Húbris nacional bruto

Depois de 7 anos no poder, o presidente mais popular do País continua sendo o maior enigma brasileiro

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2009 | 00h10

O presidente Lula causou alvoroço outro dia. "Eu quero é saber se o povo está na merda e eu quero tirar o povo da merda", afirmou, definindo sua missão para uma plateia de nordestinos. Parte do País ficou estarrecida. (Outra parte, presumivelmente aquela na merda mesmo, aplaudiu.) O mais marcante da fala do presidente não era o palavrão, mas a pretensão. "Nós viemos para mudar a história do País", disse. "Mudar a história é escrever uma nova história deste País, incluindo os pobres como cidadãos brasileiros."

Talvez seja a bênção das pesquisas de opinião, que consagram Lula como o líder mais popular da história recente do Brasil. Poderia ser a fase minguante do mandato, que libera o titular da cautela protocolar e da política comedida, obrigatórias na sua estreia no poder. Após sete anos nas alturas, qualquer mortal ficaria embevecido (experimente substituir a palavra merda por miséria no mesmo discurso - eu quero tirar o povo da miséria - e tem-se a medida exata da sua ambição). Lula não se vê apenas como o roto-rooter-mor do Brasil, se não como o justiceiro nacional, aquele que veio para redimir os injustiçados. Se Getúlio Vargas era o pai dos pobres do País, Lula encarna o herdeiro, o filho do Brasil.

Lula, o Filho do Brasil, sobre a infância e o despertar político de Lula, pode até merecer as críticas por fazer vista grossa aos escândalos de Brasília, do mensalão, dos sanguessugas, dos companheiros com dinheiro na cueca. Mas a resposta emocionada nas salas de cinema sugere que o público autoriza a lacuna. Hagiografia é assim mesmo.

Só que a aura pode subir à cabeça. Há diversas formas de avaliar o bem-estar de um povo, do PIB ao Gini e até - diretamente do Butão - a taxa de felicidade nacional. No Brasil de Lula, acrescenta-se mais uma: o húbris nacional bruto. Já se comentou a tendência do presidente e seus devotos de definir seu governo como divisor de águas, um marco zero da história brasileira. Mais do que um slogan de marketing, o "nunca antes neste país" é o mote de um mito de origem. Assim, a ascensão do presidente se confunde com a trajetória improvável do País, dois emergentes que superaram privação, atraso e descrença para chegar ao lugar ao sol.

Mas o sol também se põe. O encantamento com o Brasil mostra sinais de fadiga. O economista-celebridade Paul Krugman falou do risco iminente de uma "bolha Brasil", que derrubaria o real - a mais valorizada das moedas emergentes em 2009 - e as ações voadoras da Bovespa. Nouriel Roubini, o economista da Universidade de Nova York que cantou a bola do colapso do mercado subprime, agora soa o alarme para o nosso lado: "Há euforia demais sobre o Brasil", disse a uma plateia de investidores em Nova York, em dezembro. Até o afamado desempenho do País como potência regional começa a atrair petardos. A secretária de Estado americana, Hilary Clinton, não explicitou o Brasil, mas nem precisava após a recepção calorosa em Brasília e demais capitais sul-americanas ao presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad: "Se quiserem flertar com o Irã", disse, "pensem duas vezes".

O questionamento é salutar. Lula foi alçado à estratosfera por asas próprias e por impulso alheio. Analistas com pé no chão lembram que os sucessos da era Lula se devem a 15 anos de estabilidade econômica, fruto de um pacto civilizatório que converteu os fundamentos econômicos - inflação baixa, parcimônia fiscal, respeito pelas regras do mercado livre - de heresia em senso comum. A bonança global deu um empurrão. Seis dos sete anos de Lula no poder foram de céus tranquilos por conta da economia internacional em ebulição, que conferiu ao Brasil mercados francos e oceanos de liquidez. "Lula surfou na onda perfeita", me disse Armínio Fraga, ex-Banco Central.

Fazendo justiça, Lula tampouco perdeu o equilíbrio e teve a destreza de não se desviar do rumo durante a crise mundial. Se isso parece pouco, é só ouvir o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que conta com franqueza como o Brasil se transformou de país-problema na economia mundial em emblema no mundo em turbilhão.

Lula, raposa que é, sabe jogar com as expectativas. Na ressaca da Grande Recessão, o mundo parece ávido por novos emblemas. Enquanto Lula lutava pelo reconhecimento internacional, o mundo achou nele um novo herói popular - da esquerda adestrada, que anseia por tirar o povo da merda, mas sem ameaçar os arranjos dos poderosos. Enfim, o bom selvagem de terno e gravata.

Só que se mostra cansado das regras do jogo. Se o ceticismo quase universal com o governo Lula obrigou-o a se comprometer em 2003 com políticas que a esquerda sempre desprezara - mercado livre, responsabilidade fiscal, inflação em baixa -, foi o sucesso em executá-las que hoje, ironicamente, permite a reviravolta. Aumentos polpudos a servidores, derretimento do superávit primário, críticas abertas às empresas privadas e o avanço estatal sobre a indústria do petróleo... O Lula triunfal de hoje está empenhado em enterrar o político da Carta ao Povo Brasileiro.

Guinada eleitoreira? Nada como o Lula de outrora, que brada contra os interesses do capitalismo internacional para eletrizar a militância e aquecer uma candidatura morna. Mas hipotecar o legado histórico para bancar a sucessão traz riscos e provoca inquietações. O Brasil que o mundo celebra como a mais nova potência regional é o mesmo que afaga aiatolás com sonhos nucleares e ensaia gestos chavistas como o controle social dos meios de comunicação? Convidar a Venezuela sob o jugo de Chávez para ingressar no Mercosul é soberba diplomática ou bolivarianismo light? O Brasil quer ser o primeiro do Terceiro Mundo ou o mais novo sócio de uma empreitada global? É curioso, e ao mesmo tempo apropriado, que às vésperas de 2010, após sete anos no poder, o presidente mais popular do Brasil continue sendo seu maior enigma.

Mac Margolis, Correspondente da revista Nesweek no Brasil

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