James Di Loreto / Instituto Smithsonian
James Di Loreto / Instituto Smithsonian

Índios do Alto Xingu viajam 6 mil quilômetros até os EUA em busca de memórias de família

O instituto norte-americano de Smithsonian pagou a viagem dos indígenas por meio do projeto Recovering Voices, cujo objetivo é registrar e resguardar línguas e culturas indígenas ameaçadas de extinção

Daniel Trielli e Juliana Ravelli, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2016 | 04h00

WASHINGTON - Em uma sala repleta de caixas de papelão e latas de filme, no prédio do Arquivo Antropológico Nacional, nos arredores de Washington, Atapucha Waurá procura o rosto da mãe, Akaintsaritsumpalu. Um dos líderes do povo Wauja, do Alto Xingu, ele assiste a imagens filmadas nos anos 1960, durante uma das muitas viagens que antropólogos faziam para o centro do Brasil. Atapucha sabe que, sozinho, não vai reconhecer a mãe, já que ela morreu quando ele era bebê. Depende das lembranças de Kuratu Waurá, de 61 anos. Atapucha, Kuratu e Tukupe Waurá, de 34 anos, assistem ao filme juntos, sorrindo como sorrimos quando vemos familiares em vídeos antigos. Atapucha sente que a imagem da mãe está em algum lugar, guardada em uma sala parecida com aquela, só esperando para ser revista e registrada com o nome certo.

Os três Wauja estão a mais de 6 mil quilômetros de suas aldeias, que ficam em uma parte ainda verde do Mato Grosso. Kuratu e Tukupe já tinham ido a Paris, mas Atapucha nunca havia saído do Brasil. Os índios, oficialmente, estão em uma missão do Smithsonian. O instituto norte-americano que reúne 19 galerias e museus – entre eles o do Índio Americano – pagou a viagem por meio do projeto Recovering Voices (Recuperando Vozes), cujo objetivo é registrar e resguardar línguas e culturas indígenas ameaçadas de extinção. Os Wauja são o primeiro povo da América do Sul a receber o projeto.

Uma das tarefas do trio foi assistir às imagens que o etnógrafo gaúcho Harald Schultz (1909-1966) gravou durante expedições ao Xingu nos anos 1960. Era nelas que Akaintsaritsumpalu poderia estar. “Ninguém falou para mim que tinha foto de minha mãe. Eu que estou imaginando. Será que eu não poderia conhecer a cara dela?”, diz Atapucha. “Na época, muitos antropólogos chegavam lá. Deve ter foto da minha mãe em algum lugar. Meu pai era muito conhecido, ele sempre está em algumas fotos. Espero que eu consiga encontrar a foto da minha mãe e da minha avó, que não conheci também.” Os Wauja estavam otimistas. Identificaram muitas pessoas, mas a mãe de Atapucha não estava ali. Ele, no entanto, continua procurando.

Família é uma coisa importante para os Wauja, um povo com cerca de 600 integrantes. Para Atapucha, ela tem um significado mais profundo ainda. “Sempre contam que minha mãe me deixou quando comecei a me arrastar no chão. Minha irmã era mocinha e me adotou como o primeiro filho dela. Só que ela não tinha peito para eu beber. Eu sofri, quase morri. Ela fazia caldo de doce de raiz e mingau. Eu vivia com leite materno das primas do meu pai. Cada um me ajudava. Assim, sobrevivi. Não tenho ideia de como ajudar meu povo. Eles me colocaram como chefe e tenho de pagar para eles, que cuidaram de mim e me deixaram sobreviver.”

Outro trabalho dos três Wauja nos Estados Unidos é descrever em sua língua, da família arawak, centenas de objetos. Quem os acompanha na jornada é a antropóloga e pesquisadora do Smithsonian Emilienne Ireland e seu marido, o professor de Estudos Asiático-Americanos da Universidade de Maryland Phil Tajitsu Nash. Kuratu, Atapucha e Tukupe estão hospedados na casa de Emilienne e Nash desde que chegaram, em 5 de setembro. Sentados ao redor de uma grande mesa, explicam quem faz e usa cada objeto, quais os materiais para fabricá-los e onde os encontram, dão ainda um resumo de como produzi-los. Tudo é filmado.

