Irrealidade mais que real

Entrevista com

Caio Reisewitz

Paula Sacchetta, O Estado de S. Paulo

13 Setembro 2014 | 16h00

Doze horas de fuso à frente, a bordo de um trem-bala em algum lugar na Coreia do Sul, portanto, engolfado pela alta velocidade, o fotógrafo Caio Reisewitz explica por que nesse tempo de pressa prefere manter um trabalho artesanal feito com câmeras de grande formato, filme, tesoura e cola: é seu chacoalhão contra o exagero, a correria, a saturação do mundo. O resultado são colagens que desestabilizam o espectador ao expô-lo não a uma reconstrução ideal, mas aos incômodos do autor.

Um dos artistas brasileiros mais valorizados da atualidade, com exposição recente no International Center of Photography de Nova York (ICP), na quarta passada ele estava na Ásia para participar da 5ª Bienal de Fotografia de Daegu. Quando voltar ao Brasil, lançará o livro Água Escondida (BEI Editora em parceria com o Instituto Moreira Salles), dentro da programação do Arq.Futuro 2014. Das imagens mostradas aqui, parte integrou a exposição no ICP, parte está no livro.

Paulistano de 47 anos, Reisewitz especializou-se em fotografia na Escola Superior de Artes de Darmstadt e na Johannes Gutenberg-Universität Mainz, ambas na Alemanha. Usa a fotografia menos como fotógrafo stricto sensu e mais como artista plástico. A seguir, a entrevista que ele concedeu, da Coreia do Sul, ao Aliás.

Por que a opção pelas colagens?

Neste tempo de excesso de imagens, em que estamos completamente saturados pelas imagens digitais, pelos instragrams, neste auge da informação de massa, tento fazer um recorte no caminho oposto, me expressar contra essa alta velocidade. Tem a ver com as artes plásticas mesmo, com os dadaístas também, contra a saturação. Minha forma de comunicação é o oposto dessa pressa: a imagem não é digital, é feita em filme numa câmera de grande formato. Não tento manipular as imagens e enganar quem vê. Tudo é feito de forma aberta e clara. O espectador sabe logo que é uma fotografia construída.

Como ocorre o processo de construção?

Faço no máximo cinco a dez fotos a cada vez que saio para fotografar. Recorto e colo à mão, e aí fotografo de novo ou monto no computador. A qualidade das ampliações é muito melhor e a nitidez dá uma dimensão que a pintura não tem. A estética é de uma obra de arte, mas a nitidez inerente a essas imagens, por serem fotografia, confere a elas uma identidade própria. O processo está mais ligado à pintura do que à fotografia. Uso a fotografia porque ela é importante como representação, no sentido de registrar uma realidade. Por mais ambivalentes que minhas imagens possam ser, elas ainda têm o poder de representar uma realidade. A fotografia de certa forma prova que aquilo aconteceu. Faço fotos sem interferir, representando a realidade, e faço outras que criam uma confusão, inserindo várias camadas de imagens. Meu trabalho gira em torno da representação da verdade, direta ou indireta. 

Com qual objetivo?

De certa forma, quero contar o contexto em que vivemos, o que somos, nossa herança, nossas mudanças. Não como um fotojornalista que tira foto da miséria pra mostrá-la. Quero falar sobre as desigualdades e desencontros da forma que eu consigo me expressar, de uma forma menos direta. Minhas imagens são um documento, têm essa característica de registro. Mas, como arte, são objeto de reflexão. Não quero apontar o dedo e dizer “é assim, é assado”. Quero refletir. 

E no livro a reflexão é sobre a água.

A água nas paisagens urbanas brasileiras. Em São Paulo, principalmente, temos a cultura de virarmos de costas para os rios. Eles são fechados, marcados, fedidos. Fotografei no Canal de Bertioga, no Porto de Santos e em Belém (PA) pessoas que vivem ao redor de águas. O Thyago Nogueira, coordenador de fotografia contemporânea do Instituto Moreira Salles e curador desse trabalho, diz que ele é apocalíptico. Vivemos um momento particularmente difícil em relação à água em São Paulo. A minha maneira, tentei fazer um documento desse momento.

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