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Imperador que iniciou construção da Muralha da China tentou ocultar a própria morte

Qin Shi Huang, que viveu no século 3, permanece secretamente sepultado junto de seu exército de terracota

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

03 Fevereiro 2018 | 16h00

Emmanuel Macron, prosseguindo com sua diplomacia inventiva, brilhante e um pouco vertiginosa, se reuniu com o primeiro ministro chinês Xi Jinping, um personagem notável, mas pouco interessado no problema dos direitos humanos. Conseguiu Macron, mais uma vez (como ocorreu com Putin e Erdogan) equilibrar as necessidades da política e do comércio com os imperativos da ética? 

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À parte disso, proponho um artigo sobre a cidade de Xian (ou X’ian), que Macron visitou antes mesmo de chegar a Pequim. Essa cidade hoje é o ponto de partida da “nova rota da seda”, projeto faraônico de Xi Jinping. Mas outrora foi capital da China e uma cidade ilustre em razão do gênio e o temperamento estranho do primeiro dos imperadores chineses: Qin Shi Huang que viveu no século 3 antes de Cristo.

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Esse imperador é muito conhecido porque iniciou a construção da Grande Muralha que tornou a China quase impenetrável. Mas também por causa do seu túmulo.

Qin Shi Huang quis que em seu derradeiro sono fosse cercado por um exército de soldados de terracota, todos diferentes uns dos outros, esculpidos em tamanho natural e revestidos de pinturas reluzentes. Oito mil figuras compõem esse Exército das trevas. Uma parte dele, enfim trazida a público, foi exposta em diversas cidades do Ocidente, incluindo Paris.

Mas não longe desse Exército sepultado encontra-se o túmulo do imperador, que, infelizmente ninguém jamais viu, diante do temor de que, forçando o acesso a ele, todo o mobiliário excepcional ali encerrado possa se decompor. E também porque se acredita que está repleto de flechas envenenadas que matariam imediatamente qualquer arqueólogo curioso.

Felizmente dispomos da descrição que foi feita em 146 AC pelo historiador chinês Sima Qian (145-86) que foi autorizado a olhar a tumba. E viu que, embaixo da terra, havia sido reconstruído um reino exatamente igual ao de Qin Shi Huang Apenas a escala não era a mesma. Era uma miniatura fiel, rigorosa, mas minúscula.

Segundo Sima Qian, podia se reconhecer a China, com cada uma das suas montanhas e seus rios, cuja água era feita de mercúrio, ou seja, um líquido brilhante em que o tempo (ou a morte) não deixa seus traços.

Segundo o historiador, esse minúsculo império esquecido no limbo era iluminado por tochas de gordura de focas que poderiam queimar durante séculos. E muitas flores, também consagradas à Eternidade, que jamais feneceriam e menos ainda morreriam. Diante da descrição desse túmulo concluímos que o imperador era um personagem obcecado pela morte. E os textos da época o confirmam.

A verdade é que ele tinha pavor de morrer. Para escapar da morte encontrou um bom sistema: ninguém jamais sabia em que aposento ele se encontrava. Como possuía 270 palácios, seus inúmeros criados passavam o tempo tentando descobrir em que quarto de um dos palácios ele havia passado a noite, de modo que não podiam informar a morte quando ela chegava para levá-lo. E assim ela retornava de mãos vazias.

Prudente, Qin Shi Huang previu tudo. Por exemplo, proibiu seus médicos e criados de lhe dizerem quando estava doente. Suas febres, sua eventual agonia, eram segredos de Estado que o próprio imperador era obrigado a respeitar. Um serviçal que infringiu a regra foi morto imediatamente.

Uma vez ocorrida e constatada a morte, seu anúncio foi proibido, nem ele próprio tomou conhecimento dela.

Assim, apesar de toda a sua prudência, o pobre Qin Shi Huang acabou morrendo. Seus restos mortais foram colocados em uma carruagem em direção ao seu túmulo. Durante o trajeto, seus criados ofereciam na hora habitual suas refeições para ele não suspeitar de que estava morto. O séquito chegou ao túmulo do imperador sem problemas. Seu corpo foi colocado na sepultura erigida em segredo, embora 700 mil operários tenham trabalhado sem descanso na sua construção durante 30 anos. Mas terminado o funeral, foram encerrados dentro do dela alguns milhares desses operários que poderiam suspeitar de alguma coisa, o que sem dúvida faria com que o imperador acabasse entendendo que estava morto e então, qual seria sua vingança? Melhor nem pensar. / Tradução de Terezinha Martino 

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História Oral China [Ásia]

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