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Ilustrador Javi Aznarez retrata o universo sombrio de Wes Anderson em 'A Crônica Francesa'

Espanhol ganhou prêmio na edição de 2022 do Festival de Cinema e Animação de Annecy

Matheus Lopes Quirino, O Estado de S. Paulo

04 de agosto de 2022 | 08h00

Por trás de A Crônica Francesa, revista fictícia criada por Wes Anderson no filme homônimo, está um ilustrador em carne e osso. Ele atende por Javi Aznarez direto de sua casa em Cadaqués, no norte da Espanha, já tarde da noite. Em junho, o cartunista participou do Festival de Cinema e Animação de Annecy, na França, e levou uma estatueta pelo trabalho gráfico em Aline, uma animação musical dirigida por Wes Anderson e inspirada na faixa de Jarvis Cocker, que interpreta um sucesso da década de 1960.

A parceria dos dois começou quando o diretor procurava um ilustrador para sua versão da revista New Yorker, espécie de bíblia para jornalistas que trabalham com jornalismo literário (o New Journalism). Anderson criou um universo pitoresco cheio de personagens misteriosos, às vezes até soturnos. Com um elenco de peso, de Timothée Chalamet a Tilda Swinton.

Aznarez é um observador atento às ruas da pequena Cadaqués, uma cidade de veraneio no norte da Catalunha, quase na divisa com a França, onde muitos estrangeiros, principalmente franceses, vão passar o verão. “Conheci o Wes Anderson através da Octavia Peissel (vizinha do ateliê de Aznarez), a produtora do filme, que viu no meu estilo algo que pudesse impressionar Wes”, conta ao Estadão o ilustrador. Nas paredes de sua oficina, espalhadas, ilustrações de personagens sem cabeça, monstrinhos, criações livres inspiradas em um universo onírico com doses de humor marcam o trabalho de Aznarez, que ganhou as graças do diretor e virou seu colaborador, pela primeira vez, na película.

“Tenho pensamentos sempre bastante obscuros, sarcásticos, eu gosto de combinar as coisas para desenhar”, diz o artista, que fez mais de trinta versões da revista A Crônica Francesa. Do pianista atirado nas teclas do órgão, com o buraco da bala marcando a porta (como no filme de François Truffaut, de 1962, Atirem no Pianista) aos gatos charmosos que lotam os telhados de um bairro provavelmente inspirado em Montmartre, em Paris, Aznarez ambienta o insólito, filmado por Anderson no cinema, com perfeição em suas ilustrações. Imaginem só? Um garçom a levar lanchinhos para felinos em cima dos telhados das casas, quase como um equilibrista surreal. Isso está registrado.

Influenciado pelos quadrinhos franco-belgas, Aznarez conserva uma veia infante em seus desenhos. E ele começou cedo como cartunista, desde os tempos de escola. “Comecei a desenhar como todos os meninos, era pequeno, o colégio me entediava, então eu passava muito tempo desenhando na escola, em casa lia os clássicos, quadrinhos de Tintin, Asterix. Gostava muito da Mafalda”, revela o cartunista sobre a personagem principal de Quino, desenhista argentino morto há dois anos, aos 88, um clássico que se tornou referência para aspirantes a cartunistas no mundo todo, como Aznarez. “Quino foi como um pai para mim”.

Aos 42 anos, Aznarez se habituou a levar uma vida tranquila. Pai de uma garotinha, ele levanta cedo para passar o café e levar a filha à escola. Na volta, começa seu dia de trabalho em sua casa/ateliê; desde o lançamento do filme, as encomendas aumentaram, ele, inclusive, foi convidado para ilustrar artigos da revista New Yorker, a verdadeira, que tradicionalmente convida artistas de peso para a empreitada. As capas, célebres, figuram bastiões como Christoph Niemann ao francês Jean-Jacques Sempé. "Por enquanto, fiquei com trabalhos que demandam menos do que uma capa da revista, estou trabalhando muito ultimamente, e adivinha o que faço no tempo livre? Desenho!", diz ele.

Agora em panteão estrelado, nem sempre a vida foi fácil. Aznarez ralou no começo da carreira, fez muito freelancer, foi taxista, fez trabalhos para marcas de bebidas e empresas, mas o mundo corporativo nunca o atraiu, tanto é que, à revelia dos pais, ainda jovem resolveu trocar uma carreira em administração pelos desenhos. De Barcelona, onde estudou em um colégio católico, Aznarez vivenciou a efervescente Paris durante a juventude, refinou o traço, aprendeu com a loucura e o ritmo frenético de uma cidade cosmopolita que se tornou um verdadeiro estágio para muitos cartunistas.

Durante o processo de filmagem, Javi Aznarez precisou literalmente subir pelas paredes (foto ao lado) para ambientar o elegante ambiente da revista literária. Chegou a ficar mais de trinta horas acordado, isso para terminar alguns desenhos pedidos com urgência pela equipe. Mas o resultado o catapultou. Hoje, ele comercializa algumas reproduções através de uma plataforma virtual, um site que recentemente foi repaginado devido à nova demanda.

No filme, o desenhista da revista, interpretado por Jason Schwartzman, um artista cheio de manias e ar imaginativo precisaria de um correspondente no mundo real para criar, do zero, cenas que estariam na ficção. Foi essa a deixa para Aznarez, que, em dois dias, fez oito versões da capa de A Crônica Francesa, o que surpreendeu Anderson pela rapidez. A partir daí, sinal verde para ambientar a cidade fictícia de Ennui-Sur-Blasé, o que, segundo o ilustrador, não foi difícil. Cadaqués mesmo poderia ser o cenário do filme; Javi Aznarez é a prova que, a depender dos olhos do artista, do traço, pode-se criar um universo fantástico mesmo nos quarteirões vizinhos ou dentro de casa. 

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