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Indicada ao Oscar, Isabelle Huppert é a grande estrela do cinema francês contemporâneo

Atriz explora verve intelectual e já chegou a editar um número da revista 'Cahiers du Cinéma'

Sergio Augusto, O Estado de S. Paulo

28 Janeiro 2017 | 16h00

O Golden Globe ela já levou. O prêmio da crítica americana também, pelo mesmo filme, Elle. Falta o Oscar, que apenas três outras atrizes francesas conquistaram até hoje. No ano mais afirmativamente feminista dos últimos tempos, coroado com o implacável discurso anti-Trump de Meryl Streep na entrega dos Golden Globes e a marcha das mulheres sobre Washington no fim da semana passada, a melhor e mais versátil estrela do cinema francês em atividade amplia o seu reinado transatlântico. Um reconhecimento algo tardio. A América já devia ter-se curvado ao seu talento há mais tempo. 

Quatro premiações em Veneza, 15 vezes indicada ao César (o Oscar da França), presença recordista em Cannes, nem mesmo Juliette Binoche consegue acompanhar seu fulgor e seu ritmo de trabalho – e Catherine Deneuve, muito menos. Depois de Elle e O que Está Por Vir, seus dois últimos filmes exibidos no Brasil, ela rodou mais uma dezena. Atualmente filma uma nova versão de Eva, retomando um papel consagrado por Jeanne Moreau no início dos anos 1960. 

Uma gamine de 63 anos, discretamente bonita, menos discretamente sardenta, très charmante, zero de afetação, Isabelle Huppert é a atriz de cinema mais bem preparada intelectualmente que já conheci. Sabia disso antes de entrevistá-la durante uma mostra de cinema, no Rio, em agosto de 1994, pois acabara de ler a edição especial da revista Cahiers du Cinéma (nº 477, março de 1994) por ela editada da primeira à última página. 

La Moreau já editara um número da Vogue francesa, a própria Isabelle cuidara, nove anos antes, de um especial de Le Figaro Madame sobre fotógrafos, mas como editar a Cahiers du Cinéma não é para qualquer bico, imagine a surpresa dos leitores da revista com a qualidade do serviço. “Foi um trabalho estafante, que me alugou um ano inteiro, mas extremamente gratificante”, disse ela, a quem Thierry Jousse, então redator-chefe da publicação, deu liberdade total de ação. Fez tudo do seu jeito, “como um mosaico de várias artes, sem me prender à atualidade”.

Falamos de sua carreira (em 23 anos participara de duas telesséries, sete telefilmes e meia centena de longas), dos cineastas que a dirigiram, sobretudo de Claude Chabrol, com quem já fizera três filmes e ainda faria um quarto, da experiência teatral com Bob Wilson, que recentemente encenara uma adaptação de Orlando, de Virginia Woolf, em Paris, e também de suas preferências e idiossincrasias: não gosta de ensaiar, nem da palavra “artista”, nunca pensou em dirigir (“exige uma energia que não tenho”). Sobre o filme que a trouxera à mostra, Amateur, o godardiano thriller de Hal Hartley (“godardiano e metafísico”, acrescentou), conversamos bem menos do que sobre a Cahiers du Cinéma editada por ela.

Abrindo a revista, uma entrevista com Nathalie Sarraute, decana do nouveau roman francês. Um diálogo literário de igual para igual. Isabelle entrevistou ainda a psicanalista, editora e fundadora do Movimento Feminista Francês Antoinette Fouque, o artista plástico Pierre Soulages (num tête-à-tête-à-trois com Bob Wilson), o sociólogo, filósofo e crítico social Jean Baudrillard e vários cineastas de sua intimidade como Chabrol, Maurice Pialat (numa triangulação esperta com Philippe Garrel), Brian De Palma, Almodóvar. Colheu também depoimentos, alguns por fax, de velhos e novos comparsas, como Godard, Michael Cimino, Andrzej Wajda, Marco Ferreri, Curtis Hanson, Hartley, Benoit Jacquot, Jacques Doillon, Michel Deville. Pena que Joseph Losey e Otto Preminger (que só a chamava de “Miss Houpertte”) já tivessem morrido.

Uma farta iconografia, merecidamente estrelada por ela, permeia todos os textos. Cenas de filmes, stills de filmagem, registros fotográficos das entrevistas e portraits , assinados por, entre outros, Henri Cartier-Bresson, Sylvia Plachy e Marc Riboud. 

Com desembaraço e surpreendente erudição, Isabelle faz observações inteligentes sobre o ato criador, a solidão do ator, a psicanálise, a função do tempo (no sentido de “durée”) na construção do espaço cênico nas montagens de Wilson, a imobilização nos quadros de Soulages, o voyeurismo de Almodóvar, a ausência de “um olhar humanista” nos thrillers das duas últimas décadas do século passado. Sua análise da versão de “Madame Bovary”, de Chabrol, destacando os dois pontos de vista adotados pelo cineasta (às vezes próximo, às vezes distante, ora patético, ora derrisório), foi a mais enriquecedora das muitas que li na época do lançamento do filme, em 1991.

Sua conversa com Antoinette Fouque é um dos destaques da edição. Discutiram cinema, maternidade, psicanálise, o sofrimento como combustível dramático. Fouque revelou-se profunda conhecedora da carreira da atriz, que acompanhava desde Um Amor Tão Frágil. Isabelle lembrava-lhe Ingrid Bergman. Baita elogio, já que foi vendo Bergman “curar” Gregory Peck em Quando Fala o Coração que Fouque, ainda menina, decidiu tornar-se psicanalista.

Editorial de Isabelle Huppert para a revista Cahiers du Cinéma de março de 1994:

"Revelar quem você é por meio daqueles que lhe falam

Ocultar o que você é por temor de se perder

Reconhecer-se nos sinais

Ausentar-se nas imagens - de si mesmo

Exumar o íntimo para ordenar o mundo

Agradecer aos pais, acolher as irmãs

Exaurir-se de querer

Um desejo de estar em lugares distantes

Estar no coração do mundo

Renascer à sua margem

CINEMA

Compreender e desfrutar de um espelho que distorce, informa, impressiona, aleatório,

A intuição como única certeza."

(Tradução de Terezinha Martino)

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