FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

'Ilíada' foi guia sexual do autor Reinaldo Moraes

As cenas de orgia de 'Pornopopeia' tem equivalentes nas cenas de batalha do clássico de Homero

André Cáceres, O Estado de S. Paulo

18 Agosto 2018 | 16h00

Ao contrário dos contos de 1852 a 1922 selecionados por Eliane Robert Moraes em seu livro recentemente lançado nela editora Cepe, O Corpo Descoberto,  com algum viés erótico sutil, a literatura se soltou das amarras moralizantes após o Modernismo. Se Macunaíma, a rapsódia fantástica de Mário de Andrade, publicada em 1928, chocou a sociedade sem conter descrições explícitas, a literatura erótica brasileira floresceu no século 20 com nomes como Nelson Rodrigues, João Ubaldo Ribeiro e Hilda Hilst, entre muitos outros. Mas Reinaldo Moraes, um dos principais nomes contemporâneos do estilo no País, cita outra inspiração para suas obras. 

“Desde o meu primeiro livro, Tanto Faz, em 1981, busco um pouco da irreverência e de uma certa pegada poética do Oswald de Andrade, sobretudo do Serafim Ponte Grande e do Memórias Sentimentais de João Miramar. No Serafim, tem um capítulo só com uma frase: ‘Enrabei Dona Lalá’, que é a mulher dele. Mas é mais no trato formal da linguagem, nada que tenha a ver com cenas mais gráficas de sexo. Isso realmente não tinha na literatura brasileira até recentemente.”

Reinaldo prepara a publicação de Maior que o Mundo, romance em três partes pela editora Alfaguara que virou filme pelas mãos do diretor Roberto Marquez e deve estrear nos cinemas em 2019, com Eriberto Leão e Luana Piovani. “É a história de um escritor em bloqueio criativo, mas já virou folclore essa coisa do bloqueio criativo, e de repente isso se resolve de uma maneira surpreendente para ele”, resume o autor, que escreveu o roteiro para Marquez em 2013 e, então, decidiu transformá-lo em livro. “Normalmente os ficcionistas ficam loucos com os diretores que tomam uma série de liberdades ao adaptar seus livros, e é muito comum o escritor achar que foi traído. E eu fiz exatamente o contrário, fiz um livro que trai o roteiro.”

Uma de suas obras eróticas mais relevantes é Pornopopeia (2009), que tem uma antológica cena de sexo grupal que se estende por uma centena de páginas. “As dificuldades formais, técnicas, de se descrever uma cena gráfica de sexo são as mesmas de uma de violência”, pondera Reinaldo, que leu a Ilíada enquanto estava no processo de escrita de Pornopopeia. Em uma das batalhas narradas por Homero, ele percebeu a semelhança: “É um monte de gente enfiando coisas uns nos outros. Lanças, flechas, espadas… Há uma penetração do corpo do outro no registro da violência. Mas, formalmente, se você mudasse o sinal, onde há violência passa a ser sexo.” 

Apesar de essa questão mais explícita na literatura já ter sido superada, pelo menos aparentemente, Reinaldo recorda da tensão que sentiu a respeito da reação do público e da crítica antes da publicação do livro por causa do teor erótico exacerbado. “Quando eu comecei a escrever o Pornopopeia, fiquei um pouco apreensivo sobre como seria recebido. Porque não é uma cena ou outra, é uma suruba que ultrapassa cem páginas, e a coisa vai numa evolução de maluquice erótica, de degradação mesmo, de escatologia”, relembra o escritor. “Mas eu fiquei muito surpreso de ver como as pessoas dirigiram sua atenção mais à questão literária, de como a coisa foi resolvida formalmente no livro como um todo. Ninguém ficou escandalizado ou esboçou algum tipo de restrição de ordem moral. Eu pensei que, de repente, tinha virado as costas e o mundo tinha evoluído. Esse panorama ético, moral, em relação ao sexo, mudou muito.” 

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