Lauren Fleishman/The New York Times
Lauren Fleishman/The New York Times

Ian McEwan lança um livro inédito e uma reedição no Brasil

Aos 70 anos, autor soma 12 romances e preenche as prateleiras com 'Meu Livro Violeta' e 'A Criança no Tempo'

Paulo Nogueira*, Especial para o Estado

21 Julho 2018 | 16h00

Aos 70 anos, Ian McEwan é um VIP literário daquela que muitos consideram a melhor das literaturas: a anglófona. Quarenta anos de estrada, 12 romances, prêmios badalados (Booker), adaptações para o cinema (Desejo e Reparação). E uma façanha rara: um amplo e fiel público leitor e críticas lisonjeiras. Mas nem sempre: ele tem seu quinhão de caneladas. Recentemente, o crítico James Wood puxou o tapete de McEwan nas augustas páginas da London Review of Books, apontando “uma tendência perturbadora para a suavidade”. Essa deve ter doído, pois no início da carreira Ian McEwan era conhecido como “Ian McCabro”, pelas suas tramas mórbidas. Como desgraça pouca é bobagem, o escritor John Banville, nas páginas da não menos canônica New York Review of Books, esculachou um dos mais aclamados romances de McEwan (Sábado), segundo ele “uma polêmica neoliberal que pifou”.

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Para celebrar a septuagésima primavera do autor, a Companhia das Letras lança dois títulos de McEwan: o inédito Meu Livro Violeta e A Criança no Tempo, reedição de uma obra da década de 1980, há muito esgotada. Ambos são um bálsamo, depois de Enclausurado, o tediosamente inepto livro anterior do escritor, que caiu do cavalo ao atribuir o narrador a um feto.

Meu Livro Violeta, publicado originalmente na revista New Yorker, é uma dissecação – ou uma evisceração – das pulsões ambivalentes do ecossistema literário. Depois dos mencionados corretivos, McEwan está com a faca e o queijo na mão. Desde a década de 1970, ele integra uma espécie de Três Tenores literários – a par de Martin Amis e Salman Rushdie –, que de vez em quando são acusados de tiranizar a ficção britânica. 

Para alguns, o carisma midiático daquela troika teria eclipsado outros colegas de geração não menos meritórios. E especialmente mulheres, como A. S. Byatt, Rose Tremain e Pat Barker – embora não as da geração seguinte, como prova Zadie Smith. Ora, é esse fervilhante vespeiro de amor e ódio, tietagem reverencial e ciumeira sanguinária entre literatos que Meu Livro Violeta tira de letra. Não descobre a pólvora, claro. Tanto que o narrador na primeira pessoa cita uma obra anterior sobre o tema, Se Um Viajante Numa Noite de Inverno, de Italo Calvino. E outro dos próprios Três Mosqueteiros também já abordou o assunto: Martin Amis, no romance A Informação.

Deparamos com um narrador inconfiável (o escritor meia-boca Parker Sparrow), mas que entrega o ouro: “Você terá ouvido falar de meu amigo Jocelyn Tarbet, um romancista que já foi célebre, mas cuja fama declinou. Sua ascensão coincidiu com o meu declínio, embora sem tê-lo causado. Depois, sua queda foi acompanhada por meu triunfo na batalha de todos os dias. Não nego que houve desonestidade. Roubei uma vida e não tenciono devolvê-la.” 

Confessional, sim – apologético, nem morto. A astuciosa chave para esta apetitosa comédia negra está no título original (My Purple Scented Novel). Em inglês, a expressão “purple prose” (prosa púrpura) designa um estilo literário rebuscado, pomposo, brega. E, neste caso, o desafio ficcional é precisamente obter o brilho narrativo apesar e até contra si mesmo, dado o texto canhestro do narrador/personagem, que rouba o manuscrito da obra-prima do amigo. E o corolário corresponde a uma moralidade perversa: o sem talento talvez mereça mais o sucesso do que o talentoso, pois aquele ama mais a arte do que este – só que o amor não é correspondido. 

Como Meu Livro Violeta só tem 41 páginas, o volume é robustecido com Por Você, libreto de McEwan para uma ópera de Michael Berkeley. Mas A Criança no Tempo, de 1987, é de outra estirpe. Para o amigo Christopher Hitchens, trata-se da obra-prima de McEwan. Quando a trama começa, Stephen Lewis, autor de livros infantis, empurra a vida com a barriga. Há três anos, a filhinha única dele foi raptada num mercado sob o seu nariz, e nunca mais encontrada. O casamento de Lewis vai para o ralo, e ele vegeta no sofá, contemplando de olhos vítreos programas de TV excrementícios. 

Há cerca de 15 anos, entrevistei McEwan e lhe perguntei qual a cena mais difícil que já escrevera. Ele lacrou: “A do rapto da Kate no supermercado.” De fato, a mera leitura do episódio, um turbilhão quase obsceno de tanta esperança e tanto pânico, beira o excruciante. O romance manipula questões complexas – a perda e seus efeitos sobre o amor, a natureza da infância e como ela é atraiçoada pela vida adulta, ser pai e ser filho, o mistério do tempo – que Platão descreveu como “a imagem móvel da eternidade”.

Como todas grandes obras literárias, A Criança no Tempo contém uma lição de vida, que aprendemos através da corrida de obstáculos do protagonista, de seus trancos e barrancos. Daí que a literatura seja a tal “ciência da alma”, de que fala Toni Morrison. 

Por essas e por outras, se McEwan é um tirano das letras inglesas, na pior das hipóteses é um déspota esclarecido.

*Paulo Nogueira é autor de 'O Amor é um Lugar Comum' (Intermeios) 

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