Invisível como um elefante

Apesar da resistência em se admitir, o caldo belicoso avança cada vez mais nas escolas

ANTÔNIO A. S. ZUIN*, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2012 | 02h10

ANTONIO A. S. ZUIN

No início do filme Elefante, dirigido por Gus Van Sant, que alude ao massacre ocorrido na escola de Columbine em 20 de abril de 1999, há uma cena que choca sobretudo pelo teor da violência simbólica presente: trata-se de um carro que raspa nas portas de outro veículo estacionado e quase atropela um ciclista. Subitamente, o carro estaciona e um adolescente pede ao pai bêbado que abandone o volante e o deixe dirigir. Relutante, o pai desce do carro, senta-se no banco ao lado do filho e ordena-lhe: "Ponha o cinto de segurança". O olhar de resignação do garoto frente a essa palavra de ordem se mescla com a desilusão diante do adulto que se preocupa com a segurança do filho, ao mesmo tempo que dirige embriagado. Parece haver um fosso gigantesco entre ambos.

A violência da fala hipócrita do pai revela muito sobre o modo como as crianças e adolescentes se espantam diante da difusão de um discurso libertário que convive com práticas incrivelmente coercitivas. Um discurso que se objetiva nas falas das autoridades e gestores educacionais de que os alunos são iguais entre si, pois são tratados sem privilégios, ao mesmo tempo que a cultura dos winners e losers, ou seja, dos vencedores e perdedores, é também reforçada pelas práticas promovidas no transcorrer do cotidiano da escola, não por acaso transformada numa das principais, senão a principal, instituição formativo-educacional das crianças.

É nesse contexto que o ressentimento dos alunos em relação às chamadas autoridades pedagógicas encontra um terreno fértil para silenciosamente vicejar. Mas esse mesmo silêncio é espetacularmente rompido por meio dos assassinatos cometidos em instituições escolares, são notificados em tempo real. Nos depoimentos gravados no seu "manifesto multimidiático enviado à rede de televisão NBC", o estudante Cho Seung-hui, que matou 32 pessoas entre alunos e professores no Instituto Politécnico de Virgínia, nos Estados Unidos, em 16 de abril de 2007, expôs midiaticamente sua fúria narcísica contra os professores e alunos que, a seu ver, o humilharam durante toda a vida escolar. Na tragédia do Realengo, na qual o ex-aluno Wellington Menezes de Oliveira assassinou 12 alunos e feriu vários outros no dia 7 de abril de 2011, impressiona, entre outras coisas, o modo como se avolumam os comentários de internautas registrados logo abaixo dos depoimentos gravados pelo assassino, que identificam Wellington como um herói que teve a coragem de se vingar do bullying sofrido no período em que estudou na escola Tasso de Oliveira, o palco de sua chacina registrada e difundida pelas redes sociais.

Já em relação ao mais recente massacre, ocorrido numa escola primária da cidade de Newtown, não há ainda informações sobre vídeos gravados pelo assassino, Adam Lanza, assim como outras informações concernentes à história da vida desse ex-aluno que matou 20 crianças e 6 adultos, entre os quais a própria mãe, e depois se suicidou. Sabe-se que se tratava de uma pessoa caracterizada como introvertida, filho de pais separados, que aparentemente não tinha problemas de ordem financeira. Embora as informações sejam mínimas, a identificação de possíveis traços psicóticos presentes no comportamento de Lanza não pode ser apartada do modo como uma cultura bélica se corporifica em alguém que teve tremendas dificuldades de estruturar o próprio corpo, a própria identidade. Essa tragédia se distingue das demais justamente pelo fato de que Lanza furiosamente disparou dezenas de tiros em crianças muito novas, como se tal ato simbolizasse tanto a morte de sua própria infância, quanto o assassinato de infâncias que portavam consigo a promessa de outros futuros; como se o olhar resignado e desiludido fosse redirecionado para a destruição total como única alternativa possível.

Em seu pronunciamento sobre o massacre cometido por Lanza, o presidente Barack Obama reafirmou a importância de se discutir nacionalmente a facilidade de compra e venda de armas nos Estados Unidos, um país que praticamente atinge a inacreditável média de uma arma por habitante. Mas a necessidade imperiosa do desarmamento não pode ser identificada como única solução para que sejam evitadas matanças futuras. É preciso promover debates sobre as razões pelas quais ex-alunos se sentem estimulados a assassinar professores e alunos. Pois a cultura bélica também se expressa na vida escolar, cujo cotidiano é também caracterizado pelos rótulos impostos pelo pensamento estereotipado, bem como por tantas práticas de violência, sejam de ordem física, simbólica, ou ambas.

Contudo, é também na escola que se encontra espaço para a promoção da autorreflexão crítica, assim como para a elaboração de alternativas de identidade que fomentem o desarmamento do caldo belicoso de sua própria cultura. Portanto, é preciso ter a coragem de ousar saber, mesmo que para isso tenhamos que refletir sobre nossa participação, como educadores, nas histórias de vida dos elefantes, que, apesar de nossas resistências em admiti-los, se tornam cada vez mais dolorosamente visíveis. * PROFESSOR ASSOCIADO DO DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO DA UFSCAR, AUTOR,  ENTRE OUTROS,  DE VIOLÊNCIA, TABU ENTRE PROFESSORES, ALUNOS: A INTERNET, A RECONFIGURAÇÃO DO ELO PEDAGÓGICO (CORTEZ)

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