Os objetos foram coletados por Emilienne ao longo de anos. Agora, ela os doa para o Smithsonian. Também já havia doado peças para o Museu Nacional do Rio. Mas o trabalho dos três Wauja não é só para os museus, é para as futuras gerações. Segundo Emilienne, muitos objetos não são mais usados. Registrá-los permitirá que os próximos Wauja tenham contato com seu passado. “O conhecimento dos nossos antepassados, temos de registrar. Estou interessado em explicar como é, como faz. Temos de contar tudo para não perder depois. Quem sabe, as crianças vão buscar nossa cultura e conhecimento com o museu. Minha luta é essa, registrar tudo o que temos para não perder. Enquanto estou vivo, vou continuar lutando. O que estiver ao meu alcance, vou fazer. Não vim aqui conhecer a cidade, por passeio. Vim buscar conhecimento”, diz Atapucha.

Emilienne conheceu os Wauja em 1981, viveu com eles por alguns anos e fala fluentemente a língua Wauja. Naquela sua visita inicial, mostrou aos índios xerox de um livro sobre a expedição à terra dos Wauja, realizada por Marechal Rondon em 1924. Muitos anciãos ficaram emocionados, pois reconheceram familiares que já haviam morrido. Desde então, Emilienne tomou para si a missão de garantir aos Wauja o direito de ver e ter os registros de seus antepassados. A antropóloga voltou ao Xingu muitas vezes, uma delas em 2012 para exibir pela primeira vez os vídeos de Rondon e da Expedição Roncador-Xingu (entre 1941 e 1948), da qual os irmãos Villas-Boas participaram. A experiência virou o projeto documentário Return of the Captured Spirits (O Retorno dos Espíritos Capturados). Faltou, entretanto, mostrar aos Wauja as imagens feitas por Schultz.

Segundo a antropóloga Sandra Maria Christiani de la Torre, pesquisadora do acervo do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, Schultz esteve várias temporadas entre os Wauja em 1964, tirou inúmeras fotos e produziu 13 filmes. “Ele passava temporadas, às vezes meses, com as populações. Sua intenção era vivenciar o cotidiano de cada povo indígena para divulgar a diversidade cultural. Registrava momentos de produção de objetos, bem como cerimônias importantes. Quando retornava a São Paulo, promovia mostras e debates com filmes, fotos e artefatos no Museu Paulista, onde trabalhava como fotógrafo e etnógrafo”, explica Sandra.

Calcula-se que Atapucha tenha nascido entre 1964 e 1966. A chance de que sua mãe esteja em algum dos registros, portanto, é grande. Agora, a esperança de encontrá-la está no acervo do MAE. Os três Wauja deixaram os Estados Unidos na sexta-feira e vão passar alguns dias em São Paulo antes de voltar ao Xingu. Segundo Sandra, devem visitar o museu da USP nesta terça (18) ou na quarta (19). É importante que a visita ocorra nesta semana porque Kuratu – o único que pode reconhecer a imagem – e Atapucha raramente deixam suas aldeias. A própria ida aos Estados Unidos ocorreu em meio a muitos sacrifícios.

O pai de Kuratu, o grande líder Arutatumpa, morreu recentemente. Além do luto pessoal, Kuratu tem grande responsabilidade nos rituais realizados após a morte de integrantes de seu povo. Também ficou muito doente, mas entendeu que precisava se recuperar e viajar. “Eu não sabia nada sobre esse país. Fomos ao museu e mostraram fotos de meus antepassados. Vi meu pai, que acabei de enterrar. Vi meu tio e tantos que já morreram. Foi triste. Meu pai morreu, mas a imagem dele vai permanecer. Nós permitimos que vocês tenham as imagem, mas cuidem bem delas”, diz Kuratu.

Já Atapucha e Tukupe precisavam reformar a casa em que vivem antes da época das chuvas, que começa agora. Por causa da viagem, terão de improvisar uma lona sobre o teto neste ano. “Acreditei nesse trabalho e mergulhei nele. A gente constrói a casa e depois de 14 anos ela cai, e a gente tem de fazer outra vez. Ela tem tempo para a gente construir, mas a história, uma vez que acaba, nunca se constrói novamente. Eu sei a consequência na minha casa neste ano. Vamos sofrer um pouco. Mas, quando eu estiver lá, a gente resolve”, afirma Tukupe.

