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Ícones da cultura se unem para combater o crime

O novo thriller de Kim Newman, 'Something More Than Night', se passa em Los Angeles nos anos 1930

Bill Sheehan, The Washington Post

02 de dezembro de 2021 | 10h00

Há mais de trinta anos o britânico Kim Newman vem produzindo uma ficção totalmente divertida e surpreendentemente original. Ele é objeto de um culto restrito em ambos os lados do Atlântico, mas essa situação pode – e deve – mudar com a publicação de seu novo e imersivo thriller de terror, Something More Than Night.

Para leitores não familiarizados com a obra de Newman, aqui vão alguns pontos que valem a pena observar. Em primeiro lugar, boa parte dessa obra acontece dentro de um universo ficcional coerente onde um grande elenco de personagens se move livremente de uma história a outra. Something More Than Night é uma narrativa independente, mas também traz ecos e reflexos da ficção já publicada do autor. Em segundo lugar, as narrativas de Newman são impregnadas de grandes e pequenos detalhes da cultura popular – os livros, filmes e programas de TV que influenciaram a todos nós. Sua obra-prima é a série de vários volumes Anno Dracula, que pega o romance original de Bram Stoker e o vira de cabeça para baixo, postulando um mundo no qual os heroicos caçadores de vampiros de Stoker não conseguiram destruir o conde Drácula, inaugurando um novo futuro bizarro no qual o vampirismo corre solto. A série é engenhosa e totalmente viciante. Você nunca leu nada parecido.

O mesmo se pode dizer sobre o último livro de Newman. Embora em menor escala do que os romances Anno Dracula, é igualmente inteligente e também deve muito à cultura popular. A história se passa na Los Angeles no final dos anos 1930. Os protagonistas são uma dupla improvável que ganhou destaque naquela época: “R.T.” (o autor de romances de mistério Raymond Chandler) e “Billy” (também chamado de William Pratt, mais conhecido como Boris Karloff, o ator de Frankenstein). Na versão de Newman, esses homens – que nunca se conheceram na vida real – compartilham uma história comum. Ambos são “homens que vêm das escolas públicas inglesas” e que se conheceram no campo de críquete do Dulwich College. Ambos, na juventude, foram tocados por uma entidade sobrenatural. Esse “toque” os marcou para o resto da vida e precipitou uma série de aventuras paranormais que aqui ficam apenas sugeridas. A última dessas aventuras compõe a essência de Something More Than Night.

A história começa com um telefonema no meio da noite, quando Chandler e Karloff são convocados para averiguar um aparente homicídio no cais de Santa Monica. A cena foi montada para se assemelhar a um assassinato descrito no romance de estreia de Chandler, The Big Sleep. Mas o rosto da vítima foi destruído por uma espingarda, o que faz deste um assassinato muito mais terrível do que qualquer coisa que Chandler já tenha concebido. O crime, observa Karloff, reúne os mundos do Mistério e do Terror. À medida que a narrativa prossegue, o Horror logo se torna o elemento dominante.

A vítima é rapidamente identificada como John Devlin, investigador particular, escritor de ficção popular e pelo menos em parte modelo para Philip Marlowe, o icônico detetive de Chandler. Três anos antes, o trio havia investigado um incidente sensacional que ficara conhecido como o mistério da Home House: Ward Home Jr., rico presidente da Pyramid Pictures, foi visto correndo de sua casa envolto em chamas e depois desapareceu na noite. O caso se tornou foco de intenso escrutínio público, mas os detalhes do ocorrido nunca foram revelados.

O que Chandler descobre no porão da Home House o leva para longe do mundo familiar de bandidos baratos, policiais desonestos e damas perigosas de Marlowe, direto para um mundo que Karloff poderia chamar de doce lar. Seguindo a trilha do homem em chamas de volta à sua fonte, os três “detetives” encontram o laboratório de um cientista louco que tem uma indefectível semelhança com aquele em que o monstro Frankenstein ganhou vida no clássico de James Whale. Suspensos dentro de dispositivos elétricos montados na parede estão quatro pessoas – apenas uma delas ainda está viva.

Todas participavam de um experimento prometeico cujo objetivo era estender a expectativa de vida humana. Essa busca louca pela imortalidade é apenas um dos fios de uma narrativa intrincada que engloba bruxaria, transformações impossíveis, fugas por um triz, palhaços assassinos e uma variedade de assassinatos inovadores. Meu favorito: morte por uma torta na cara envenenada. Comédia pastelão e terror sobrenatural são uma combinação difícil de realizar. Newman faz com que pareça fácil.

Sob a gótica extravagância de seu enredo, o sucesso do livro se baseia numa pesquisa perfeitamente integrada e caracterizações convincentes e empáticas. O Karloff de Newman é uma figura vulnerável e decente que passará por muitas mudanças e se tornará mais humana do que antes. Chandler, nosso narrador e herói relutante, é um homem com histórico de bebedeiras e uma queda pelas mulheres. Foi moldado por sua experiência na escola pública inglesa e é assombrado por memórias indeléveis da Grande Guerra. Com uma voz clara e equilibrada, ele nos guia por um mundo noturno que é mais sombrio e infinitamente mais estranho do que sua própria imaginação literária. É uma jornada que vale a pena percorrer. / Tradução de Renato Prelorentzou

Something More Than Night

Kim Newman

Titan - 352 páginas - US $15.95

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