Ignorância, sabedoria e nhenhenhém

No bate-boca lingüístico-cultural com FHC, Lula confunde simplicidade, que é bom, com ignorância, que não é

José de Souza Martins*, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2007 | 21h38

Referência recente ao vacilante português de Lula, por parte do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, teve ácida reação do presidente Luiz Inácio, na costumeira linha de que não é preciso ser um acadêmico e doutor para ser o melhor presidente que o Brasil já teve. Deixando de lado que, segundo a sabedoria popular, elogio em boca própria é vitupério, o que está em jogo nas recíprocas alfinetadas é o fato de que o povo brasileiro é bilíngüe e um abismo ainda separa culturalmente pessoas de distintas origens sociais. Fernando Henrique Cardoso vem do meio acadêmico e, por isso, do ideal republicano que começou a vingar com a formação de nossas universidades públicas, em particular a Universidade de São Paulo, de qual ele foi aluno e docente, de que a cultura erudita deveria ser desconcentrada e chegar até a massa do povo e da população pobre. A criação da Faculdade de Filosofia teve por objetivo preparar os docentes que levassem para o ensino médio o saber e a visão de mundo que se cultivava e difundia na universidade. E no ensino médio, nas escolas normais, seriam preparados os professores que levariam esse saber para as escolas primárias do campo e da cidade, para os ricos e para os pobres. Na cultura acadêmica criou-se e difundiu-se a concepção do dever de corrigir e ensinar, expressão de uma grande esperança pedagógica na missão emancipadora e libertadora do educador. Justamente por isso, houve tempo em que o professor era visto com admiração, respeito e acatamento. Dois petistas eméritos e destacados, Antonio Candido e Florestan Fernandes, que foram professores de Fernando Henrique Cardoso, tornaram-se, como o próprio Fernando Henrique, verdadeiros apóstolos dessa maravilhosa concepção do ensino e da educação. Talvez não tenham sido suficientemente ouvidos por Lula e outros petistas que tropeçam na dualidade cultural.Lula fala o dialeto que se desenvolveu no subúrbio operário, especialmente no meio sindical e político, que é uma colagem de vocabulários, uma junção do imaginário do futebol e sua língua, com o vocabulário de uma difusa religiosidade de desobriga e, finalmente, o vocabulário dos dirigentes sindicais, que se sentem obrigados a falar a língua travada, kafkiana e cartorial dos formalismos da lei. Muitos dos operários que subiram na vida, como Lula, vinham do interior e da roça, habituados a falar o belíssimo dialeto caipira ou sertanejo, o português arcaico e literário que, mesclado com sonoridades e palavras da língua nheengatu, que foi nossa língua brasileira até o século 18, então proibida pelo rei de Portugal, tornou-se a língua popular, a língua cotidiana de todos nós. A fala ágil e prática de Lula, não obstante os atritos gramaticais, que não são superiores em número à média nacional, representa bem comportado progresso. É um milagre que Lula não fale com sotaque italiano, do brasileiro de terceira geração que era diretor da escola primária em que estudei no mesmo subúrbio, e que era o sotaque de muitas crianças aqui nascidas. Nossa fala brasileira não esconde o substrato comum e popular da língua que todos falamos. Fernando Henrique foi injustamente crucificado, em 1997, por muitos petistas que hoje dele reclamam pelas referências ao português de Lula, por ter usado palavra da língua nheengatu e do dialeto caipira ao criticar seus críticos de ocasião, que o questionavam pelo suposto neoliberalismo, e dizer que isso era "nhenhenhém", isto é, para simplificar, "falação", falar demais e sem fundamento. "Nhenhenhém", aliás, que todos usamos na nossa fala cotidiana, composta em boa parte de palavras do vocabulário tupi. Temos aí um fenômeno histórico e social que não tem merecido atenção nem debate. A ascensão do PT se deu com base em polarizações de uma cultura dualista quase imperceptível, que nos divide como povo: os que são sujeitos da cultura erudita e os que o são da cultura popular. Até aí, nada muito diferente do que ocorreu em outros países, em que houve a valorização da cultura popular em nome da necessidade histórica e política de reconhecer nos pobres e nos trabalhadores uma identidade própria, sólida e antiga. Na Itália, foi a antropologia gramsciana de Ernesto De Martino e seus seguidores que reconheceu nos simples um saber próprio e legítimo. Na Inglaterra, foi a corrente historiográfica que teve no historiador Ralph Samuel uma das referências no estudo de costumes e tradições do povo. Com a diferença de que os trabalhistas ingleses criaram em Oxford o Ruskin College, um college para dar a trabalhadores a oportunidade do estudo num dos melhores centros universitários do mundo.No Brasil, o racha lingüístico e cultural ganhou força política por essas influências externas, especialmente a de Antônio Gramsci, a partir dos anos 60, no reconhecimento da legitimidade da língua do povo, mas também de sua medicina, de seu direito, de sua agronomia, de sua botânica, de sua zoologia, de sua arquitetura imaginativa (de que as favelas estão cheias de exemplos), de sua literatura oral, de sua arte primitiva, de sua música antiga e, não raro, refinada, na viola de dez cordas. As pastorais sociais da Igreja Católica abrigaram, e trataram com respeito, durante um tempo, a cultura acadêmica voltada para o popular e diferente. Pesquisas foram feitas, estudos realizados. As complicações começaram com as simplificações da militância política e partidária, que levaram ao rompimento com o verdadeiro mundo acadêmico e à desqualificação do saber erudito, o que o MST faz reiteradamente. O resultado, certamente perigoso, foi a afirmação da tendência de que a ignorância é sábia e o saber erudito é luxo. Lula repetidamente se aventura nessa linha, pensando em si mesmo, em vez de pensar em milhões de crianças e adolescentes que não podem nem devem ser desestimulados em relação à importância vital da escola, da educação e do conhecimento de alto nível para que este país se torne logo o País que queremos. *José de Souza Martins é professor titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.