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Inspiração de Machado de Assis, 'Viagem ao Redor do Meu Quarto' é leitura certeira para isolamento

Reeditado em plena quarentena, livro do século 18 narra as ‘aventuras’ vividas pelo francês Xavier de Maistre durante um confinamento de 42 dias em seu quarto

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2020 | 16h00

Enquanto as restrições impostas à circulação de pessoas pela pandemia de covid-19 vão sendo paulatinamente relaxadas pelas autoridades e solenemente ignoradas pelos cidadãos, Viagem ao Redor do Meu Quarto (Editora 34), do escritor francês Xavier de Maistre, não poderia ganhar uma reedição no Brasil em momento mais oportuno. O livro foi concebido durante o período em que o autor ficou preso numa fortaleza de Turim como punição após um duelo, em 1794. 

O conde Xavier de Maistre (1763-1852), irmão do filósofo Joseph de Maistre, nasceu na região francesa de Saboia e teve extensa carreira militar, servindo os exércitos da Sardenha e da Rússia. Encarcerado por 42 dias, De Maistre experimentou o confinamento forçado que o mundo vive hoje, mas não se resignou. A prisão o impediu de se deslocar, mas seu intelecto se provou fértil o suficiente para que ele se visse livre de quaisquer amarras para influenciar a literatura universal de dentro de um cômodo.

Viagem ao Redor do Meu Quarto é uma sátira dos relatos de viagem, gênero literário popular no século 18 – os diários do capitão James Cook foram publicados poucos anos antes, em 1784, e chegam a ser citados no capítulo em que o autor se gaba de sua biblioteca particular. 

É claro que a obra não é um mero relato descritivo do quarto em que De Maistre ficou encerrado, embora o autor use do humor e da ironia para provocar o leitor a buscar algo do gênero. “Quando viajo ao redor do meu quarto, raramente sigo uma linha reta: saio da mesa em direção a um quadro deixado num canto; dali, parto obliquamente rumo à porta; mas por mais que, ao partir, minha intenção seja a de chegar ali, não faço cerimônias se encontro minha poltrona a meio caminho e nela me acomodo sem demora.”

Em vez de assumir que não deixou o cômodo por motivos jurídicos, o autor afirma jocosamente ter inventado uma nova maneira de viajar, sem custo ou esforço algum: “O prazer que há em viajar dentro do próprio quarto está a salvo do ciúme inquieto dos homens; ele tampouco está ao sabor da fortuna.” Depois de enumerar os motivos pelos quais esse tipo de viagem serve a ricos e “pessoas de fortuna medíocre”, a enfermos, covardes e preguiçosos (“O ser mais indolente hesitaria em pegar a estrada comigo na busca de um prazer que não lhe custará nem pena nem dinheiro?”), De Maistre insta o leitor a acompanhá-lo em sua aventura íntima. 

No prólogo à quarta edição de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis comenta, entre suas influências, Xavier de Maistre e sua “maneira livre”. Pois essa liberdade na escrita é o que o leva a se dirigir diretamente ao leitor, característica que remete à fase madura do Bruxo do Cosme Velho. Como Brás Cubas, o narrador da Viagem debate consigo mesmo a validade da própria obra, faz capítulos-relâmpago, ziguezagueia entre as digressões. O Velho Diálogo de Adão e Eva, célebre capítulo de Memórias Póstumas, em que Brás Cubas e Virgília interagem por meio de reticências que dão ao leitor a tarefa de imaginar o que está sendo dito – ou feito – foi antecipado no capítulo 12 de Viagem ao Redor do Meu Quarto, trecho que consiste de várias linhas pontilhadas com as palavras “a colina” ao meio.

Mas a mais importante influência de De Maistre para Machado está no sistema filosófico satírico criado pelo francês, aliás apresentado no livro de uma forma que parece ter sido escrita com a grandiloquência de Quincas Borba: “Este capítulo se destina exclusivamente aos metafísicos. Ele há de lançar uma nova luz sobre a natureza do homem: ele é um prisma por meio do qual será possível analisar e decompor as faculdades humanas, distinguindo a força animal dos raios puros da inteligência”.

Ao introduzir o leitor a esse esquema, De Maistre divide o ser humano em duas metades: animal e alma, par análogo a corpo e mente. Um realiza as funções mecânicas, locomotivas, fisiológicas e repetitivas a fim de deixar a contraparte livre para se elevar por meio do pensamento. Essa divisão, aliás, é replicada nas Memórias Póstumas, mais especificamente no capítulo As Pernas, quando Brás Cubas fala sobre como chegou distraidamente ao hotel em que iria jantar: “Sim, pernas amigas, vós deixastes à minha cabeça o trabalho de pensar em Virgilia, e dissestes uma à outra: – Ele precisa comer, são horas de jantar, vamos levá-lo ao Pharoux”.

