The New York Times
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Incidentes levantam discussão sobre celulares em plateias de teatro

Ator tomou telefone de um espectador em um musical e violinista parou de tocar para pedir que um celular fosse desligado

Michael Paulson e Michael Cooper, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2019 | 16h00

Joshua Henry, o astro de um novo musical off-Broadway chamado The Wrong Man, tentou repetidamente mostrar sua desaprovação ao homem sentado no palco que usava seu smartphone para gravar sua performance, sem conseguir. Na terceira música, Henry já estava farto. Então ele foi até as cadeiras, habilmente tirou o telefone da mão do homem, sacudiu-o com desaprovação e jogou-o debaixo de um degrau – tudo em meio a uma canção, sem perder o ritmo. “Eu sabia que precisaria fazer alguma coisa”, explicou ele mais tarde.

Algumas noites antes, em Ohio, a renomada violinista Anne-Sophie Mutter havia parado de tocar no meio de um concerto de Beethoven para pedir a uma mulher na primeira fila que parasse de fazer um vídeo dela. Depois que a mulher se levantou para responder, ela foi escoltada para fora do salão pelo presidente da Orquestra Sinfônica de Cincinnati, e a música foi retomada.

Os dois artistas foram aplaudidos - primeiro em pessoa, depois pelas mídias sociais - por tomarem uma posição contra o crescente número de viciados em smartphones que não conseguem resistir a tirar fotos e fazer gravações que são frequentemente proibidas por normas ou pela lei, que acabam sendo uma distração para artistas e clientes, e ao mesmo tempo em que consistem em uma forma de roubo de propriedade intelectual.

Mas esses confrontos estão alimentando um novo debate sobre etiqueta na era digital. Ninguém gosta de um celular tocando e interrompendo um momento catártico. Mas o teatro e a música clássica têm uma base de fãs mais idosa e o desejo de atrair públicos mais jovens e mais diversos, e alguns sugerem que a ênfase nas restrições comportamentais seja uma forma de elitismo desanimador.

Há algumas semanas, na noite em que Rihanna visitou a Broadway para assistir à provocativa Slave Play, ela mandou uma mensagem para o dramaturgo Jeremy O. Harris, durante o show sem intervalo. Em vez de repreendê-la, ele comemorou a troca de mensagens no Twitter, dizendo: “Quando meu ídolo me manda uma mensagem durante uma peça que escrevi, respondo”.

Previsivelmente, sua tolerância com as mensagens de texto dela provocou uma reação. Mas ele não se desculpou.

“Não estou interessado em policiar o relacionamento de ninguém para assistir a uma peça, especialmente, alguém que não faz parte da multidão que frequenta teatro regularmente”, disse ele no Twitter.

O ultimato de Mutter, uma das principais violinistas do mundo, provocou críticas - e não apenas da “videocinegrafista”.

Um dissidente argumentou no Twitter que “as pessoas que se submetem totalmente e aplicam rituais de concertos antiquados/arcaicos que exigem quantidades insanas de capital cultural para começar, serão completamente irrelevantes em cerca de 15 anos”.

Os apresentadores agora estão tentando ajustar e estabelecer novos conjuntos de regras.

Neste outono, o Lincoln Center fará quatro shows no seu White Light Festival sem celular, usando o Yondr, um serviço onde os membros da plateia podem guardar seus dispositivos em bolsas seladas durante as apresentações. O serviço disse que este será seu primeiro uso na música clássica. (Ironicamente, Madonna e Rihanna usaram o Yondr para criar espaços sem telefone em seus próprios eventos - Madonna em sua turnê Madame X e Rihanna em seu show Savage x Fenty.)

Mas outros estão tentando adotar o digitalmente conectado: algumas orquestras, incluindo a Orquestra da Filadélfia, experimentaram deixar as pessoas manterem seus telefones durante alguns shows e oferecer um aplicativo para guiar as pessoas pela música. A Orquestra Sinfônica de Boston faz isso também em alguns shows de “sextas-feiras informais”, em determinados assentos escolhidos.

E depois há os compromissos: quando Bruce Springsteen esteve na Broadway em 2017 e no ano passado, a produção colocou uma inserção no Playbill, pedindo aos fãs acostumados a shows de rock que não usassem seus telefones durante o show, mas prometendo que Springsteen ficaria no palco durante a chamada cortina por tempo suficiente para as pessoas tirarem fotos. A Metropolitan Opera oferece conselhos semelhantes em seu site: “Dica: tire uma foto do elenco durante o aplauso final!”

A questão é complicada porque muitos membros da plateia se habituaram a fotografar e filmar eventos esportivos, concertos pop e até jantares. E a verdade é que artistas ao vivo, que há muito lutam contra a pirataria e o contrabando, também contam com as mídias sociais alimentadas por fãs para aumentar a venda de ingressos.

Alguns observadores sugerem que as restrições ao comportamento do público são esnobes, elitistas ou mesmo manifestações de privilégio branco.

Ao escrever sobre os contratempos de Slave Play no The San Francisco Chronicle, a crítica Lily Janiak argumentou: “O que inflama o teatro americano sobre a posição de Harris não é que as pessoas estejam usando telefones celulares em um teatro, mas que ele é um jovem negro que não pede desculpas pelo direito de questionar normas antigas e criar novas em uma instituição historicamente branca”.

Mutter, a violinista alemã que interrompeu o concerto, disse que era a favor de selar telefones em shows. Em sua primeira entrevista sobre o incidente de Cincinnati, Mutter disse que ficou distraída ao tocar o primeiro movimento do Concerto para Violino de Beethoven porque uma mulher na primeira fila estava segurando o telefone e filmando. Depois que Mutter lançou um olhar severo, ela disse, a mulher desligou o telefone.

“O primeiro movimento acabou e eu estava tentando me concentrar e manter a calma”, lembrou Mutter. “Então ela pega um segundo telefone e um carregador. Continuei o segundo movimento, mas aquilo estava fervendo em mim. Fiquei totalmente fora do normal.”

"Sinto-me violada em meus direitos, pela minha propriedade artística”, disse ela, observando que filmagens não autorizadas são ilegais. “Como artista, você toma esse cuidado ao gravar - que você tenha seu próprio engenheiro de som, que os microfones estejam pendurados nos lugares certos. O som faz parte de você, você quer que sua voz seja replicada de uma maneira que realmente represente aquilo pelo qual você trabalhou por toda a vida.”

Henry, que canta praticamente sem parar em The Wrong Man, disse que tinha sentimentos contraditórios sobre o episódio em que pegou o telefone de um usuário.

“Não fiquei feliz com isso e não estou orgulhoso - foi apenas um reflexo”, disse ele.

Mas sua experiência teve um final feliz. Henry saiu do teatro para encontrar o participante que o interrompera, esperando para se desculpar com ele. Os dois tiveram uma conversa amigável e continuam a se comunicar.

“Para ele, pedir desculpas afastou a hostilidade”, disse Henry. “Falamos sobre conexão, empatia e perdão, e essa é a grande vantagem - sim, não queremos telefones no cinema, mas nunca quero parecer ‘Não neste espaço’, porque o teatro é um espaço onde todos, mesmo pessoas que não conheçam as regras, podem vir e compartilhar uma experiência.”

Tradução de Claudia Bozzo

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