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Imunização racional

Movimento antivacinação nos EUA tem a ver com rejeição a todo tipo de autoridade

Lee Siegel, O Estado de S. Paulo

14 Fevereiro 2015 | 16h00


Meses antes de minha mulher dar à luz nosso primeiro filho, na primavera de 2006, me encontrei com um amigo para jantar no Brooklyn, o bairro onde minha mulher e eu estávamos morando. Ele era um escritor britânico a quem chamarei William. Não conhecia William havia muito tempo, mas nos tornáramos amigos rapidamente, e ali estávamos. Após o jantar, enquanto estávamos sentados bebendo nosso vinho, ele me perguntou se eu pretendia vacinar meu filho quando ele nascesse. Sem nunca ter pensado que vacinar um recém-nascido fosse algum tipo de opção, eu disse sim. Ele abanou a cabeça.

“Você tem noção da relação que existe entre autismo e vacinações?”, perguntou. Eu lhe disse que jamais ouvira falar de semelhante coisa. Ele deu um sorriso cansado, e começou a me contar sobre um médico britânico chamado Andrew Wakefield, que havia publicado um estudo em The Lancet, a respeitável publicação médica britânica, provando a conexão. Prosseguiu, então, obsessivamente, para listar websites contrários à vacinação que, segundo ele, eu devia consultar para me informar sobre a matéria. “É um assunto muito sério”, afirmou, soturnamente.

Naquele estágio vulnerável da pré-paternidade em que eu estava era presa de todo tipo de ansiedade, de modo que acabei por entrar em um ou dois dos sites mencionados. Depois, tirei a questão da minha mente. Havia um quê de fanatismo no movimento antivacinação, algo que beirava o pensamento mágico. Nós vacinamos nosso filho tão logo pudemos e depois continuamos levando-o para mais vacinações e reforços até ele ter recebido todo o conjunto de proteções.

O estudo de Wakefield foi solidamente refutado em 2010, e The Lancet se retratou formalmente. Revelou-se que o próprio Wakefield havia recebido dinheiro para suas pesquisas de advogados que pretendiam processar companhias farmacêuticas que fabricavam vacinas. Reportou-se que ele também havia submetido crianças a procedimentos invasivos no curso de sua pesquisa. Entretanto, o movimento antivacinação persiste.

O resultado tem sido que, pela primeira vez em décadas, o sarampo está ressurgindo nos Estados Unidos. Uma doença vencida pela vacinação que proporcionara imunidade contra ela está voltando porque algumas pessoas se recusam a aceitar o veredicto da ciência sobre a segurança das vacinas.

No começo, muitos membros do movimento antivacinação eram pais que tiveram filhos autistas. Inconsoláveis e desesperados, eles se voltaram para a conexão mítica entre vacinação e autismo do mesmo jeito que pessoas que experimentaram tragédias em suas vidas às vezes se tornam fanáticos religiosos.

Passado algum tempo, porém, era possível encontrar pessoas não afetadas pelo autismo nas fileiras antivacinação. William, por exemplo, tinha dois filhos saudáveis. Foi sua situação psicológica que me deu um insight sobre o que arrasta pessoas para crenças irracionais. Ele era um escritor de ficção modestamente bem-sucedido cuja mulher também havia começado como escritora de ficção, mas desistira de escrever depois de repetidas rejeições e permanecia em casa criando os filhos.

Eu a encontrei um dia e senti a tensão que existia entre ela e o marido. Fora ela quem arrastara William para o culto antivacinação e fizera uma lavagem cerebral nele. Incapaz de fazer sua imaginação triunfar no mundo real, e ficando para trás dos triunfos criativos de William, ela o fez acreditar na ficão antivacinação e teve sua vingança. Ele podia ter tido o sucesso criativo mundano, mas ela dominava a vida interior dele com o poder de sua própria ficção.

Outros se unem à antivacinação por outras razões. Dizem que algumas pessoas muito ricas no sul da Califórnia impedem a vacinação dos filhos porque esta viola sua fé em vida natural e alimentos orgânicos. Isso é desafiar irracionalmente uma prova científica em nome de um autobajulador estilo de vida. 

Sendo os EUA o que são, a resistência oficial à antivacinação é lenta. No reino da soberania individual é difícil limitar a liberdade de qualquer pessoa de fazer o que bem quiser, mesmo que isso represente um risco à saúde pública. Não ajuda o fato de que políticos cínicos e oportunistas como o governador de New Jersey, Chris Christie - que não esconde suas ambições presidenciais - têm favorecido os antivacinação falando de “escolha” e preferências pessoais com respeito à vacinação de crianças. Por enquanto, diretorias de escolas têm relutado em proibir que pais de crianças não vacinadas matriculem os filhos. Com o crescimento dos casos de sarampo, essa relutância está começando a diminuir.

Há muitas razões para os antivacinação, assim como há muitas razões para o ressurgimento da barbárie medieval entre grupos como o Estado Islâmico e o Boko Haram. Defasagem econômica, solipsismo digital, medo da modernidade desorientadora. E, no caso dos Estados Unidos, a suspeita nacional e crescente (e a intolerância) a todo tipo de autoridade.

A razão mais forte para a crença irracional, supersticiosa, inteiramente infundada e perigosa de que vacinações podem causar autismo em crianças talvez possa ser encontrada nas próprias crianças. Elas têm medo do escuro e nada consegue tranquilizá-las, exceto as histórias fantásticas de poderes mágicos protetores. Todos nós temos medo do escuro, do desconhecido, e na falta de um conjunto de fatos tranquilizadores - ninguém realmente sabe o que causa o autismo, para não falar de como preveni-lo e curá-lo -, até mesmo uma conflagração perigosa servirá de farol. Meu filho começou a falar tardiamente, e durante meses, até ele começar a falar, eu ficava deitado na cama, de noite, pensando se William, afinal, não estaria com a razão. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK


LEE SIEGEL É ESCRITOR E CRÍTICO CULTURAL AMERICANO. ESCREVE PARA THE NEW YORK TIMES, THE NEW YORKER E THE NATION

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