistemológicos que nos foram dados. Sem isso, toda e qualquer atividade científica cai por terra e perde a sua validade.

Os eventos descritos em Os Reis Taumaturgos mostram que, na realidade, a intuição ainda auxilia o processo de descoberta na História, por mais que a racionalização feita pelos intelectuais acentue a suspeita que temos de nós mesmos. O fato é que somos incapazes de perceber o espanto do dia a dia e que não depende de nenhum toque real para permanecer nas nossas vidas. Não à toa que o americano Mark Twain (um ateu que escreveu uma brilhante biografia sobre Joana D’Arc) já dizia que “quando nos lembramos que somos todos loucos, os mistérios desaparecem e a vida se mostra finalmente explicada”. O clássico de Marc Bloch mostra a loucura sofisticada da razão ao desprezar esse mistério, enquanto a obra de Alvin Plantinga exibe a sanidade de um senso comum a ser recuperado nos nossos estudos filosóficos. Resta-nos agora a esperar por um milagre que crie uma ponte improvável entre esses dois extremos.

*Martim Vasques da Cunha é autor de 'Crise e Utopia - O Dilema de Thomas More' (Vide Editorial) e 'A Poeira da Glória - Uma (Inesperada) História da Literatura Brasileira (Record); pesquisador pela FGV-Eaesp 

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