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Ilustrações de Jean-Jacques Sempé exaltam o mundo da música

Cartunista francês confessa que sempre sonhou em ser músico e publica desenhos sobre o tema em livro

João Marcos Coelho*, Especial para o Estado

19 Maio 2018 | 16h00

A música é o eixo de uma grande exposição de desenhos na Galerie Martine Gossieaux, que terminou ontem, em Paris, e também o título (Musiques) de um livro em formato grande contendo centenas de inéditos em torno da música e dos músicos. Tudo para marcar o clímax da maior paixão da vida de Jean-Jacques Sempé, possivelmente o único dos grandes artistas gráficos internacionais a fazer do amor à música e aos músicos mote preferencial de sua arte. “A música salvou minha vida”, diz ele na longa e divertidíssima entrevista com Marc Lecarpentier no livro Musiques, que esmiúça, pela primeira vez, o modo como nasceu esta paixão. “Creio que sem ela eu teria enlouquecido. Muito mais do que sou hoje”, diz Sempé.

Aos 86 anos, o autor dos celebrados e populares livros da série Le Petit Nicholas em parceria com René Goscinny dos anos 1950/60 e um dos raros não americanos a assinar capas da New Yorker desde 1979, já publicou dezenas de livros com desenhos de humor e é conhecido no mundo inteiro. E não desenha sobre música & músicos como alguém externo, de fora. Afinal, só um “insider” criaria o célebre cartum em que um faxineiro varre as centenas de notas que deveriam ter sido tocadas mas forram o chão do palco onde acabam de se apresentar os músicos de uma orquestra sinfônica. 

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Outro saudável diferencial é que, ao contrário dos músicos em geral engessados em seus gêneros, Sempé não sapeca adjetivo algum à música. Chega a irritar-se com Lecarpentier quando este lhe induz a estabelecer juízos de valor entre a grande música clássica e as outras. “Não existe música clássica ou não. Debussy não é música clássica, é música. Do mesmo modo, não há, para mim, nenhuma diferença de valor entre Ellington e Ravel. Ellington adorava Ravel e seu colaborador Billy Strayhorn compôs certa ocasião uma música, Blossom Flower, que tem a cor de Ravel. Stravinski, que não era nenhum imbecil mas tinha péssimo caráter, tentou um dia anotar rapidamente um improviso de Charlie Parker, mas desistiu. Não dava pra acompanhar.”

Direto ao ponto. Duke Ellington (1899-1974) é seu deus máximo, e à sua direita e esquerda postam-se Maurice Ravel (1875-1937) e Claude Debussy (1862-1918). Durante bom tempo, confessa candidamente, teve um sonho recorrente: “Toda sexta-feira eles se reuniam lá em casa, na happy hour. Duke Ellington com certeza, mas também Ravel e Debussy. Geralmente eles acabavam indo para o mesmo salão, onde havia três pianos. Lá tocavam e falavam sobre música sem parar. De repente ouvi uma voz em off que me dizia: ‘Impossível! Você sabe que não é possível... Eles estão mortos, imbecil, etc. Era muito triste’ (...) Percebi que era um sonho (...) mas como era formidável compartilhar estas noitadas com eles.” 

Nem tudo foram sonhos nesta paixão. Sempé encontrou-se de verdade com Ellington. Foi na casa do produtor musical Eddie Barclay em Saint-Tropez na década de 1960. “Eu aguardava num quarto onde havia vários pianos e não havia mais ninguém. Eu brincava num deles. De repente senti uma mão em meu ombro, e ele me disse – em inglês: ‘Não está mal! Vamos nessa, eu faço a mão esquerda e você faz a direita’. E aconteceu. Transpirei tudo que um corpo humano pode transpirar (...) depois, no jantar, ele sentou-se à minha frente. Fiquei encantado mas aterrorizado. Era Deus chegando à Terra junto a um padre de província... (...) No meu panteão o número 1 é Duke Ellington. Ele inventou tudo.”

Uma relação forte a ponto de confessar que há anos “acordo chorando por causa de sua morte”. Por quê? “Porque sei que quando ele morreu o jazz acabou.” Sempé define até o seu trabalho a partir do autor de Take the ‘A’ Train: “Parece, e eu adoraria que fosse verdade, que Duke Ellington disse que o jazz está para a música como o desenho de humor está para o desenho clássico. Adoro pensar que ele disse mesmo isso.”

Ainda menino, Sempé ouviu no rádio o pianista francês Samson François (1924-1970) tocar Clair de Lune, da Suíte Bergamasque de Debussy. Apaixonou-se imediatamente. “Com Debussy bastam duas notas e ele faz Clair de Lune!”. Lecarpentier logo lembra de outro melodista fantástico, Michel Legrand. “É um imenso compositor, o que ele fez com Jacques Demy é maravilhoso.”

De Ravel, seu exemplo é matador. “Na primeira parte da suíte Daphnis et Chloe, você tem a impressão de que os músicos chegam, um após o outro. Depois de certo tempo, estão todos reunidos. É a impressão que dá e de repente Ravel provoca um tsunami musical, uma onda mais alta que a Torre Eiffel, você é aspirado, é algo de fenomenal!”

A característica mais genial de Sempé é que ele não se limita a retratar seus ídolos em ação ou grupos e situações publicamente conhecidos. Sempre fez questão, em grande número de desenhos, de registrar também os gestos dos músicos anônimos. “Cada vez que vejo, na rua, uma moça com um violoncelo nas costas ou um rapaz com um contrabaixo ou uma guitarra, acho isso comovente”, afirma o ilustrador. “Eles levam sua música nas costas, e me comove pensar nas muitas horas que convivem com seus instrumentos.” 

Nestes desenhos, não há rostos conhecidos. Ao contrário: “Tenho uma grande ternura por aqueles que tentam, mesmo se não conseguem resultados próximos do nível dos grandes músicos. O pequeno senhor que se acredita saxofonista, a menina que decifra uma partitura, o garotinho face a um violoncelo tão grande quanto ele – tudo isso me toca intensamente”.

*João Marcos Coelho é jornalista, crítico musical e autor de 'Pensando as Músicas no Século XXI' (Perspectiva) 

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