Indefesos parangolés

Admiradores de Hélio Oiticica em Paris lamentam a perda sofrida pelo 'museu universal' com o incêndio

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2009 | 01h13

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Com ligeiro atraso em relação ao Brasil, o incêndio que destruiu as obras de Hélio Oiticica provocou em Paris tristeza e estupefação ao mesmo tempo. Embora considerando-se, com base em algumas informações, que uma parte das mil peças possa ser recuperada do desastre, é inegável o enorme prejuízo causado a uma obra aqui considerada, por especialistas, uma das importantes do último século, na esteira de Malevitch, Mondrian, Klee. Alguns não hesitam em relacioná-la ao futurismo do italiano Marinetti ou às colagens de Matisse.

 

PERSPECTIVA - Oiticica olha através de seu 'funil' no filme 'Heliodrama', de Ivan Cardoso; para alguns, ele é da estirpe de Klee, Mandrian, Malevitch

Na França, Oiticica era pouco conhecido do grande público, apesar da exposição da Galeria Nacional do Jeu de Paume, há 15 anos, ou outra, mais recentemente, no Centro Beaubourg. Mas os críticos não hesitam em conferir a ele um lugar eminente na história da pintura moderna, ao lado de outros artistas do Grupo Neoconcreto: Amílcar de Castro, Frank Weismann e, sobretudo, Lygia Clark.

Citam-se os Bólidos dos anos 50, pequenas caixas esculpidas que o espectador pode manipular e, sobretudo, os Parangolés, esculturas móveis, num trabalho extraordinário em que aquele "louco" parecia pôr as cores em movimento.

Fui quinta-feira de manhã ao Centro Beaubourg. Além do pesar por saber que uma parte do "museu universal" fora reduzida a cinzas, eram as circunstâncias da tragédia que alimentavam os comentários de pessoas presentes, as quais por vezes chegavam à cólera.

Um açoriano se recordava da apresentação das obras de Oiticica há 15 anos no Jeu de Paume: "Fiquei absolutamente deslumbrado. Fazendo eco à polêmica que se desenrola no Brasil, estou escandalizado com a irresponsabilidade da família, que deixou amontoado o acervo, aparentemente tendo como única preocupação o dinheiro."

Outro visitante, Damien, insistiu: "Como um tesouro desses pôde ser confiado a um irmão incapaz de tomar as precauções elementares e, uma vez constatado o incêndio, deixou o apartamento queimar durante quatro horas?"

Maurice estava ainda mais ultrajado: "Essa é mais uma prova dos desvios causados pelos direitos autorais. A família herdeira está pouco se lixando para a obra. O que ela quer é dinheiro, muito dinheiro";

Francis M. foi mais contido. "Os que pretendem que a obra pertença "a todos" e não à família ignoram o apego familiar. É fácil dispor do que não nos pertence. A família Oiticica não se mostrou à altura da herança, é claro. Mas por mais que isso nos desagrade, a herança é dela, não de "toda a humanidade"".

Outro, após derramar uma lágrima pelas obras perdidas, acrescentou secamente: "De qualquer modo, excetuando-se os fãs do artista, a humanidade está pouco se lixando."

Um dos melhores críticos de arte da imprensa francesa, Georges Raillard, que fez uma bela crônica no jornal La Quinzaine Littéraire, sentiu-se particularmente afetado já que conhece bem o Brasil, onde morou por muito tempo (sua mulher, Alice Raillard, falecida há pouco, traduziu para o francês obras de Jorge Amado). "Sim, eu conhecia suas construções, tinha visto também em Paris. Eram conjuntos surpreendentes. Não havia nada equivalente na França. Era um trabalho único, assim como a personagem de Hélio era também única. Não sei como batizar suas obras. Eu as chamaria "demeures" (moradias, habitações) - é isso, "demeures" nas quais éramos convidados a entrar. Havia uma rara combinação entre um fundo brasileiro, popular, e um tratamento muito sofisticado."

Alguém citou a família de Hélio, seu pai entomologista e seu avô José Oiticica, poeta e anarquista, e informou: "Quando Hélio começou a mostrar suas obras, na exposição Opinião 65, no Museu de Arte Moderna do Rio, convidou os principais "interessados" (pessoas do povo que inspiravam o artista) a visitar o museu. Mas esses "interessados" não eram muito apresentáveis para as autoridades e foram expulsos manu militari por elas. Isso também era Hélio."

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