Irving Penn/Condé Nast
Irving Penn/Condé Nast

IMS abre retrospectiva de Irving Penn no dia 21

Mostra do centenário de nascimento do fotógrafo norte-americano tem 230 imagens de celebridades e fica aberta até novembro

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

11 Agosto 2018 | 16h00

Faltam apenas nove dias para a abertura da mais importante exposição fotográfica montada no Brasil nos últimos tempos. Ano passado ela passou por Nova York (Metropolitan), depois por Paris (Grand Palais) e pela C/O Berlin; agora chegou a vez de o Instituto Moreira Salles de São Paulo aderir às celebrações do centenário de Irving Penn (1917-2009). 

Seu nome não é tão conhecido entre nós quanto os de Cecil Beaton e Richard Avedon, mas seus trabalhos encheram de sofisticação e arte publicações do mundo inteiro. E não só as de alta costura, como a Vogue, com a qual colaborou durante mais de 60 anos (foi ele quem tirou aquela foto de Gisele Bünchen, leiloada dez anos atrás por US$ 193 mil) – nem sempre, diga-se, clicando estilistas e manequins. 

Penn também fixou em imagens outras espécies de celebridades, criou naturezas-mortas modernistas com cigarros, comidas, ossos, garrafas, metais e dejetos de variada procedência, dedicou-se a ensaios etnográficos de vendedores ambulantes metropolitanos e nativos cusquenhos. Invariavelmente em preto & branco, bem contrastado.

Era em torno de tocos de cigarros a primeira mostra de fotos dele que pude ver, no MoMa, em 1975. Perdi seus ensaios com nus femininos, no mesmo MoMa e no Whitney, mas a exposição do IMS irá suprir esse e demais déficits, dispondo em dois andares inteiros o que muitos de nós conheciam apenas impresso em revistas e livros. Por falar em livro, o catálogo da mostra é um tesouro. Com 372 páginas, vale quanto pesa (3 kg) e custa: R$ 149,50. 

O evento –com mais de 230 fotos e curadoria de Maria Morris Hambourg e Jeff L. Rosenheim, curador do departamento de fotografia do Met –é gratuito e estará aberto das 18h do próximo dia 21 até às 20h de 18 de novembro. Por ocasião da abertura, haverá, às 18h30, no anfiteatro, uma conversa entre os curadores da mostra e o coordenador de fotografia do IMS, Sergio Burgi. 

Comparado a Félix Nadar, o fotógrafo parisiense que em seu estúdio retratou os impressionistas e outros figurões da Belle Époque, Penn já se exercitara na publicidade e na moda quando inventou um estilo inovador e pessoal de fazer portraits. Deslocando-se entre Nova York, França e Londres, fotografou intelectuais, artistas, amigos ilustres e seus únicos parentes famosos, a esposa (e modelo) Lisa Fonssagrives, com quem se casou em 1950, e o cineasta Arthur Penn, o irmão cinco anos mais novo. 

Sempre em ambientes fechados, de preferência em seu estúdio, praticamente vazio e iluminado por uma gambiarra de lâmpadas de tungstênio para simular a luz solar. Entre dois tabiques formando um ângulo agudo –ali seus retratados, em pé ou sentados numa sólida base de madeira coberta por um pedaço de carpete, acomodavam seus corpos, seus egos e suas vocações performáticas. Fosse quem fosse: Picasso, Eliot, Orson Welles, Marcel Duchamp, Hitchcock, Audrey Hepburn, Ingmar Bergman, Stravinski, Cocteau, Spencer Tracy, Richard Burton, Truman Capote, Colette, Le Corbusier, Susan Sontag– e quem mais nos passar pela cabeça. Era uma honra posar para Penn. E vários o fizeram mais de uma vez. Que eu saiba, Duchamp foi o único a pedir uma angulação precisa para seu canto: 22.5 graus. 

Uns preferiam se encostar no tabique, outros fingiam empurrá-lo. Os mais desinibidos faziam poses, usando as mãos (Capote, Miles Davis, Rauschenberg), ocultando parte do rosto (Picasso), escondendo-se atrás de uma máscara (Saul Steinberg), contorcendo o corpo (como Peter Ustinov, que parece saído de uma cena de Freaks), fechando pelo menos um olho (Bergman, Arthur Miller, Louise Bourgeois) ou simplesmente assumindo outra persona (Woody Allen fantasiado de Chaplin). 

“O confinamento, para minha surpresa, parecia confortá-los, acalmá-los, deixá-los naturais, espontâneos, como que alheios às circunstâncias artificiais do estúdio”, revelou Penn. Se com duas tábuas e uma paixão pode-se fazer teatro, com dois tabiques e uma câmera Penn fez um misto de pantomima e psicanálise. Vez por outra, o ambiente ficava meio tenso, mas as proverbiais paciência e serenidade do fotógrafo desligavam antes a tomada. 

Os bastidores dessas sessões dariam um livro no mínimo curioso sobre as personalidades dos fotografados e o modus operandi (além do savoir faire) do fotógrafo. Penn não se entregava a obstáculos e contratempos. A romancista Carson McCullers, ainda convalescendo de um derrame cerebral, aceitou posar para ele em 1950, segurando o queixo com a mão direita, a única que ainda conseguia mexer. 

Penn evitava desperdiçar tempo e filme, nunca marcava mais de uma sessão por dia, sobretudo para não cansar seus “sitters”, assim chamados, indistintamente, os que se deixam retratar sentados, recostados ou de pé. Fotografado em 1964, Bergman tomou, estoicamente, um chá de duas horas. Exausto e molhado de suor, ao fechar os olhos para relaxar um pouco, Penn, clique!, acionou o disparador. 

Um mestre. Que vocês terão três meses para conhecer e admirar na Avenida Paulista, 2424. E só lá. A mostra Irving Penn – a mostra do centenário não tem permissão para se apresentar em mais de uma cidade por país. 

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