'Hoje as terras em que os índios podem viver são muito restritas, quando há terras'

Carta aberta ao ministro Gilberto Gil

Waldemar de Andrade e Silva e Kimy Otsuka Stasevskas*, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2008 | 22h11

Um mito Kaiapó conta como os índios vieram habitar o mundo. Um caçador seguia um tatu-canastra que fazia uma cova. O caçador resolve segui-lo cova adentro e encontra ao fundo um mundo cheio de calor, luz, animais, águas, florestas e cores. Tão maravilhado fica que permanece até o cair da noite, vê o pôr-do-sol e o nascer da lua. Emocionado, retorna no dia seguinte à aldeia e relata essas maravilhas. O pajé, diante do entusiasmo do povo, consente que todos sigam um outro tatu, descendo pela cova, até o paraíso terrestre. Este foi o mundo que o índio brasileiro escolheu para viver. É desta terra que retiram seus alimentos, arte e habitação, mas o significado da terra se expande para um infinito simbólico, onde mito, história, realidade, sonhos, organização política, espiritualidade e tempos convivem nos mesmos espaços físicos dos homens. Tudo isto foi relatado na carta do grande chefe de Seattle no século retrasado, quando a cidade que levou seu nome ainda era "um paraíso". Hoje as terras em que os índios podem viver são muito restritas, quando há terras. A perda da terra significa a perda deste infinito simbólico que também podemos chamar cultura, a matriz da cultura brasileira. Nós julgamos urgente a valorização destas formas de experimentar e pensar a vida, o meio ambiente, os conhecimentos tradicionais dessas culturas originárias. Riqueza que está nas comidas, idioma, brincadeiras e costumes brasileiros, sustentada por um fio que dá o sentido ancestral destes saberes. Só evitando o rompimento deste fio é que poderemos nos sentir íntegros em nossa identidade e compor formas de enfrentamento de outro mundo, o chamado "moderno". *PRESIDENTE E DIRETORA DO CENTRO DE INFORMAÇÃO DA CULTURA INDÍGENA

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