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Inédito no Brasil, livro narra luta de um casal contra o nazismo

'Morrer Sozinho em Berlim', de Hans Fallada, foi inspirado por uma história verídica

Dirce Waltrick do Amarante*, Especial para o Estado

22 de dezembro de 2018 | 16h00

Pessoas comuns que não querem se envolver em questões políticas, ainda que afetem suas vidas; outras entusiasmadas com um líder visto como salvador, ainda que continuem vivendo na mais absoluta miséria espiritual e material; notícias falsas e fotos montadas; um juiz sabichão que pede exoneração do cargo para não prejudicar o partido para o qual trabalha; um delegado corrupto que acha um bode expiatório para acusar e assim salvar a sua pele; pessoas solitárias que, com pequenos gestos, procuram resistir e se opor ao regime vigente... Esses e outros temas estão no enredo de Morrer Sozinho em Berlim, escrito em 1947 pelo alemão Hans Fallada (1893-1947), pseudônimo de Rudolf Ditzen, traduzido agora por Claudia Abeling e publicado pela Estação Liberdade. 

Fallada se dizia apolítico e, na época do nazismo, ao contrário de outros escritores alemães que deixaram o país, permaneceu na Alemanha, apesar de ter sido considerado “autor indesejável”, como afirma Almut Giesecke, no posfácio. O escritor sobreviveu à queima de livros fazendo relatos leves, muitos deles para crianças (sempre um terreno mais “seguro”), e foi por muito tempo considerado um autor menor. 

A propósito do sobrenome do pseudônimo escolhido pelo autor, Fallada é uma homenagem a um personagem do conto A Moça dos Gansos, dos Irmãos Grimm; um cavalo que, para não revelar a verdade que só ele sabia, é condenado à morte; mesmo morto, contudo, consegue trazer a veracidade dos fatos à tona. Talvez ele se visse como o cavalo, já que seus escritos lhe sobreviveriam e poderiam revelar a “verdadeira” história de sua época ou a história de um outro ponto de vista; e nesse sentido ele era, sim, bastante político. 

Morrer Sozinho em Berlim foi escrito logo após o término da 2.ª Guerra Mundial, quando ele teve acesso aos arquivos da Gestapo e conheceu a história de um casal de trabalhadores berlinenses que, de 1940 a 1942, distribuiu material contra as atividades nazistas. Mas, como alerta Fallada, “os acontecimentos deste livro reproduzem, em linhas gerais, arquivos da Gestapo. Apenas em linhas gerais – um romance tem leis próprias e não pode seguir a realidade no todo”.

No romance, o casal citado nos arquivos da Gestapo, Elise e Otto Hampel, é substituído por Anna e Otto Quangel. Após perderem o filho em combate, decidem agir clandestinamente contra o regime, distribuindo cartões-postais em que denunciavam as atrocidades do Führer e de seu partido.

Morrer Sozinho em Berlim destaca a cegueira da população em relação ao regime nazista. A respeito do Führer, as pessoas o consideravam um homem cheio de “grandeza” e “boas intenções”, pois ele distribuíra trabalho para todos, ainda que esses trabalhos muitas vezes não tivessem fins nobres. Otto Quangel, por exemplo, confeccionava “caixas específicas, muito pesadas e grandes, as quais, dizia-se, serviam para transportar bombas”. Nesse sentido, Fallada antecipa o que o pensador alemão Theodor Adorno viria discutir uma década mais tarde: a “consciência coisificada”, ou seja, aquela em que o homem se atém aos instrumentos e equipamentos, ou à tecnologia, independentemente de suas funções. 

A respeito das críticas negativas ao Führer, lê-se no romance que elas eram veementemente refutadas, pois “um homem realmente genial não faria uma coisa dessas”. Alegava-se que muito do que acontecia não era culpa dele, mas de seus seguidores e de sua equipe: o “Führer não fazia ideia das sujeiras do seu pessoal nos escalões inferiores”. Acima de tudo, diziam que ele “havia colocado a economia de volta nos eixos”. 

O sistema de justiça corrupto e antiético não fica fora dessa narrativa histórica, que destaca o papel do delegado que escolhe um cidadão inocente para incriminar. Aconselha esse delegado a um novato: “Nada de sentimentalismo. Nossa obrigação só está cumprida quando alcançamos nosso objetivo. O caminho para chegar lá não importa”. Já o juiz, que deveria ser o fiel da balança e agir em prol da sociedade, pede exoneração do cargo a fim de não prejudicar o partido para o qual trabalha. 

Morrer Sozinho em Berlim é, nos tempos atuais, acima de tudo um alerta para que a história não se repita, embora, como afirma o filósofo italiano Giambattista Vico, ela seja circular e espiral (circular, porque sempre se repete; e espiral, porque nunca de forma igual). Mas há que se romper o círculo: a primeira de todas as exigências para que a história não se repita é, como diz Adorno, a educação; afinal, ela é a única capaz de combater a barbárie. 

*Dirce Waltrick do Amarante é tradutora e ensaísta, professora da UFSC 

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