É esse o mecanismo que o permite empreender uma viagem dentro do próprio quarto, e é aí que reside o núcleo da obra. “Que ninguém pense que, em vez de cumprir a palavra e fazer a descrição da minha viagem ao redor do meu quarto, eu esteja batendo em retirada para fugir ao aperto: muito se engana, pois o fato é que minha viagem segue em frente, e, enquanto minha alma, recolhendo-se em si mesma, percorria, no capítulo precedente, as veredas tortuosas da metafísica, – eu continuava sentado na minha poltrona”.

Munido dessa separação entre corpo e intelecto, De Maistre percorre as gravuras em suas paredes, os livros em sua estante, os móveis em seu quarto, sempre usando-os como suporte para a verdadeira viagem, no plano intelectual. Enquanto passeia pelos quadros na parede, ele compara, por exemplo, a pintura à música, associando uma arte à alma e a outra ao animal, como mero teste de habilidade motora: “Pode-se ensinar o animal humano a tocar cravo; e se ele tiver sido adestrado por um bom mestre, a alma pode viajar a seu bel-prazer enquanto os dedos vão maquinalmente produzir sons sem nenhuma intromissão da parte dela. – Não se poderia, ao contrário, pintar a coisa mais reles do mundo sem que a alma pusesse nisso todas as suas faculdades.”

Se essa obra tivesse inspirado apenas Machado de Assis, já seria o suficiente para inscrever o conde saboiano no cânone literário, mas sua influência é muito mais vasta e se estende até os dias de hoje. A fragmentação da mente ilustrada pela dualidade alma/animal foi fundamental para a literatura modernista, seu fluxo de consciência e seus personagens fraturados, além de ter antecipado em mais de um século o que Freud chamaria de psicopatologia da vida cotidiana ao usar os lapsos e atos falhos como uma barreira entre mente e corpo. Para Antonio Candido, Viagem ao Redor do meu Quarto “é um momento significativo no processo de tomada de consciência, pela literatura, da personalidade dividida, tema de importância notória no Romantismo, que chegaria a ter força avassaladora no nosso tempo”. 

Embora De Maistre tenha sido citado como um dos autores que André Gide despreza em seus diários, Viagem ao Redor do Meu Quarto inspirou as Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett e é citado por D.H. Lawrence no romance Filhos e Amantes, por William Somerset Maughan no conto Honolulu e por Alain de Botton no livro A Arte de Viajar.

No conto O Aleph, do escritor argentino Jorge Luis Borges, o pretensioso poeta Carlos Argentino pretende compor um poema que descreva todo o planeta Terra, em cujos versos ele cita a Viagem de De Maistre. O personagem observa que “o ato de viajar era inútil; nosso século XX havia transformado a fábula de Maomé e a montanha; as montanhas, agora, convergiam para o moderno Maomé.” No conto, o poeta só consegue empreender sua jornada porque no porão da velha casa de seus pais há um Aleph, “um dos pontos do espaço que contém todos os outros pontos”, como ele explica ao narrador, ou “o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do planeta, vistos de todos os ângulos”. 

Esse conceito de Borges alude à Viagem do Conde de Maistre, em que o autor encarcerado, ao dissertar a respeito de sua biblioteca – outro elemento fundamental na obra borgiana – alega viajar, de dentro do quarto, “da expedição dos argonautas à Assembleia dos Notáveis, das profundezas dos infernos à última estrela fixa para lá da Via Láctea, aos confins do universo, às portas do caos”. De Maistre ainda escreve que “todos os países, todos os mundos e todos os seres que existiram entre esses dois termos, tudo isso é meu”.

O leitor que se vê às portas do caos (noção que remete às Portas da Percepção, de Aldous Huxley) ao ler esse pequeno grande livro pode relacionar essa ideia ao mundo virtual: hoje, encarcerada em casa, uma pessoa pode empreender viagens pelo mundo inteiro por meio da internet. Isso foi antecipado em 1905, por E.M. Forster em sua novela distópica A Máquina Parou, em que a humanidade vive em perpétuo isolamento, sem encontros presenciais, apenas tomando conhecimento do mundo em segunda mão, de maneira indireta.

Um dos herdeiros literários de De Maistre na literatura contemporânea, o escritor espanhol Enrique Vila-Matas, que assina o posfácio da nova edição de Viagem ao Redor do Meu Quarto, relata sua experiência, durante uma estadia em Turim, no mesmo quarto em que o autor ficou preso: “Era como se me convidassem a repetir a mesma viagem de fora para dentro”. Para Vila-Matas, Xavier de Maistre nos ensinou que “sem sair a rua nenhuma, podemos exercer o dom (que tantas vezes esquecemos) de ver a esfera que permite enxergar a simultaneidade do universo”. Xavier de Maistre ainda escreveu, em 1825, uma Expedição Noturna ao Redor do meu Quarto. Independente da duração futura da atual quarentena, é outra obra cuja publicação no Brasil será bem-vinda.

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