Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

HQ 'Mensur' traz luta de espadas alemã para o interior do Brasil

Romance gráfico de Rafael Coutinho suscita questões sobre honra, violência e vingança

Ronaldo Bressane*, Colaboração para o Estado de S. Paulo

04 Março 2017 | 16h00

Qual a real medida da honra? Que métrica mede a lealdade? Qual o tamanho de uma obsessão? É possível manter a ética pessoal sendo ultrajado por uma rajada de ataques de todos os lados? Quanto tempo você esperaria para saborear uma vingança? Em um cotidiano carregado pelas sombrias notícias da Lava Jato, a gente talvez já tenha perdido a noção do que é vil, abjeto ou absurdo. Daí porque uma narrativa carregada por esta – aparentemente – esquecida noção de honra seja tão bem-vinda. Eis o eixo sobre o qual gira o traço de Mensur, segunda longa incursão de Rafael Coutinho pelo romance gráfico desde Cachalote: a obsessão pela honra. 

O romance é a história de um herói problemático e sua busca degradada por valores autênticos em um mundo também degradado, segundo a definição básica de Lucien Goldmann, pensador estruturalista que analisava a literatura pelo viés sociológico. Embora denso psicologicamente, o romance gráfico de Coutinho é uma história de contratos sociais, de estratos e distratos sociais, de conflitos de classe. Seus bizarros elementos de romance de cavalaria estão assentados sobre as convenções do romance urbano contemporâneo. É um romance sobre ideias fora de lugar e éticas fora de moda, daí se impor com tanta originalidade no panorama do quadrinho brasileiro.

Ao mesmo tempo em que a narrativa permite várias camadas de interpretação, a fluidez vigorosa e enérgica do traço de Coutinho nos empurra para uma gradual construção do enredo. Aos poucos sabemos que Gringo é um médico formado em Ouro Preto (MG) e que passou dez anos trabalhando em subempregos aparentemente fugindo de um crime cometido no passado. Da juventude sobressaem lembranças de uma sociedade secreta fundada na república Aquarius, uma das mais antigas da cidade histórica: os futuros doutores reuniam-se em sigilo para praticar o mensur. No momento certo saberemos que se trata também de uma história de traição, assassinato e vingança.

Estilo de esgrima praticado em sociedades acadêmicas, universidades e faculdades europeias desde o século 16 (em especial Alemanha, Áustria e Suíça), mensur, em alemão, quer dizer ‘medida’: designa a distância em permanecem os oponentes – a uma espada do outro. Os sabres não são as mesmas armas brancas utilizadas na esgrima olímpica, sem corte – são armas letais. As regras rígidas do mensur o fazem um ‘esporte’ tão fascinante quanto ultrajante. Os oponentes permanecem rígidos, a mão com a espada no alto, a outra amarrada às costas, o corpo protegido por ataduras, bem como os olhos. O objetivo é inflingir o máximo de cortes no rosto do oponente. Não há vencedores e a luta termina por exaustão mútua. Os cortes nas faces são consideradas insígnias guerreiras e ganham a veneração dos pares: quanto mais cicatrizes no rosto, mais bravo o duelista. 

É comum cumprimentar um mensuren, o praticante do mensur, pela Schmiss, cicatriz que leva nas faces. “Bela Schmiss”, diz o Gringo para um sujeito num boteco, referindo-se à cicatriz em seu rosto. Mas o cara entende ‘bela salsicha’ e o Gringo é confundido com um assediador gay. O conflito do romance é a obsessão de Gringo por seu passado como mensuren, a nostalgia pelo pacto de cavalheiros que detinha com seus pretensos amigos, e ao mesmo tempo a aversão pela espada e pelo duelismo que os levaram a uma vida errática, solitária e alcoólatra. O angustiado e deformado Gringo é um homem partido em dois.

Coutinho nunca explica como uma esdrúxula tradição universitária germânica vai parar em uma república estudantil mineira, o que é um trunfo da boa ficção – a famosa ‘suspensão da descrença’: acredite, é assim. E acreditamos. Acreditamos até que o mensur foi transplantado para um grupo de manos do centrão de São Paulo – um garoto negro de boné e gíria de rapper tem adoração pelo mito Gringo (fica aqui a dica para um futuro debate sobre apropriação cultural). A mestiçagem, a mixagem de linguagens e a confusão de idioletos (mineiros, paulistanos) e balbúrdia sígnica (a arquitetura barroca mineira e a pós-tudo de SP) são outra camada simbólica onde o nanquim de Coutinho surfa com sagacidade: o próprio Gringo não é exatamente tão gringo assim, tão puro assim. 

No entanto, ele ambiciona ser puro, pois a espada o ensinou a justa medida das coisas e das pessoas. Assim, mesmo formado em medicina ele trabalha em ofícios humildes, como limpador de piscinas ou carregador de entulho em mineradora; mesmo precisando gastar apenas 69 reais para limpar seu CPF, recusa-se, por não achar justo. É um estoico que suporta os sofrimentos inflingidos pelo mundo e por si mesmo, como que para esculpir o próprio caráter – um personagem semelhante ao protagonista anônimo do romance Barba Ensopada de Sangue, de Daniel Galera, parceiro de Coutinho no roteiro de seu primeiro romance gráfico, Cachalote. Sim: um legítimo herói problemático buscando valores autênticos em um mundo degradado, Gringo enverga mas não quebra.

Muito ainda haveria a dizer sobre a brilhante arte do livro: sequências surpreendentes, dinâmica acelerada na transição dos planos abertos aos fechados, cortes violentos, passagem tensa entre diversas situações, traço que passa do rústico ao virtuoso em um triz, sempre em um característico estilo incompleto e trêmulo, oferecendo ao leitor a conclusão das imagens e a compreensão das cenas. Coutinho vai desenrolando a narrativa sem cansar o leitor, mas também sem nenhuma pressa.

Poderia haver mais sequências de duelos entre os mensuren? Talvez. No entanto, sobressai, entre tanta violência, uma sequência em que um médico solitário e uma prostituta amargurada se entregam a outro duelo. O encontro das cicatrizes em um quarto de pensão barata é um dos grandes momentos líricos do romance, em que Coutinho mal usa palavras para dar conta da dificuldade de comunicação e ao mesmo tempo da complexidade de sentimentos contraditórios. Às vezes, ainda que fora de lugar, o amor pode ser algo que se encontra no caminho até a honra. 

*Ronaldo Bressane é autor, entre outros, de 'Mnemomáquina' (Demônio Negro) e do roteiro do romance gráfico V.I.S.H.N.U. (Quadrinhos na Cia.)

Mensur

Autor: Rafael Coutinho

Editora: Companhia das Letras (208 pág., R$ 54,90)

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