THOMAS PETER/REUTERS
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Ira alemã

Se o governo de Angela Merkel pretende liderar a Europa, não poderá fazê-lo na condição de vítima ressentida

Jacob Soll, O Estado de S. Paulo

18 Julho 2015 | 16h00

O acordo que poderá manter a Grécia na zona do euro foi finalmente assinado. Alguns ficaram felizes com o resultado. Muito se falou do sentimento de humilhação dos gregos. Entretanto, ouvimos falar menos da ira da Alemanha, e nós sabemos que os alemães estão irados. Segundo foi noticiado, o ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, teria esbravejado durante as negociações na noite de sábado. França e Itália concederam enormes empréstimos à Grécia, mas nenhum dos dois países manifestou hostilidade em relação a ela. Por que a Alemanha está tão irada?

Como historiador voltado para a economia, tive uma pequena amostra desse ressentimento durante a conferência sobre a dívida soberana grega realizada em Munique na semana passada, no Centro de Estudos Econômicos e no Ifo Institute, dirigido por Hans-Werner Sinn, o economista alemão que há muito vinha propondo a saída da Grécia. Participavam da conferência economistas, especialistas em contabilidade, jornalistas, investidores e funcionários de alto escalão de governos. As posições divergentes foram manifestadas por Mita Gulati, professor da faculdade de Direito da Duke University que ajudou a elaborar um plano anterior de ajuda à Grécia; pelo economista Ashoka Mody, que trabalhou no Fundo Monetário Internacional, o qual defende o perdão da dívida; por especialistas em contabilidade, que concordaram que o total da dívida da Grécia parece ter sido inflado; e por Sinn.

Mas quando os economistas alemães falaram na sessão final, um tom completamente diferente tomou conta da sala. As teorias econômicas mencionadas e os números enunciados continham uma mensagem moral: os alemães seriam uns ingênuos, porém honestos, e os gregos, uns corruptos, indignos de confiança e incompetentes. Ambas as partes foram reduzidas a caricaturas de si mesmas. Ouvimos essa história ao longo de todo o processo de negociação, mas naquela sala ficou claro até que ponto o ressentimento impregna as posições dos economistas alemães.

Clemens Fuest, do Centro de Pesquisas Econômicas Europeias, assessor de Schäuble, não parava de se referir ao montante da dívida e ao crescimento da Grécia, acrescentando que os gregos falharam em todas as instâncias nos últimos anos na gestão de sua dívida. Na sua opinião, eles deveriam simplesmente ser expulsos da zona do euro. Segundo Henrik Enderlein, do Instituto Pró-europeu Jaques Delors, a Grécia deveria permanecer na zona do euro, mas somente se aplicasse mais austeridade e tivesse uma gestão melhor. Daniel Gros, diretor do Centro de Estudos de Política Europeia, teorizou que a dívida e os problemas econômicos gregos poderiam ser combatidos somente com o aumento das exportações.

São todos argumentos importantes, mas na opinião desses economistas a Alemanha não teve um papel real na tragédia grega. Os alemães entregaram seu dinheiro e ficaram observando os gregos destruírem a si mesmos nos últimos quatro anos. Agora, os gregos mereciam o que acontecera com eles.

Quando destaquei que os alemães contribuíram em grande parte para essa situação, por insistirem na austeridade e num endividamento insustentável nos últimos três anos, empenhando-se pouco para aprimorar os métodos contábeis e impondo efetivamente controles sobre o capital, Enderlein e Fuest adotaram um tom de zombaria. Mencionei que muitos consideram a austeridade uma nova versão do Tratado de Versalhes de 1919 que traria um governo “caótico e duvidoso” na Grécia - o governo a respeito do qual Enderlein alertara num artigo publicado no jornal The Guardian - e eles reagiram furiosos por serem comparados a nazistas e terroristas.

Notei então que, por pior que os gregos tivessem administrado sua economia, as exigências alemãs e o possível caos de um Grexit ameaçavam provocar o surgimento do populismo político, da agitação e da miséria social, permaneceram impassíveis. Devedores que não pagam o que devem, explicaram os alemães, simplesmente devem sofrer, por mais rigorosas e mesmo injustas que sejam as condições dos empréstimos. Outros países administraram corretamente suas economias, e suportaram em silêncio seu sofrimento, como a Finlândia e a Letônia, afirmaram. Ao contrário, um país como a Grécia, onde muitos não pagam impostos, não mereceria nenhuma compreensão. Isso me lembrou que em alemão, dívida, “schuld”, significa também falha moral ou culpa.

Quando perguntei se alguém tinha visitado a Grécia para avaliar o empobrecimento, a fuga de cérebros e o fechamento de empresas, eles simplesmente abanaram a cabeça. Perguntei até que ponto esses importantes economistas se sentiam responsáveis pela crise grega, então disseram-me que eu não podia compreender a situação porque acabava de chegar dos Estados Unidos. (Apenas para constar, passei grande parte do ano na Europa, tive reuniões com o governo anterior em Atenas - onde vi velhos pobres mexendo em latas de lixo - e, mais tarde, com membros da Comissão Europeia em Bruxelas.)

Quando a cúpula se dividiu, os alemães presentes cercaram-me para explicar que os gregos estavam roubando os alemães. Eles não queriam mais ser as vítimas. Evidentemente, aceitei seus argumentos econômicos, e também que os países membros da União Europeia devem à Alemanha tanto dinheiro que, se houver mais inadimplências, a Alemanha poderá afundar; entretanto, pelo menos em Munique, era difícil ver os alemães como as verdadeiras vítimas.

É aqui que está o principal descompasso cultural, e também o risco para os alemães. Porque parece que o fato de se perceberem como vítimas os levou a perderem seu sangue frio, tanto nas negociações quanto em suas avaliações econômicas. Se pretenderem liderar a Europa, não poderão fazê-lo na condição de vítimas.

/TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

JACOB SOLL É PROFESSOR DE HISTÓRIA E CIÊNCIAS CONTÁBEIS NA SOUTHERN CALIFORNIA E AUTOR DE THE RECKONING: FINANCIAL ACCOUNTABILITY AND THE RISE AND FALL OF NATIONS

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