Isay in rainbows

Fanático pelo Radiohead, o arquiteto Isay Weinfeld rejeita a hierarquia entre cultura popular e erudita

Ivan Marsiglia, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2009 | 22h14

Isay Weinfeld está feliz. Escarrapachado na poltrona da sala, toma um gole de cachaça Anísio Santiago, volta-se para sua fabulosa discoteca, que ocupa de ponta a ponta um cômodo da residência, e aumenta o volume do microsystem. Os olhos do arquiteto mais badalado do Brasil na atualidade - e um dos dez preferidos do historiador de arte francês Philip Jodidio, organizador do guia Architecture Now, da editora Taschen - brilham quando o tema é música ou cinema. A trilha sonora é Farewell to Philosophy, do compositor erudito contemporâneo Gavin Bryars, que não por acaso trocou a cátedra em filosofia pela arte. O diálogo, no entanto, é sobre a banda de rock Radiohead, que se apresenta sexta-feira no Rio de Janeiro e domingo em São Paulo.  

 

"Eles fazem uma música que me conduz a lugares em que gostaria de estar", diz Isay, passando a relatar um dos dois shows da turnê In Rainbows a que assistiu em Nova York em outubro. Caía a tarde, a temperatura estava agradável e o público extasiado quando a banda do vocalista Thom York construiu um edifício mágico bem atrás da Estátua da Liberdade, sob o skyline de Manhattan, com som, cenário e iluminação irretocáveis. Projeto, execução, decoração e paisagismo perfeitos. "Foi um momento de felicidade pura para mim", conta. Uma impressão que ele compara a um dos momentos mais marcantes de sua vida.

"Senti algo parecido muitos anos atrás, em Búzios, no Rio de Janeiro. Era uma tarde linda, ensolarada, eu estava tomando uma caipirinha impecável, ao lado da pessoa que depois viria a ser minha mulher e o rádio tocava Doce Vampiro, da Rita Lee. O sol, a bebida, a pessoa, a música, tudo conspirava para um momento de pura felicidade. E aconteceu de novo agora. Foi o melhor show que já vi."

A devoção desse paulistano descendente de judeus poloneses pela banda faz com que ele projete sua agenda abarrotada de compromissos de maneira a estar presente a todas as apresentações do Radiohead entre Londres e Nova York. Pega um avião na sexta-feira, vê o show sábado e volta no domingo. Na maioria das vezes, vai só. Mas já rebocou um sobrinho adolescente e agora, para as duas apresentações desta semana no Brasil, convidou a filha. "Dinheiro, para mim, serve para esse tipo de coisa", diz. "Só por isso vale a pena trabalhar tanto."

Isay casou-se com a arquitetura, teve um romance duradouro com o cinema - dirigiu 14 curta-metragens e o longa Fogo e Paixão (1988) - mas sua grande paixão é a música. Nem sempre correspondida, diga-se, a julgar pela estridente prática do violino à qual se entregou anos atrás e foi terminantemente proibida pela filha. O arquiteto não teve uma banda de rock na adolescência, mas conta com orgulho que tocava acordeão na infância e chegou a se apresentar na Gincana Kibon, programa dominical da TV Record apresentado por Vicente Leporace e Clarice Amaral na década de 60.

Hoje, boa parte dos amigos de Isay não entende por que, aos 56 anos e com uma bagagem cultural invejável nas costas, ele viaje como um groupie atrás de seus ídolos. "Quem não conhece o som do Radiohead pode achar que é uma coisa banal, mas é algo muito especial", afirma o arquiteto, que considera Thom York, compositor e cantor da maioria das músicas, "um gênio, uma das dez personalidades mais interessantes do planeta em todas as áreas". O arquiteto não dá bola para as gozações com sua idade, mas admite, bem-humorado, a estranheza da situação: "Confesso que às vezes me sinto um pouco ridículo, careca e pulando no meio da garotada". Impressão semelhante, talvez, à declarada pelo escritor argentino Alan Pauls, autor do romance O Passado - adaptado para o cinema em 2007 por Hector Babenco, com Gael García Bernal no papel principal -, que, aos 49 anos, pai de família, continua "fritando" nas pistas de música eletrônica em Buenos Aires.

A julgar pelo ecletismo de sua coleção de discos, porém, o gosto musical do arquiteto brasileiro tem fundações sólidas. Na estante, repousam lado a lado e sem nenhum critério álbuns de Moacyr Luz, Inez Cavanaugh, Bola de Nieve, Kronos Quartet, Cole Porter, Chris Montez, Georgie Fame, Juliette Gréco, Antoni and the Johnson?s, Arvo Pärt, música árabe e de sinagoga. Por mais de uma década, Isay seguiu mundo afora as exclusivíssimas apresentações da cantora de jazz norte-americana Blossom Dearie, até sua morte no mês passado, aos 82 anos, ocasião em que Ruy Castro escreveu: "No Brasil, os fãs de Blossom são tão poucos que, pelos meus cálculos, todos devem se conhecer".

