I'll be watching you

O britânico Andrew James Somers é um artista de muitas faces. Desde 1986, quando a banda The Police deixou os palcos no auge, o guitarrista - de nome artístico Andy Summers - prosseguiu em inquieta carreira solo, com direito até a disco de bossa nova com a brasileira Fernanda Takai, em 2012 (Fundamental, lançado pela gravadora Deckdisc). Durante todo esse tempo, porém, dedicou-se igualmente à outra paixão, menos conhecida, de sua juventude: a fotografia. 

Entrevista com

Andy Summers

Ivan Marsiglia, O Estado de S. Paulo

19 Julho 2014 | 16h00

Hoje com 71 anos, o autor da coletânea Andy Summers: I’ll Be Watching You - Inside The Police 1980-1983 (Taschen, 2007) falou ao Aliás sobre os encontros e dissonâncias de suas duas formas de expressão, de seu fascínio por personagens do submundo e da dimensão mágica e surreal da chamada “fotografia de rua” - expressos nestas imagens feitas, conta Andy, com uma câmera Leica Monochrom que o fez “finalmente trocar, cerca de um ano atrás, o filme pelo digital”. 

O que veio antes, a música ou a fotografia?

Comecei a fotografar ainda menino. Com 14 anos arrumei um emprego de verão tirando fotos de pessoas na praia em minha cidade natal (Poulton-le-Fylde, no condado de Lancashire). Conheci um monte de garotas... Mas passei a levar a coisa a sério em 1979, nos primeiros anos do The Police, quando comprei uma Nikon FE em Nova York e decidi me dedicar à fotografia.

Você ‘vê’ imagens quando toca ou ‘ouve’ música ao fotografar?

Sim, acho que há algo de verdade nisso. É um certo tipo de sinestesia, em que percebo um meio de expressão nos termos do outro. De forma geral, as artes visuais podem ser percebidas dessa maneira musical: como estridentes, calmas, harmônicas, etc. E, pessoalmente, sempre busquei certa “musicalidade” em tudo o que faço. Como guitarrista, sou um improvisador, um músico que cria no momento - o que me ajuda na fotografia. 

O fato de ser um astro do rock dificulta seu trabalho na hora de fotografar na rua?

Geralmente me visto de preto e uso uma máscara. Funciona. Mas existe um certo clichê quando se fala em “fotografia de rua” que eu gostaria de desmistificar. Como se ela indicasse certa consciência social por parte do fotógrafo. Para mim, é simplesmente a forma de trabalhar com a vida real, que é, em si, repleta de surrealismo e magia. O mundo cotidiano se torna uma espécie de livro do qual você escolhe as páginas para montar a sua sequência. Uma série de questões em aberto. 

Suas fotos trazem certa atmosfera de desolação, de ruas escuras povoadas por boêmios e travestis. O que o atrai nesse universo? E por que essa obsessão com talheres?

Gosto de clicar à noite, quando as coisas se tornam mais misteriosas e ambíguas. A noite é povoada por um submundo ao mesmo tempo fascinante e ameaçador. Quanto aos garfos, facas e colheres, não se trata de nenhuma obsessão... Talvez uma leve reminiscência do (fotógrafo, pintor e anarquista norte-americano) Man Ray. Estas colheres, por exemplo, eu fotografei em uma vitrine de La Paz, na Bolívia.

Outra imagem impressionante é a da mulher olhando para uma foto de Elvis Presley, como se mirasse um espelho. Há algo de sua experiência como rockstar aí?

Essa foto está mais ligada a uma série de questões em aberto. Quem é essa mulher? O que está fazendo no quarto? Como é seu rosto? Por que está olhando para Elvis Presley? Trata-se do momento particular de alguém que nos convida à observação. Uma imagem sempre suscita questões, mas a fotografia é uma linguagem não verbal, existe em seu próprio espaço. 

Quais são os heróis da fotografia para o guitar hero Andy Summers?

São tantos grandes fotógrafos... Mas citaria os americanos Robert Frank, Ralph Gibson e Lee Freidlander, o francês Henri Cartier-Bresson e o japonês Daido Moriyama. 

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