Rimantas Lazdynas/Editora Objetiva
Rimantas Lazdynas/Editora Objetiva

Historiador narra o pacto entre nazistas e soviéticos em livro

Tratado de não agressão entre Hitler e Stalin abriu caminho para o início da 2º Guerra Mundial

Paulo Nogueira, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2021 | 15h00

Numa era de tal polarização que cada lado só vê o que quer ver (geralmente, miragens), de cancelamentos, pós-verdades, fatos alternativos e fake news, uma vacina com eficácia de 100 por cento é ler historiografia. Pois, por incrível que pareça, a história não começou ontem, e nem mesmo com o WhatsApp. 

O Pacto do Diabo, de Roger Moorhouse, é um antivírus do fantismo, passando a pente fino o tratado de não agressão de 23 de agosto de 1939 entre a URSS e Alemanha nazista. Foi assinado em Moscou, sob um retrato de Lenin na parede e com a presença de Stalin e dos ministros das Relações Exteriores dos respectivos países, Molotov e Ribbentrop. Rolou um belo regabofe: caviar, champanhe e um jantar de gala com 24 pratos, e uma sessão de O Lago dos Cisnes

Pelo mundo afora, o pacto embasbacou tanto a direita quanto a esquerda, já que fascismo e comunismo eram teoricamente antípodas ideológicas, e não farinha do mesmo saco antidemocrático e totalitário. Como o próprio Stalin rosnou, ao brindar à saúde de Hitler: “Temos jogado baldes de merda na cabeça uns dos outros, e agora nossos publicitários precisam convencer o povo que tudo foi esquecido e perdoado”. Nove dias depois a Wehrmacht invadiu a metade oeste da Polônia, iniciando a II Guerra Mundial, e em seguida o Exército Vermelho anexou irmãmente a outra metade. 

Inúmeros comunistas ocidentais, enojados com o mico, deixaram os PCs, no maior êxodo partidário antes da invasão soviética Hungria, em 1956, e do esmagamento da Primavera de Praga, em 1968. Houve, claro, muitos que só deram um sorriso amarelo, como o historiador Eric Hobsbawn. George Bernard Shaw derreteu-se: “Hitler está agora sob a poderosa influência de Stalin, cuja predisposição para a paz é impressionante”. Já George Orwell chutou o balde: “Esse pacto minou não só o básico apelo ‘antifascista’ do comunismo, mas também sua queixa contra o status quo. E os comunistas, que no passado amaldiçoaram seus governos burgueses por apaziguarem Hitler com sórdidos arranjos, agora são obrigados a defender Moscou por ter feito a mesma coisa. O resultado é completa destruição da ortodoxia de esquerda”. 

Em 1984, um mudança oportunista de alianças obriga o herói Winston Smith a fazer horas extras para reescrever os jornais e simular que aquela amizade sempre existiu. Na trilogia Sword of Honor, de Evelyn Waugh, o protagonista resmunga: “Todo disfarce foi abandonado”. Outro que fez caretas de asco foi Bertold Brecht, não propriamente uma vestal. Enquanto isso, em Munique, o jardim da sede do Partido Nacional-Socialista ficou juncado de insígnias, suásticas e distintivos jogados por nazistas não menos nauseados. 

Para Hitler, o acordo permitia atacar tranquilamente a Europa Ocidental, sem se preocupar com ameaças do leste – e recebendo “commodities” russas (cereais, metais, petróleo) a preços de Black Friday. Para Stalin, as vantagens eram a expansão da “esfera de influência” soviética, a transmissão da tecnologia bélica alemã e a regeneração do Exército Vermelho, dilacerado pelos expurgos promovidos pelo próprio ditador comunista na década de 30, que ceifaram os oficiais mais competentes. Stalin também devolveu a Hitler um número substancial de comunistas alemães que tinham se refugiado na URSS após a tomada de poder pelos nazistas. Alguns deles, presos em solo russo durante os expurgos stalinistas, foram direto do Gulag para os campos de concentração hitlerianos – caso da escritora Margarete Buber-Neumann. 

E havia, ainda, o “protocolo secreto”, que Moscou se recusou a admitir até 1989 (e que Putin considerou “imoral, mas compreensível”). Essas cláusulas ditavam não apenas a partilha da Polônia, mas também que os estados bálticos, então independentes (Finlândia, Letônia, Lituânia e Estônia), mais partes da Romênia, cairiam no colo do Kremlin. Desde 2009, a pedido dos países bálticos, que só recuperaram sua soberania em 1991, é celebrado na União Europeia o Dia das Vítimas do Estalinismo e do Nazismo. 

Alguns articulistas cornetaram que Moorhouse dá mais espaço às atrocidades comunistas que às nazistas. A meu ver, há no livro carnificinas suficientes – e soa plausível a alegação de que a barbárie hitleriana ainda é muito mais conhecida que a stalinista. Quem nunca ouviu falar de Auschwitz, mas quantos sabem de Kolima, um dos campos de concentração do Gulag? Como disse Tzvetan Todorov: “A vida perdeu para a morte, mas a memória ganha seu combate contra o nada.”   E os retratos individuais de Pacto do Diabo são magistrais, como os de Ribbentrop e Molotov, dois bajuladores de um quilométrico cordão de puxa-sacos dos autocratas de bigodão e bigodinho. 

Entre as numerosas ignomínias mútuas avulta o massacre na floresta de Katyn, em maio de 1941, quando 22 mil poloneses (entre prisioneiros de guerra, professores, padres e intelectuais) foram sumariamente fuzilados e lançados a uma mefistofélica vala comum. Depois da guerra, alemães e soviéticos empurraram a batata quente de um para o outro. Hoje, a responsabilidade está estabelecida: a ordem partiu de Béria, então chefe da polícia secreta de Stalin. 

Apesar da sua proverbial astúcia, Stalin confiou tanto em Hitler que ignorou 47 alertas militares e diplomáticos sobre a cada vez mais iminente “Operação Barbarossa” – a traição nazista com a invasão da URRS pela Wehrmacht em junho de 1941, quase dois anos depois da assinatura do tratado Molotov-Ribbentrop. 

O pacto legou também outra consequência duradoura, de ordem conceitual: a ideia da correspondência essencial entre comunismo e fascismo. Sem falar na afinidade totalitária (já assinalada por Hannah Arendt em “As Origens do Totalitarismo”), há os sistemáticos crimes contra a humanidade (como definiu memoravelmente André Frossard, “há crime contra a humanidade quando se mata alguém sob o pretexto de que ele nasceu.”

 No curso de algumas décadas, os regimes comunistas mataram dezenas de milhões de pessoas. Estima-se que na URSS houve 20 milhões de mortes, na China 65 milhões e mais 6 milhões no Camboja, Coréia do Norte, Vietnã e Europa Oriental (total: 96 milhões). Os nazistas mataram menos (25 milhões), mas é verdade que os comunistas começaram mais cedo e duraram mais.

A diferença desses genocídios calculados e deliberados está no anátema das vítimas dos dois regimes: um, baseado na “raça”; o outro, na “classe social”. Sem querer passar um pano infame na infâmia, talvez apesar de tudo subsista um – quem sabe bizantino na prática – contraste, como notou o saudoso Tony Judt. Ou seja, aquele entre um regime que exterminou pessoas na busca desumana de um objetivo arbitrário, e outro cujo objetivo foi o próprio extermínio.

 

*Paulo Nogueira é autor de 'O Amor é um Lugar Comum' (Intermeios)

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