Ashley Gilbertson/The New York Times
Ashley Gilbertson/The New York Times

Histórias verídicas inspiram livro de contos sobre abuso sexual

Cássia Janeiro compila dramas de mulheres em 'As Filhas de Eva'

Bruna Meneguetti*, Especial para o Estado

19 Maio 2018 | 16h00

Cássia Janeiro, primeira sul-americana a ganhar o Prêmio Mundial de Poesia Nósside, chancelado pela Unesco, lança agora seu livro de contos As Filhas de Eva, pela Editora UBE. Nele, somos apresentados a seis mulheres que vivem em países como Brasil, Índia, Nigéria e Iraque. Apesar de pertencerem a diversas classes sociais, terem crenças, idades e estilos de vida diferentes, todas enfrentam o mesmo problema: o abuso sexual. 

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Há também outras terríveis coincidências que as conectam, como o fato de duas personagens serem sequestradas – Halima pelo Boko Haram e Maha pelo Estado Islâmico. Já em relação a Nancy e Laura, o crime é realizado por pessoas próximas, enquanto Eva é violentada dentro da própria casa. Mesmo com histórias ficcionalizadas, é muito claro que a autora não se baseou apenas na imaginação para relatar essas condições. “O livro só nasceu por conta do brilhante documentário de Leslee Udwin, India’s Daughter, que trouxe à tona vivências, além de uma necessidade e emergência de escrever”, relembra Cássia Janeiro em entrevista ao Aliás

Assim, usando como base sua própria história e a de outras mulheres, além de pesquisas em organizações humanitárias e relatos de grupos de apoio que acompanhou no Brasil e em uma missão voluntária no Timor Leste, a autora traz uma escrita única e dilacerante. Em seu livro, realidade e ficção vão se desequilibrando a cada página para criar uma grande pergunta: como o mosaico da violência se forma? 

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A personagem que mais questiona isso é Eva. Presente no início, meio e final do livro, é a única a formar um arco de superação. “Eva tem o papel de amarrar e tentar compreender para poder superar o seu próprio drama e das outras mulheres”, esclarece. Para Janeiro, superar o que aconteceu foi também uma emancipação, de modo a não permitir a violência dentro da própria cabeça e não dar ao outro o poder sobre a própria vida. “No entanto, não há uma receita para isso, ninguém deve se sentir obrigado a perdoar; perdão não significa querer impunidade.” 

Em um trecho, Eva reflete: “Se eu disser que ele é um monstro, jamais poderei me recuperar, porque ele estará fora da condição humana”. Assim, segundo a contista e poeta, é necessário enxergar que há uma responsabilidade de toda a sociedade pelos crimes contra as mulheres. “Quando conseguimos ver esse cenário mais amplo, temos mais chances de combater a violência apropriadamente”, afirma. Em sua escrita, fica claro também que é por meio da história de Eva que a autora se coloca mais presente na narrativa, de modo que as filha de Eva tornam-se também todas as personagens do livro que estão dentro da escritora e que nos fazem pensar sobre essa “mulher primordial” agredida em todos os lugares do seu lar.

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Apesar da questão pessoal envolvida na obra, segundo Janeiro o conto mais difícil de escrever foi baseado no estupro coletivo contra a jovem Jyoti Singh, na Índia, em 2012. “Eram tantos detalhes macabros que eu sentia como se essa moça estivesse sendo violentada continuamente”, recorda ela. “Precisava mostrar a dignidade que teve aquela vida, para além da crueldade de sua morte”. Dessa forma, o conto é seu momento de ápice. A dor se faz tão real que o leitor pode desejar parar a leitura, mas algo o impede – seja o peso da realidade ou a qualidade da ficção. É necessário conhecer todas as filhas de Eva e é impossível passar por elas sem sofrer da mesma forma como a escritora: “a Jyoti entrou na minha vida num rompante, de modo que eu mesma me senti aprisionada naquele ônibus por muito tempo”, disse a autora.

Ainda que haja toda essa carga, o livro está longe de ser apenas uma expressão de caráter ideológico. É notável que, preso por um fio invisível, o leitor é capaz de imaginar todo o cenário onde as histórias ocorrem, além de poder visualizar as personagens e, a parte mais difícil, criar empatia pelo o que essas pessoas vivenciaram de uma forma que a literatura oferece com maestria. Segundo a autora, é importante manter o elemento estético em primeiro plano, de modo que mesmo se todos os problemas ali colocados fossem resolvidos, a leitura ainda seria possível, diferente de algo panfletário. 

Questionada se o livro tinha a pretensão de atingir os homens de uma forma diferente que as mulheres, Janeiro informa que, apesar de todos dizerem que a obra foi “um soco no estômago”, ela percebia que os golpes eram sentidos de formas díspares em cada um, não importando o gênero. “Somos seres culturais, sociais e olhamos para nós mesmos e para a sociedade a partir do nosso lugar”, explica. 

“Deixemos que Eva siga tentando o que não conseguimos, mesmo que ela esteja despedaçada”, lê-se no último conto, que conversa com a figura da capa: uma “Mulher Vitruviana”, metade em pedaços e metade se refazendo. Assim como a figura, para a escritora, há uma “dialética entre estar despedaçada e se reconstruir”, algo que a realidade obriga os seus leitores a fazerem depois que terminam o livro. O que fica quando esses pedaços são recolocados, é algo que só a experiência da leitura pode mostrar.

Bruna Meneguetti é escritora e jornalista, autora de 'O Céu de Clarice' (Amazon) e coautora de 'Corações de Asfalto' (Patuá) 

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