A luta por proteger a cultura Wauja também está na internet. Com ajuda de Emilienne, eles começaram a fazer um dicionário até agora com pouco mais de cem verbetes, de “aisepitsa” (flexão do substantivo “cadeira” ou “banco”) a “yuwanaka” (flexão do verbo “abrir”). Eles usam a plataforma do Wikcionário, em que todos os usuários podem colaborar e editar juntos. Mas, mesmo no democrático espaço digital, as instituições do homem branco resistem. Os Wauja descobriram que, recentemente e sem aviso, um usuário mudou o nome de sua página para “Uaurá”. O editor da página apelou para a autoridade que conhece: os dicionários que preveem a forma aportuguesada – e, segundo os próprios Wauja, completamente equivocada – do nome do povo indígena.

Bruna Franchetto, professora titular do programa de pós-graduação em Antropologia Social e Linguística do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, explica que aportuguesar os nomes indígenas é o oposto do que deve ser feito. “O próprio aportuguesamento é uma digestão por parte dos colonizadores às vezes de palavras que não entendiam, que acabaram escrevendo de qualquer jeito e que se cristalizaram na literatura”, conta Bruna, que diz que o padrão oficial do governo brasileiro é a autodenominação. “Cada povo tem absoluto direito de dizer o nome pelo qual quer ser designado. É um direito básico.”

Agora, os Wauja tentam recuperar seu território linguístico. Pelas regras da plataforma, usuários podem pedir votações sobre decisões polêmicas. Por enquanto, a votação – que termina no dia 25 – está em 5 a 0 a favor dos Wauja. “Se o nome da página ficar ‘Uaurá’, os Wauja não vão querer usar”, conta Emilienne. “Vamos perder essa coisa preciosíssima não só para os Wauja como para o Brasil.”

Filha de uma francesa e um norte-americano, Emilienne conta que sempre se sentiu dividida entre os dois países e que se incomodava ao ouvir que França e EUA eram “os melhores”. “Então, quis estudar outro país. Atapucha disse que foi bom visitar outra terra. Para mim, abri minha cabeça ao visitar vocês. É uma cultura que tem muito a ensinar. O que é mais importante: fazer drones ou ter criança sem fome? Meu país pode fazer drones, mas os Wauja tem criança sem fome”, diz Emilienne. “O mais importante é a comida, né?”, responde Atapucha. 

Os Wauja também estão ameaçados pela mudanças de sua terra, causadas pela pressão da agropecuária. Na última segunda-feira, Kuratu, Atapucha e Tukupe estiveram na Universidade de Maryland para a exibição do documentário Para Onde Foram as Andorinhas?, dirigido por Mari Corrêa. O filme mostra como, no lugar onde os Wauja vivem, os rios estão secando e o ar está mais quente. A mudança climática, explicaram os Wauja, altera até o modo como os índios marcam a passagem do tempo. Quando as chuvas estavam para começar, as andorinhas revoavam e as cigarras cantavam. Quando o nível dos rios estavam para baixar, as borboletas chegavam. Hoje, nada disso acontece na hora que deveria acontecer. Até as árvores de pequi, fruto sagrado para os Wauja, estão repletas de insetos que não apareciam antes de a soja e o milho cercarem o Xingu.

Tudo isso motiva os Wauja a lutar e a viajar para longe para aprender com os povos indígenas do resto do mundo. “Eu achava que eram só os americanos que trabalhavam no Smithsonian. Quando falaram que todos são índios que tomam conta das coisas no Museu do Índio do Smithsonian, imaginei o que estava acontecendo. Começaram a contar como sofreram antes, mas hoje conseguiram voltar e enfrentar os inimigos. Quem sabe, no futuro, a gente vai ter algo igual no Brasil. Falei para meu sobrinho (Tukupe): ‘Estamos no caminho certo. Temos de registrar tudo que a gente tem’. Quem sabe vamos conseguir um museu para nós. Quem sabe os brasileiros vão reconhecer nosso trabalho. Vamos levar sabedoria para eles”, diz Atapucha.

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