Curtis Skinner/Reuters
Curtis Skinner/Reuters

Igreja americana cultua o jazzista canonizado São John Coltrane

Fiéis se reúnem aos domingos, em São Francisco, para ouvir a música de Coltrane em templo da Igreja Ortodoxa Africana

Dirce Waltrick do Amarante e Sérgio Medeiros, Especial para O Estado de S. Paulo

10 Março 2018 | 16h00

Todo domingo, ao meio-dia, reúnem-se na Saint John Coltrane Church, em São Francisco, Califórnia, um pequeno grupo de fiéis e de turistas para celebrar as palavras e a música do jazzista americano John Coltrane (1926-1967), em especial as melodias de seu álbum A Love Supreme (Um Amor Divino), de 1965, em um culto que dura cerca de duas horas e no qual os presentes são convidados a participar livremente, seja dançando, cantando, dando depoimentos ou tocando instrumentos como pandeiros, tambores e maracas, que ficam à disposição de todos no corredor da igreja.

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Em um domingo de fevereiro, estavam presentes, além dos fiéis de costume, um casal francês que soube da igreja por meio de um livro de atrações turísticas. Um grupo de amigos veio de uma cidade vizinha, San Jose, e contou que costumava participar do culto sempre que podia, não só por amor ao jazz, mas por acreditar na atmosfera “mágica e contagiante” do lugar: “Duas horas passam como se fosse um minuto”, disse um deles.

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O som exultante e hipnótico criado por John Coltrane em A Love Supreme espraia-se pelos longos solos do saxofonista, os quais, segundo Ashley Kahn, vão da meditação sussurrada aos gritos selvagens e, às vezes, meio sufocados, sugerindo o ritmo de um pregador de domingo. Por isso, foi classificado como “jazz espiritual”.

A música luminosa e experimental de Coltrane, que veio depois do free jazz de Ornette Coleman e Charles Mingus, poderia ser descrita, grosso modo, como de vanguarda, porém a sua agressividade não impediu que, nos círculos jazzísticos dos anos 1960, o álbum se tornasse instantaneamente um recordista de vendas. Nas quatro partes dessa suíte, forma e energia (a mesma energia do bebop e do gospel) interagem harmoniosamente, conforme avaliou Kahn. Numerosos músicos já declararam publicamente sua admiração por A Love Supreme, cuja linguagem e concepção não envelheceu. O que poucos sabem é que John Coltrane foi canonizado pela Igreja Ortodoxa Africana.

Quem chega cedo pode assistir à transformação do templo em Saint John Coltrane Church, sempre envolvido em forte aroma de incenso. Jesus e os santos pintados nas paredes que rodeiam o altar da Igreja de São Cipriano são todos negros. Entram no recinto fundadores da igreja, o sr. e a sra. King, portando imagens de Coltrane: numa delas, o santo segura um sax que emite chamas; noutra, seu rosto se alterna com o de Billie Holiday. A cada primeiro domingo do mês, o ritual consiste na audição de olhos fechados de A Love Supreme, cujo título Coltrane canta várias vezes. Os presentes foram convidados a cantar junto esse “mantra”, que ostenta uma eloquente inversão poética, à maneira de Walt Whitman, que escreveu “forest primeval” em vez de “primeval forest”.

Os músicos, (entre eles, um pianista indicado ao Grammy), começaram a tocar sem nenhum ensaio. Foi uma improvisação entusiástica, entremeada de cantos. De vez em quando, todos gritavam “Aleluia” e “Amém”. A atmosfera era tão festiva que não houve meditação, mas a pregadora não abriu mão do sermão. Citando o Evangelho de Mateus, comentou a história do mendigo de Jericó, que não era capaz de ver, mas sabia ouvir. Na Igreja de São John Coltrane, todos são “cegos” que ouvem bem. Wanika King Stephens, ordenada há 6 anos, e seu pai, o arcebispo Franzo King, responderam às seguintes perguntas ao Aliás.

Quando a igreja foi fundada?

W: Em 1969, dois anos depois da morte de John Coltrane. Porém, antes de ser uma igreja oficial, era um centro para ouvir música, meditar e escutar uns aos outros. As pessoas se encontravam e ouviam John Coltrane, Thelonious Monk e Miles Davis, entre outros. Mas logo viram que havia uma diferença entre o que Coltrane e outros jazzistas faziam. Então começaram a estudar suas composições e poemas, em especial os de A Love Supreme. Esses poemas (que não são letras) testemunhavam como ele havia sido salvo do vício da heroína e quão feliz ficara ao se sentir curado. Depois disso, teria perguntado a Deus como poderia ser capaz de compor música para tornar as pessoas felizes. Existia uma intenção específica por trás da música que ia além de querer formar uma banda e vender milhões de discos.

Como a família do músico reagiu à ideia? 

F: Swamini Turiyasangitananda (nome que sua viúva Alice Coltrane adotou quando se converteu ao hinduísmo), nos contatou e disse que já tinha na mente e no coração a vontade de nos visitar e dizer que estávamos cumprindo os maiores ideais do “pai” – era assim que se referia a Coltrane. Ela foi à nossa casa e disse que devíamos nos iniciar. Nos iniciou no hinduísmo e criou um Instituto chamado Vedantic Center. 

Como vocês descrevem o culto de domingo?

W: Somos parte da Igreja Ortodoxa Africana, que teve início em 1921, quando George Alexander McGuire, que era sacerdote da Igreja Anglicana, não pôde continuar por causa do racismo. Ele decidiu se afastar dessa igreja, que passou a excluir de repente as pessoas negras, e criou uma que incluísse pessoas de todas as raças e etnias. Bem, quando você nos visita, vê uma combinação da devoção ao nosso padroeiro, São John Coltrane, com a liturgia da Igreja Ortodoxa Africana. As orações são similares, a liturgia é a mesma que se tem em muitas igrejas; a diferença é que a música que se ouve aqui é a do São John Coltrane, que se une às orações a Deus. 

Por que vocês denominam Coltrane um santo?

W: John Coltrane foi de fato canonizado em 1982. Muitos não entendem, acham que é uma invenção, mas somos parte da tradição cristã, temos uma sucessão apostólica. Seguimos os ensinamentos de Jesus, porém não almejamos tanto ser cristãos, mas indivíduos transformados, movendo-nos para a consciência de Cristo. Nos preocupamos com as ações e a consciência moral, esses são nossos lemas enquanto cristãos. 

*Dirce Waltrick do Amarante traduziu e organizou, entre outros, 'Finnegans Wake (Por um Fio)', de James Joyce (ed. Iluminuras)

*Sérgio Medeiros é poeta, dramaturgo e ensaísta, autor, entre outros livros, de 'Trio Pagão' (ed. Iluminuras) 

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