Ideias engessadas

Tanto nos antigos comícios como nos atuais debates, campanhas eleitorais nunca foram bom momento para se discutir programas

Boris Fausto

14 de agosto de 2010 | 16h00

Popular. Em meados da década de 40, Prestes e o então Partido Comunista do Brasil estavam no auge

 

 

O ano de 1945, no mundo e no Brasil, não foi um ano qualquer. Em nosso país, o fim da 2ª Segunda Guerra Mundial, resultando na derrota do nazi-fascismo, e a volta dos pracinhas da FEB, que lutaram na Itália, foram momentos de grande entusiasmo popular. Além disso, naquele ano, Getulio Vargas foi deposto e o Estado Novo chegou ao fim; o Partido Comunista saiu da clandestinidade e tornou-se legal; eleições diretas para a Presidência da República foram realizadas no último mês do ano, com a vitória do general Eurico Gaspar Dutra sobre o brigadeiro Eduardo Gomes, com mais de 54% dos votos.

 

O fim da mordaça imposta pelo Estado Novo incentivou as manifestações políticas, em que a classe média teve um papel relevante. A expressão mais alta dessas manifestações foram os comícios que se estenderam por todo o ano. Curiosamente, o maior desses comícios não fez parte da campanha eleitoral. Em São Paulo, no mês de julho de 1945, uma grande massa de cerca de 100 mil pessoas foi ao Estádio do Pacaembu para ouvir a palavra de Luís Carlos Prestes.

 

Naquela época, o líder do Partido Comunista do Brasil (PCB), estava no auge da sua popularidade. Ele fora um dos heróis da coluna que ganhou seu nome, saíra da prisão em que Getúlio Vargas o encerrara durante o Estado Novo e se associava ao prestígio da União Soviética - uma das potências vencedoras do nazi-fascismo. De passagem, convido o leitor a buscar na internet (Google) a referência a "comícios no Pacaembu" e assistir a um breve documentário, encomendado pelo Comitê Central do PCB. Destaco aí as cenas da chegada dos manifestantes - muitos deles engravatados -, formando longas filas para entrar no estádio e um significativo trecho do discurso de Prestes, em que ele cita Stalin, prega unidade, democracia e progresso e denuncia os inimigos do povo, colocando num mesmo saco, trotskistas, reacionários e fascistas.

 

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Por muitos anos os comícios representaram a forma mais expressiva de manifestação coletiva. Quem deles participou lembra das principais imagens e momentos desse ritual: as múltiplas faixas, o contato físico dos participantes, o entusiasmo crescente quando os oradores lançavam palavras de ordem, ou as vaias quando eles se referiam aos malsinados adversários. O rádio se encarregava de difundir os comícios realizados nas grandes cidades, estendendo assim seu raio de influência.

 

Mas o êxito maior ou menor dos comícios não indicava, por si só, a vitória deste ou daquele candidato. Outros fatores entravam em jogo. Por exemplo, apesar do contraste entre os magros comícios do general Dutra e a campanha entusiástica dos "lenços brancos" - referência aos lenços agitados nos comícios do brigadeiro Eduardo Gomes, Dutra obteve a maioria absoluta de votos.

 

Nem tudo mudou entre o ano de 1945 e os dias de hoje. Assim, a máquina do Estado foi utilizada largamente na primeira eleição pós-ditadura e continua sendo utilizada, em maior escala e sob novas formas, nos dias de hoje. Feita essa importante ressalva, são óbvias as diferenças entre as campanhas eleitorais de 65 anos atrás, em confronto com as atuais.

 

Fico aqui num aspecto, o da transformação dos meios utilizados como canal de comunicação entre os candidatos e os eleitores. Os comícios não desapareceram, mas perderam muito de sua importância com a entrada avassaladora da televisão. Os debates entre os candidatos e o horário eleitoral chamado de gratuito, na verdade, pago pelo contribuinte, são os momentos mais nítidos de confronto. Em regra, eles não têm a importância que a mídia televisiva lhes atribui. A audiência pode variar de uma eleição para outra, ou em função de um momento da campanha. Mas os debates são cada vez mais submetidos a regras rígidas, que engessam os candidatos, nos poucos minutos de que dispõem. Quando muito, uma pílula de propostas aparece nesses minutos. Não escorregar e aplicar um bom golpe no adversário é quase tudo que os marqueteiros desejam.

 

Isso não impede que, em eleições presidenciais acirradas, os debates venham a ter grande importância. Para ficar num só exemplo, lembro o confronto de 1989 entre Lula e Collor, que hoje andam de braços dados, na TV-Globo, no qual Lula se perdeu, atingido em sua intimidade por um golpe baixo. Por sua vez, o horário político "gratuito", além de estereotipado, incentiva alianças inusitadas dos partidos, à margem de qualquer princípio, contribuindo para esfacelar nosso cambaleante sistema partidário.

 

Trato de evitar, porém, o saudosismo. Se o quadro atual é esse, no passado, os comícios primavam pela retórica. Infelizmente, as campanhas eleitorais não são um bom momento para discutir ideias e programas. Esse é um objetivo a ser buscado ao longo dos anos, e depende da renovação de boa parte da classe política.

 

*Boris Fausto é historiador, professor aposentado do Departamento de Ciência Política da USP e autor, entre outros livros, de 'A Revolução de 30 - Historiografia e História' (Companhia das Letras)

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