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Inédito no Brasil, 'A Vida Pela Frente', de Romain Gary, é mais atual do que nunca

A história de um menino muçulmano vivendo com uma ex-prostituta judia é um sopro de boa literatura e possibilidades de fuga do obscurantismo

Mateus Baldi*, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2019 | 16h00

Existem livros que demoram para chegar ao Brasil, mas quando chegam é em boa hora. A vida pela frente, publicado na França em 1975, é um desses casos. Numa época em que políticos tentam censurar LGBTs e qualquer coisa que contrarie moralistas presos à idade das trevas, a história de um menino muçulmano vivendo com uma ex-prostituta judia é um sopro de boa literatura e possibilidades de fuga do obscurantismo. Escrito por Romain Gary, que utilizou o pseudônimo Émile Ajar e só o revelou em documento divulgado após sua morte, o romance venceu o Goncourt, prêmio mais importante da literatura francesa – o que não seria nada de tão superlativo por si só, não fosse Gary ser conhecidíssimo e já ter vencido o prêmio em 1956 (pelas regras, o Goncourt não pode ser dado à mesma pessoa duas vezes).

Tratando de temas contemporâneos e ainda necessários, como eutanásia e a disputa entre judeus e árabes, A vida pela frente tornou-se um clássico ao contar a história de Momo, apelido de Mohammed. Sem conhecer os pais, ele acredita ter dez anos, e sua vida na Paris dos anos 1970 é uma eterna luta contra o Estado e as pessoas que não são prostitutas nem pobres. Sempre aplicando pequenos golpes e se refugiando nas zonas cinzentas da cidade, que chama de “aquilo ali” como se coubesse na palma da mão, o garoto não gosta de “causar pena nas pessoas”, já que é “um filósofo”, mas ainda assim nos conta suas misérias.

Se a linguagem de Ajar/Gary é límpida, o mesmo não pode ser dito sobre as peripécias enfrentadas por seus personagens. Tipos verdadeiramente autênticos, quase saltando diante do leitor, parecem lutar para não serem apagados e sucumbir diante do pão que os diabos de todas as religiões amassaram. Vivendo em um prédio sem muitos franceses, rodeado de africanos, Momo precisa cuidar de Madame Rosa, a prostituta que o criou junto a outros meninos. Sobrevivente dos campos de concentração, ela tem pavor de ser diagnosticada com câncer. Entretanto, está com uma doença misteriosa que vai lhe deixando cada vez mais prostrada. Mas não é câncer, isso o doutor Katz, preocupadíssimo, garante.

Calibrado no humor pouco dado ao estardalhaço, A vida pela frente adota um tom leve quando poderia cair na facilidade de discutir suas ideias com muito mais brutalidade. Em meio aos risos nervosos, a narrativa de Mohammed surpreende nos momentos corriqueiros, como quando ele resolve ajudar a velha judia mostrando-lhe um retrato de Hitler – “Madame Rosa guardava um grande retrato do sr. Hitler debaixo da cama e, quando estava infeliz e não sabia mais para que tanto correr, pegava o retrato, olhava bem para ele e se sentia melhor na hora” – ou lhe dizendo para ficar tranquila quanto à possibilidade de ser torturada: “ninguém é torturado na França, isso aqui não é a Argélia”. Todavia, esse olhar arguto sobre a realidade vindo de um protagonista desconcertantemente ingênuo também serve para Mohammed entender o contexto no qual está inserido: as pessoas ao seu redor usam heroína, mas ele se recusa, diz que prefere viver a alcançar a felicidade. Tem noção da própria condição invisível – “durante muito tempo eu não soube que era árabe, porque ninguém me xingava” –, o que se revela um instrumento de corte no leitor, forçado a interromper o fluxo para realizar as operações cognitivas que o protagonista não é capaz de fazer.

Os momentos mais difíceis parecem ser aqueles em que Momo, vagando por Paris, deseja cometer crimes chocantes e desiste porque nem isso despertará algum tipo de atenção da sociedade para a sua existência. Em certa chave de leitura, é como se A vida pela frente fosse a mistura improvável de Os meninos da rua Paulo com O apanhador no campo de centeio: tem a ternura e inocência do clássico húngaro e a acidez de um Holden Caulfield condenado ao infortúnio social. Isso fica explícito nas bonitas passagens em que Momo nos fala de Hamil, o velho mais vivido que qualquer homem de sua idade – "é um grande homem, mas as circunstâncias não lhe permitiram ser um" –, assim como quando vaticina, após saber uma informação sobre seu passado, que “a vida não é uma coisa para todo mundo”.

É dessa fragilidade social, que transforma todos os homens em bichos e os obriga a se tornarem o que precisam ser, não o que estão destinados a ser, que nasce o nervo principal deste romance singular. Sua força não reside apenas em seus personagens cheios de camadas e nos diálogos espirituosos, mas também na aspereza com que Ajar/Gary cativa o público: não importa a inocência de um ou a recusa de outro; ao conseguirmos, concomitantemente, embarcar nos delírios de Madame Rosa e entender a interpretação absurda que Momo faz da realidade, sobrevivendo dia após dia em um mundo que o rejeita, cumpre-se o objetivo do livro: indagar, sem pretensões de chegar a lugar algum, no que a espécie humana se transformou.

*Mateus Baldi é escritor e crítico. Fundou a Resenha de Bolso, plataforma de críticas de literatura contemporânea.

 

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