Irineu Franco Perpétuo reconta a história da música clássica no Brasil

Irineu Franco Perpétuo reconta a história da música clássica no Brasil

Autor resgata o que chama de 'música impopular brasileira' em seu novo livro

João Marcos Coelho*, Especial para o Estado

02 Junho 2018 | 16h00

“Continuarei sendo punido ou quem sabe terei ouvintes no futuro?”. Logo na introdução de sua ótima História Concisa da Música Clássica Brasileira, Irineu Franco Perpetuo lembra a frase que João Silvério Trevisan coloca na boca do compositor Alberto Nepomuceno (1864-1920) em seu romance Ana em Veneza. De fato, não é de hoje, sempre foi assim. Toda nova história da música “clássica” no Brasil tem de obrigatoriamente remeter a um contínuo processo de resgate de todo compositor brasileiro do passado que não tenha por sobrenome Villa-Lobos.

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É sintomático que os próprios criadores musicais brasileiros de ontem e de hoje tenham de ser sistematicamente resgatados de um limbo no qual a vida musical de concerto no país os coloca desde sempre. Há exceções, claro. Mas a norma é esta. Talvez um sistema de cotas, tal como existe no vestibular hoje em dia, minorasse esta “invisibilidade” que também vigora nos EUA, a julgar pelo lamento de Alex Ross em seu livro O Resto é Ruído, igualmente citado por Perpetuo.

A questão faz sentido, até pela escolha do tipo de música a que se dedica este livro. Perpetuo prefere “clássica” a “erudita”, palavrão cunhado por Mário de Andrade que tem o poder letal de afastar quem já não seja da tribo.

Discussões semânticas à parte, Perpetuo consegue a façanha de escrever uma história muito divertida da música clássica no Brasil. De novo Nepomuceno é bom exemplo. Ele foi chamado de “vadio” pela princesa Isabel nos estertores do Império ao negar-lhe uma bolsa (depois concedida nos primórdios da República). Pitadas como esta induzem à leitura de uma das raras histórias da música no Brasil que a insere em seu contexto social, político, econômico e cultural. Mal acostumados com o esquema ‘vida e obra’, nossas histórias da música empilham gênios que lutaram contra tudo e contra todos para se afirmarem. Perpétuo recorre a um diversificado caldeirão de estudos e livros de outras áreas do conhecimento para iluminar questões como, por exemplo, a do barroco mineiro. É impressionante o contraste entre a riquíssima música colonial da América Espanhola e a música brasileira do período. 

A razão: “A maneira distinta pela qual os jesuítas se estabeleceram nas diversas partes do continente. Enquanto as missões hispânicas, de localização mais remota, tinham população estável, as aldeias dos estabelecimentos lusos estavam submetidas ao regime de repartição – pelo qual os indígenas eram ‘repartidos’ entre colonos ou funcionários da Coroa, aos quais tinham que prestar serviço por determinado período de tempo. Daí decorria uma instabilidade populacional que, entre outras consequências, prejudicava o fazer musical” (página 29). 

Não sobrou uma partitura sequer de música da América portuguesa anterior ao século 18. “A explicação para tamanha discrepância”, esclarece Perpetuo, “talvez possa ser encontrada no célebre estudo comparativo entre a vida intelectual da América espanhola e do Brasil feito por Sérgio Buarque de Holanda. De um lado, universidades, em Lima, México e São Domingos; do outro, os colonos brasileiros tinham que viajar para Coimbra em busca de estudo superior.”

Citei de propósito um exemplo da música colonial porque este é um dos raros livros que dedicam espaço digno para esse período tão pouco estudado de nossa história musical. Perpetuo não cede à tentação de agigantar os capítulos referentes a Carlos Gomes e Villa-Lobos em relação aos demais. E, sobretudo, dá voz ao período posterior a Villa-Lobos.

O maior mérito do livro está nas suas noventa páginas finais. O capítulo Revolução e Contrarrevolução esmiúça e faz o leitor querer ouvir as obras dos compositores do Grupo Música Viva, músicos como Guerra-Peixe, Eunike Katunda e Claudio Santoro, que enxergaram nos cursos do então recém-chegado ao Brasil Hans-Joachim Koellreutter (1915-2005) uma espécie de “abertura dos portos” musical. Corria o ano de 1940. Abertura tão importante quando a primeira, promovida em 1808 por Dom João VI. 

O capítulo A Era dos Festivais cobre o período da Bienal de Música e do Festival Música Nova de Santos. Mas Perpetuo não para em Marlos Nobre, Edino Krieger, Gilberto Mendes e Willy Corrêa de Oliveira. Passa por Almeida Prado, Jorge Antunes, Rogério Duprat, Rodolfo Coelho de Souza, Ronaldo Miranda, Sílvio Ferraz e Flo Menezes. Mas, fundamental, chega às novíssimas gerações, de criadores antenados com o século 21. Compositores hoje entre os 30 e os 40 anos, consolidados e produzindo muito. Nomes como Tatiana Catanzaro, Leonardo Martinelli, Maurício de Bonis, Marcílio Onofre, Alexandre Lunsqui, Felipe Lara, Rodrigo Lima.

Eles fazem a música do nosso tempo. Duas obras compostas e estreadas em 2014 dão bem a medida da atualidade deste tipo de música: o ciclo As Canções do Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam, de Leonardo Martinelli e libreto de João Luiz Sampaio, a partir do romance de Evandro Affonso Ferreira; e o oratório digital A Geladeira, para dois cantores, grupo instrumental e sons eletrônicos, em que o compositor Paulo Chagas sintetiza sua experiência pessoal de tortura ocorrida em 1971, aos 17 anos de idade, durante a ditadura militar no Brasil.

*João Marcos Coelho é jornalista, crítico musical e autor do livro 'Pensando as Músicas no Século XXI' (Perspectiva) 

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