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Irresistível canalha

‘Herói’ de House of Cards é o vilão por quem temos vergonha de torcer, mas torcemos

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

28 Março 2015 | 16h00

Uma hipotética eleição para a Casa Branca simulada há dias pela Reuters-Ipsos revelou que Barack Obama perderia, hoje, para qualquer um dos seus êmulos televisivos. Com apenas 46% de aprovação pelo eleitorado americano, Obama levaria uma surra nas urnas de David Palmer (o presidente negro da série 24 Horas), Josiah Bartlet (o íntegro presidente encarnado por Martin Sheen em West Wing – Nos Bastidores do Poder), Laura Roslin (a presidente de Battlestar Galactica) e até de Frank Underwood, o inescrupuloso presidente em exercício interpretado por Kevin Spacey em House of Cards.


Pela pesquisa, Palmer conta com 89% de aprovação dos telespectadores; Bartlet, com 82%; Roslin, com 78%; e Underwood, com 57%. Obama não venceria sequer o pilantra, mulherengo e pinguço presidente Fitzgerald Grant, da série Scandal. 

O historiador Tevi Troy, atento observador dos vaivéns na Casa Branca, considerou normal a preferência pelos presidentes de mentira: “Os de verdade não têm a mesma verve, o mesmo timing, o mesmo carisma, e vivem mais expostos a gafes porque não contam com a ajuda dos brilhantes roteiristas de seus similares cinematográficos e televisivos.” Figuras idealizadas, “bigger than life” (maiores que a vida), os presidentes da tela, até porque não interferem concretamente em nossas vidas, beneficiam-se de um correlato da suspensão da descrença: a suspensão da malquerença. 

Frank Underwood matou duas pessoas, traiu um presidente para chegar ao Salão Oval, mas ainda assim venceria o impoluto Obama numa corrida presidencial. O próprio Obama encheu a bola do personagem, elogiou sua habilidade para tocar as coisas no Congresso com “implacável eficiência”, relevou seu fisiologismo, seu jeito Ricardo III de ser, contribuindo para a glorificação de Underwood como o articulador político mais irresistível da atualidade, o canalha por quem todos nós sentimos vergonha de torcer. Mas torcemos. Sobretudo porque em sua órbita praticamente ninguém presta. Sic transit impudentia mundi.

O marido de Claire “Lady Macbeth” Underwood, perdoem-me o clichê, é um herói do nosso tempo, um vilão que nada tem a ver com Drácula, Moriarty, Ming, Dr. Silvana, Lex Luthor, Goldfinger e demais estereótipos do mal absoluto plasmados em outras eras, quando gângsteres, serial killers, traficantes, policiais corruptos e lunáticos nucleares eram retratados negativamente e perdiam sempre a parada final para os estereótipos do bem. Agora, até os vampiros deixaram de inspirar medo. Edward Cullun, o neo-Drácula da série Crepúsculo, é quase um poeta romântico pré-rafaelita. 

Underwood é um sociopata, mas num mundo dominado por trapaças, chantagens, traições e roubalheiras, como o da política, sua descarada esperteza e seu protagonismo fazem toda a diferença. Seus frequentes comentários para a câmera o tornam mais íntimo do telespectador, alimentam uma cumplicidade, ajudam a humanizá-lo. House of Cards nos manipula com a mesma eficácia com que seu protagonista manipula a política em Washington. 

Quando, no mês passado, a revista The Economist comparou o atual presidente da Câmara, Eduardo Cunha, a Underwood, alguém daqui ressaltou que o deputado brasileiro não matou ninguém para subir na carreira e tem o Poder Legislativo sob controle, ao contrário de Underwood, que, em compensação, jamais foi acusado de desviar dinheiro público e tem como grande projeto de governo um programa de emprego em massa, não uma cruzada contra o aborto e a união de pessoas do mesmo sexo. Faltou mencionar a qualidade superior dos ternos do petimetre sulista, e o charme de seu intérprete, para não falar de Claire, que vale por todo um ministério. 

O herói bandido de House of Cards pertence a uma linhagem que talvez remonte ao canibal silencioso (e diabolicamente inteligente) Hannibal Lecter, ao mercurial Coringa recriado por Heath Ledger em O Cavaleiro das Trevas, e ao Voldemort da série Harry Potter, todos tributários de um certo cinismo dominante no imaginário cinematográfico a partir dos anos 1990 e, com mais vigor, na teledramaturgia das duas últimas décadas. 

Underwood dificilmente existiria se David Chase não tivesse criado Tony Soprano, o gângster bonachão de New Jersey, embrião de Jack Bauer (o agente torturador de 24 Horas, tão incomodamente ligado à política antiterrorista de George W. Bush), de Walter White (o monstruoso professor de Breaking Bad), de Vik Mackie (o policial brutamontes e desonesto de The Shield – Acima da Lei), de Russell “Stringer” Bell (o traficante de The Wire – A Escuta), de Nucky Thompson (o mandachuva de Boardwalk Empire) e de Nicholas Brody (o herói de guerra traidor de Homeland). Nenhum deles presta, nenhum é desprezível. Uns até inspiram pena. Todos são complexos a sua maneira. 

Sobre esses “homens difíceis” o escritor e jornalista Brett Martin escreveu um livro, traduzido no ano passado pela editora Aleph, no qual dá conta da radical transformação por eles provocada na ficção televisiva. Pegou a família Soprano e veio até Breaking Bad, sem abrir mão dos alcoólatras machistas de Mad Men. Pena que tenha fechado a porteira antes do surgimento de Underwood, dos homens difíceis do Novo Cinismo o mais desconcertante. Ele já entra em cena no primeiro episódio da série matando um cachorro, ou seja, pondo em risco a empatia do personagem, para de imediato impor-se como um Maquiavel a cujo poder de sedução ninguém logra escapar.

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