Autor de projetos sofisticados e intimistas como o Hotel Fasano de São Paulo, a loja da Forum e a Livraria da Vila, no bairro paulistano dos Jardins, admirador do romancista britânico Ian McEwan, do cineasta norte-americano Stanley Kubrick e dos arquitetos japoneses Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa, o arquiteto não estabelece hierarquia entre as formas artísticas ou entre os volumes de sua biblioteca. "Funciono de forma simples, sem frescura: é o que mexe comigo, o que me toca. João Gilberto, John Cage, Caetano ou David Bowie, cada um tem seu momento certo."

No trabalho como no lazer, Isay gosta das sinestesias e de buscar impressões semelhantes nas manifestações mais distintas. Assim, consegue afirmar que a boate paulistana Disco, que projetou em 2006, encontra sua mais perfeita tradução na faixa Motion Picture Soundtrack do álbum Kid A, do Radiohead - sombria e escura no início, como as paredes da boate, explodindo em sons depois, evocando o túnel de pastilhas coloridas que desenhou. Ele também vê semelhança entre a canção Videotape, que fecha o CD In Rainbows, com Musica Ricercata II, do compositor erudito húngaro György Ligeti, tema do filme De Olhos bem Fechados, de Kubrick.

A exemplo de sua arquitetura, que opta pela elegância no lugar da ostentação, o que Isay não suporta no mundo artístico é estrelismo. Se um grupo estrangeiro anuncia uma turnê pelo Brasil, ele corre para ler a lista de exigências de camarim: "Se pedirem qualquer coisa além de água, me irrito e nem vou mais". Até nisso, diz, sua banda predileta é exemplar. Os músicos do Radiohead, que disponibilizaram o último álbum para download na internet ao preço que o consumidor se dispusesse a pagar (podendo ser de graça, inclusive), sempre se caracterizaram por uma atitude low profile. Simplicidade que viu confirmada no domingo após os shows em Nova York, quando deu de cara com o popstar da banda em um simples brechó no bairro de Nolita. "Ficamos olhando, meu sobrinho e eu, fascinados. Thom York comprou um casaco de couro usado, pagou e saiu andando tranquilamente pela rua, em frente aos pubs lotados de gente. Não tinha motorista esperando, segurança ou assessor."

Mas esse não foi o encontro mais próximo que o tiete teve com a banda. Por uma dessas coincidências da vida, Isay trabalhava em um projeto em Londres quando conheceu o dono de uma gravadora de música alternativa africana. Sabendo de sua adoração pelo Radiohead, o empresário convidou Isay para um jantar no restaurante Indochine, no East Village, às vésperas de uma apresentação do Radiohead em Manhattan, no qual estaria presente o guitarrista da banda, Ed O?Brian. Na data, Isay e Ed foram os únicos pontualmente britânicos. A conversa engatou no bar do restaurante enquanto os outros convidados não chegavam e não terminou mais.

Isay descobriu em Ed um fanático pelo Brasil, pela MPB, pelo futebol e, especialmente, por Jorge Ben. A ponto de ter batizado um de seus filhos com o nome Salvador. "É um cara muito culto, formado em ciências políticas", conta Isay, que já o recebeu com a mulher Susan e os dois filhos em seu apartamento em Higienópolis. Na ocasião, levou-o ao Rio para ver um jogo do Flamengo, no Maracanã.

No início de 2007, Isay Weinfeld mandou um e-mail ao amigo dizendo que estaria em Londres por três dias. Recebeu um telefonema no celular. Era Ed: "Por que você não vem passar o domingo em casa para eu te mostrar umas faixas do novo disco?" O arquiteto, é claro, foi. Achou a residência "simples e gostosa", assim como a comida preparada pela família para o convidado brasileiro. Depois do café, Ed O?Brian pôs um CDR em "um aparelho três-em-um vagabundo", recorda-se Isay, e foi à cozinha lavar os pratos. "E aí eu me vi em Londres, arrepiado, ouvindo cinco músicas ainda rústicas, mal-acabadas, do que viria a ser o CD In Rainbows, que o mundo inteiro esperava sair."

Na despedida, na porta de casa em um subúrbio londrino, o ídolo, com o filho dormindo no colo, brincou com o fã: "Take it easy, my friend Charlie..."

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