Identidades uniformes

A produção industrial de nossa cultura tende a padronizar tanto a vestimenta quanto o próprio pensamento

Antonio A. S. Zuin*, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2009 | 03h22

Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão! (Baudelaire, "As Flores do Mal")

Em matéria publicada quarta-feira no Estado de S. Paulo, observou-se a intenção do Ministério da Educação (MEC) de centralizar a compra de uniformes, móveis escolares e medicamentos para hospitais universitários. Juntamente com as secretarias estaduais e municipais, as compras seriam feitas numa espécie de pregão que teria, como principal escopo, promover a agilidade da compra, de tal modo que isso acarretaria tanto o arrefecimento da burocracia quanto a redução dos preços. A previsão inicial é de que 50 milhões de alunos da educação básica serão contemplados com os recursos de tal programa. A despeito das justificativas econômicas, a intenção do MEC suscita uma reflexão pedagógica sobre a utilização do uniforme.

Sabe-se da importância histórica do uniforme como item facilitador tanto da identificação de seu usuário como partícipe de um determinado grupo quanto do desenvolvimento das chamadas disciplinas, tal como Foucault as definiu no seu livro Vigiar e Punir, ou seja, de métodos que promoveriam o controle das operações dos corpos úteis e dóceis. Assim, o uniforme teve um papel relevante no auxílio do olhar classificador não só dos militares como também dos professores. No caso do olhar classificador dos mestres, tornou-se conhecida a referência feita por Foucault ao colégios lassalistas franceses do século 18, nos quais também a distribuição espacial dos assentos nas salas de aula produziria uma série de distinções, tais como o nível de avanço dos alunos, o valor de cada um de acordo com a limpeza e o asseio dos corpos e de suas vestimentas e a fortuna dos pais, entre outras formas de diferenciação. Não por acaso, Foucault caracterizou o espaço escolar como uma máquina de ensinar, de vigiar, de recompensar e de hierarquizar. O processo de se criar distinções no ambiente escolar foi objeto do monumental estudo de Bourdieu e Passeron, cujas considerações no livro A Reprodução também enfatizaram a importância do uso de certos trajes, que, ao lado do contato com certos livros e filmes, auxiliaram a legitimação e a valorização de determinados capitais culturais em detrimento de outros nas escolas francesas do século 20.

Atualmente, não são poucos os professores que defendem o uso de uniformes, pois a padronização da vestimenta poderia facilitar a identificação dos alunos não só dentro das instituições escolares, como também no seu entorno. De fato, tais opiniões são até certo ponto justificadas, sobretudo se pensarmos na ajuda do uniforme para o incremento da segurança dos próprios alunos, mas o reconhecimento dessa pretensa utilidade do uniforme não pode ser um fator que oblitere o raciocínio sobre o significado de se portar um uniforme numa cultura cuja produção industrial tende a estimular a padronização tanto da vestimenta quanto do próprio pensamento.

São vários os logotipos que se digladiam titanicamente entre si com o objetivo de vencer a batalha e poder "capturar" a atenção daqueles que cotidianamente os consomem. O adolescente que não se uniformiza com determinado logotipo de uma marca famosa de roupas corre o risco de sentir um tipo de frio tão ou mais portentoso que o frio físico, na medida em que se torna objeto da frialdade dos outros que o consideram exatamente como objeto e não como um sujeito, como um interventor. Já os membros das torcidas organizadas de futebol necessariamente precisam portar em seus uniformes o logotipo do clube e da torcida, a ponto de humilhar ou até mesmo matar aquele que "ousa" ostentar em sua roupa o brasão de uma outra equipe. É nesse sentido que o participante da torcida organizada se assemelha ao fundamentalista que se aferra, desesperada e autoritariamente, a uma crença que, no fundo, sabe que já não mais possui. Daí a necessidade de defendê-la literalmente a ferro e fogo. Em sistemas explicitamente autoritários, o uso do uniforme materializa imediatamente a barbárie de uma coletividade que considera como seus aqueles que não admitem como verdadeira uma forma de proceder e de pensar que não siga a cartilha da própria coletividade. No limite, a equação matemática, que reverbera a instrumentalização do outro de acordo com a lógica do pensamento padronizado, ilustra a exclusão ou até mesmo a aniquilação do "diferente": ou se está dentro ou se está fora. Ora, a psicanálise há muito já demonstrou que a ojeriza e o ódio, projetados no indivíduo que não se comporta de acordo com as normas de determinado grupo, são códigos cifrados da inveja do agressor que desejaria, no seu íntimo, ter a liberdade de determinar as tonalidades de suas opções políticas, sexuais, religiosas, etc. Mas a opacidade da lógica paranoica não suporta tal provocação e assim mata literalmente o diferente na esperança de poder solapar seu próprio desejo.

Se os uniformes cumpriram a função de imediatamente poder diferenciar os partícipes ou não de um determinado grupo, bem como de ajudá-los a se ligar libidinalmente entre si, a análise de seu uso não pode ser desvinculada do contexto e da situação histórica na qual foram engendrados. Seguindo essa linha de raciocínio, as atuais manifestações de violência praticadas por aqueles que trajam os mesmos uniformes, tal como no caso dos integrantes das torcidas organizadas, não podem ser identificadas como algo casual, mas sim como expressão do espírito de um tempo, de uma cultura que propaga um discurso de respeito às diferenças ao mesmo tempo que incita a produção e a reprodução de atos de barbárie. Os professores que defendem a utilização dos uniformes por questões de segurança não podem vendar os próprios olhos para o fato de que seus alunos, em muitas ocasiões, ao portarem determinados logotipos, afirmam narcisicamente suas pequenas diferenças por meio da prática de violências físicas e simbólicas em outros alunos que, na verdade, não são tão diferentes assim.

*Professor associado do Departamento de Educação da Ufscar e autor, entre outros, de Adoro Odiar meu Professor: o Aluno entre a Ironia e o Sarcasmo Pedagógico

(Editora Autores Associados)

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