Jean-Baptiste Debret
Jean-Baptiste Debret

Historiadores explicam como era a vida privada no Brasil colônia

Coleção de ensaios clássicos sobre o cotidiano da colônia ganha nova edição

Bruna Meneguetti*, Especial para o Estado

02 Fevereiro 2019 | 16h00

Lançado em 1997, História da Vida Privada no Brasil – Cotidiano e Vida Privada na América Portuguesa deu início a uma série de quatro volumes dirigida por Fernando A. Novais. Abordando o período colonial, o livro, relançado agora em edição de bolso, discorre sobre aspectos envolvidos no cotidiano das fronteiras e caminhos, vida doméstica, religiosa e sexual. Segundo a professora e historiadora Laura de Mello e Souza, organizadora dessa obra, foi escolhido um pesquisador diferente para cada tema retratado, com os quais se discutiu qual era o alcance e a natureza da vida privada naquela realidade histórica. “Quisemos deixar claro que o espaço do privado estava em constituição ainda”, explica Laura em entrevista ao Aliás. 

De fato, devido à instabilidade e precariedade, colonos se viam obrigados a descobrir com os índios mais sobre a terra. Assim, não era incomum que aprendessem a fabricar utensílios com eles, comessem macacos e formigas, e dormissem em redes em razão da inexistência de camas no Brasil até meados do século 18. Apesar das construções, era mais fácil conseguir privacidade no meio do mato, um espaço público, do que dentro das casas, que continham várias frestas ou paredes pela metade. Os quintais poderiam ter jardins – que se transformavam em espaços de fiscalização de mulheres de elite por suas famílias –, senzalas e secretas – um buraco na terra, para fins de higiene, e que, às vezes, poderia ter um chiqueiro embaixo. Já dentro das casas, a mobília era um produto escasso. Os poucos bancos eram divididos entre herdeiros e havia escassez de talheres, obrigando diversas classes sociais a usar as mãos nas refeições. 

Laura lembra que a coleção francesa História da Vida Privada, de Georges Duby e Philippe Ariès, foi um ponto de partida para a brasileira. No entanto, foi necessário pensar na falta de documentos – como diários e cartas – e na pobreza das fontes no Brasil. Assim, os historiadores tiveram de procurar elementos da privacidade em documentos que não tratam disso, o que só foi possível, segundo Laura, por “não acreditar em tudo o que o documento diz e ir além do que ele diz”. Alguns desses materiais acessados foram os livros de razão – onde eram anotados os eventos familiares e as principais transações comerciais –, testamentos e documentos da inquisição onde se podia ler, por exemplo, relatos de padres indecisos sobre classificar relações sexuais lésbicas como pecado, pela mulher ser “anatomicamente desprovida de pênis”. 

No Brasil colonial, a presença da igreja era muito marcante. A catequese cristã tornou-se um discurso legitimador para a conquista de terras e foi buscando hierarquia que os jesuítas acabaram preservando o Tupinambá, pois, falando a língua dos índios, “os efeitos da catequese eram maiores” e assim também poderiam confessar os fiéis. Outra forma não tão eficiente de controle da hierarquia eram os rituais públicos em espaços religiosos, comuns ao ar livre na Europa. No Brasil, no entanto, as igrejas eram evitadas devido à poeira e lama, assim como pela “presença inesperada de animais selvagens, índios e negros”. Tudo isso permitiu uma vida religiosa privada dentro das casas que também abria espaço para o sincretismo. 

Um costume dessa época que se manteve, por exemplo, foi a tortura de imagens e símbolos sacros. Isso pode ser atribuído a uma vingança de crentes de outras fés, considerados cristão novos, forçados a exercer a religião cristã. Assim, criou-se o hábito de amarrar as imagens de cabeça para baixo e realizar várias outras penitências. Todos esses rituais eram realizados em demasia com o Santo Antônio, que, na época, não tinha nada de casamenteiro: era “o principal colaborador dos senhores na captura dos negros fujões”. Também tornou-se comum a venda de “relíquias”, como casquinhas da cruz e leite em pó da Virgem Maria. 

Enquanto o pudor reinava em alguns ambientes, principalmente em relação às mulheres, a “nudez cotidiana podia não ser excitante”. Na Europa, no final da Idade Média, era um costume famílias inteiras se banharem despidas em banhos públicos, porém as mulheres eram criadas para não falar antes do marido, não aparecer à janela e a ocuparem-se com a cozinha e a agulha, evitando “ocasião para agirem contra a honra da família”. 

Segundo Laura, contradições como essas são comuns em todos os períodos, motivo pelo qual o historiador não deve procurar explicações, mas “compreender e incitar a reflexão”. Por exemplo, para ela, o fato de que os portugueses chegavam com a ideia de enriquecer rapidamente no Brasil para voltar a Portugal, fez com que considerassem o País como um local de passagem, se sentindo à vontade para explorarem e brutalizarem. “Não sei até que ponto isso se enraizou na nossa maneira de pensar de que isso está aqui para ser usado, pois o que importa está em outro lugar”, explica.

Outro mau legado que carregamos disso é a falta de investimentos na educação. “Muitas das mazelas do Brasil se devem ao fato da nossa colonização portuguesa ter impedido por muito tempo a criação de universidades e da imprensa”, informa Laura. Esse fator era agravado pela inquisição, que instruía a armazenar obras proibidas em estantes com “chave e rede de arame, de sorte a não serem vistos, nem lidos por pessoas não autorizadas”.

Esses são apenas alguns dos exemplos que podemos encontrar no primeiro livro da coleção e que falam, direta ou indiretamente, com o presente. Para Laura, entender melhor essas e outras partes da história brasileira é essencial para construir uma consciência crítica. “O que faz de um povo um grande povo é ter capacidade de se orgulhar da sua história e, ao mesmo tempo, de condenar momentos que foram deploráveis. É incorporar o passado e se livrar dele também, no sentido de que não podemos ser reféns. Mas, para isso, temos que compreender para poder impedir que as coisas ruins se repitam. Nunca nos livramos do passado, agora o que você vai fazer com aquilo é que é o destino da nação”, afirma.

*BRUNA MENEGUETTI É COAUTORA DE ‘CORAÇÕES DE ASFALTO’ (PATUÁ) E AUTORA DE ‘O ÚLTIMO TIRO DA GUANABARA’ (REFORMATÓRIO)

Mais conteúdo sobre:
História do Brasil

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.