James Patterson/The New York Times
James Patterson/The New York Times

Iniciativa homenageia escritores do estado do Mississippi

Desde os clássicos, como William Faulkner, até contemporâneos, como Jesmyn Ward, estão na trilha literária

Laura M. Holson, The New York Times

05 Maio 2018 | 16h00

Os autores do Mississippi há muito tempo se firmaram no competitivo ambiente literário do Sul. William Faulkner conquistou um Prêmio Nobel em 1949 por seu livro em que examinou a decadência da aristocracia nas pequenas cidades do Mississippi. Eudora Welty foi contemplada com a Presidential Medal of Freedom por seus romances e ensaios. Mais recentemente, a vencedora do National Book Award, Jesmyn Ward, explorou o pessimismo lúgubre ligado à raça e à pobreza na Costa do Golfo do Mississippi.

Agora eles e vários outros heróis literários do Estado de Magnolia serão homenageados no Mississippi Writers Trail. Este mês a Comissão de Artes do Mississippi recebeu US$ 30 mil do National Endowment for the Humanities para estabelecer uma série de marcos em todo o Estado num tributo às contribuições desses importantes escritores.

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O primeiro local a ser assinalado será a casa de Eudora Welty, no bairro de Belhaven, em Jackson. Ela viveu ali de 1925 até morrer em 2001, onde escreveu quase todos os seus contos, ensaios e romances, incluindo The Optimist’s Daughter (A Filha do Otimista), vencedor do Prêmio Pulitzer em 1973. A residência é hoje um museu, abrigando a correspondência e fotos da autora.

“O Mississippi tem uma forte presença no nascimento da cultura americana”, disse Malcolm White, diretor executivo da Comissão. “O maior patrimônio é nossa história cultural, e a literatura e a escrita são parte dela.” O estado talvez seja mais conhecido pela a música, particularmente pelas contribuições de B.B. King e Muddy Waters, que definiram o blues inspirado pelos spirituals afro-americanos e pela música folclórica. E, como seu vizinho Alabama, o Mississippi tem registrada sua história vívida, quase sempre violenta, durante a era de luta pelos direitos civis.

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White reuniu um grupo de estudiosos para fazer recomendações sobre os autores que deveriam ser escolhidos. Eles analisaram entre 30 e 50 escritores, entre eles Richard Ford, vencedor do Pulitzer cuja autobiografia, Black Boy, conta a passagem para a vida adulta no Sul de Jim Crow; e a poetisa Margaret Walker Alexander, que nasceu em Birmingham, Alabama, mas viveu em Jackson, numa rua que leva o seu nome. O primeiro dos marcos comemorativos será anunciado em agosto durante o Festival do Livro de Mississippi de 2018.

White conversou várias vezes com Ford para saber se o autor gostaria de homenagear sua casa de infância em Jackson. Ele cresceu no mesmo bairro de Eudora Welty e os dois frequentaram a mesma escola. “É uma terra sagrada para a literatura do Mississippi. Achei que ele gostaria que seu marco fosse colocado ali”, disse White.

Richard Ford, contudo, tinha outras ideias. Em meados da década de 1980, o escritor vivia em Clarksdale, uma cidadezinha no Delta do Mississippi, a 240 quilômetros de Jackson, onde passava dias na biblioteca pública escrevendo The Sportswriter, seu romance sobre um escritor de ficção fracassado que passou a escrever sobre esportes e cujo filho morre (esse livro foi seguido de outro, vencedor do Prêmio Pulitzer, Independence Day, publicado em 1995). No final, Ford preferiu que seu marco ficasse na biblioteca de Clarksdale e não na casa da sua infância. “O Delta foi onde decidi viver. A Carnegie Library é um refúgio. Eles me ofereceram um porto seguro. Quero ser lembrado em um lugar onde as pessoas podem ler livros. A literatura pode ser uma maneira de a sociedade resolver o que não deseja resolver.”

E uma dessas questões não resolvidas é o racismo sistêmico, que persiste apesar dos ganhos obtidos nos anos 1960. Ford, que hoje vive no Maine, disse que recentemente deu aulas para uma classe em que os estudantes jamais leram e nem ouviram falar de Black Boy, obra seminal em que ele pintou um quadro sinistro das relações de raça, publicado em 1945. “Não devo me surpreender, mas este é um livro que as pessoas precisam ler para que as anomalias históricas não persistam”, disse ele.

Jesmyn Ward cresceu em Delisle, comunidade rural não muito longe de Biloxi. Em seus livros mais recentes, Salvage the Bones e Sing, Unburied, Sing, ela explora o desespero e a desolação da América rural diante de instituições poderosas que não têm interesse em enfrentar a pobreza, o crime, o racismo e suas consequências, particularmente no MississiPpi, um dos estados mais pobres do país. “Vivemos com esses problemas presentes e reais”, disse, falando de si própria e seus colegas escritores. “Nós lutamos contra esse discurso. É bom confrontar esses problemas como fazemos, pois obrigamos os leitores a serem mais honestos quanto ao que significa ser americano”.

Nem todos compartilham desse otimismo. A escritora Joyce Carol Oates recentemente colocou no Twitter a foto de uma bandeira pendurada na Universidade Estadual do Mississippi com uma imagem de Faulkner e a frase: “Leia, leia e leia tudo.” E ela continuou: “Engraçado. Se as pessoas do Mississippi lessem, Faulkner seria banido.”

Jesmyn contestou Oates e respondeu, também pelo Twitter: “algumas pessoas do Mississippi até escrevem. É chocante, eu sei. Veja meus tuítes anteriores para referências, Joyce.”

Indagada a respeito, Jesmyn disse estar perplexa com o fato de Joyce Carol Oates desdenhar tanto seu estado natal. “Já estamos em último lugar ou próximos com relação a tudo. Pelo menos que reconheçam nossos escritores dedicados à literatura”. / Tradução de Terezinha Martino 

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