Islamofobia e liberdade

As sociedades muçulmanas não precisam de leis contra a 'blasfêmia' - pretexto para restringir o direito de opinião e fortalecer o projeto ideológico de congelar a Primavera Árabe. O Brasil também não.

DEMÉTRIO MAGNOLI É SOCIÓLOGO, DOUTOR EM GEOGRAFIA HUMANA PELA USP, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2012 | 03h07

DEMÉTRIO MAGNOLI

Na ONU, Dilma Rousseff declarou "nosso mais veemente repúdio à escalada de preconceito islamofóbico em países ocidentais". No Brasil, por decisão judicial, foi proibida a divulgação na internet do abominável vídeo Inocência dos Muçulmanos. A presidente disse a verdade - uma verdade crucial, aliás. A censura judicial ao vídeo islamofóbico, porém, corrompe o sentido da condenação presidencial à intolerância.

O fenômeno islamofóbico não é um raio no céu claro: tem raízes no solo profundo daquilo que se denomina Ocidente. A narrativa histórica das batalhas cristãs de Poitiers (732) e Kosovo Polje (1448), as Cruzadas, o decreto real de expulsão dos muçulmanos e dos judeus da Espanha configuraram a identidade da Europa. Contudo, é um equívoco interpretar a onda contemporânea na moldura exclusiva dos "tempos longos" ou da "cultura". A caricatura de um Islã violento, bárbaro, avesso à liberdade foi redesenhada nas últimas décadas, na esfera da política, pelo pensamento neoconservador americano. Sua fonte é a tese do "choque de civilizações", uma formulação original do orientalista Bernard Lewis popularizada pelo livro célebre de Samuel Huntington.

Os arautos do "choque de civilizações" falam-nos de um conflito cultural entre Ocidente e Islã sobre o tema da liberdade. Entretanto, o que existe de fato é um conflito político no interior do Islã sobre um valor universal, não uma ideia ocidental. No plano intelectual, a Primavera Árabe destruiu o argumento nuclear de Lewis e Huntington. No plano político, as revoltas contra as tiranias árabes encurralaram os fundamentalistas e os jihadistas em seus próprios países. O ridículo vídeo amador de um provocador lunático funciona como pretexto para a tentativa de reação dos que perderam a "guerra civil das ideias" no mundo muçulmano. Batizar tal reação como um "Inverno Árabe" não é apenas uma inverdade factual, mas uma operação para restaurar o discurso desmoralizado do "choque de civilizações".

Imagens fechadas de câmeras de televisão produzem a falsa impressão de um levante generalizada contra o vídeo ofensivo. Há, é claro, um sentimento coletivo de indignação, insuflado pela crença, típica de sociedades fechadas, de que a circulação midiática de opiniões reflete sempre a vontade dos governos - ou, ao menos, conta com a anuência das autoridades. Entretanto, com as exceções parciais do Irã, do Paquistão e do Líbano, os protestos se circunscrevem a uma franja de militantes radicais inspirados por organizações extremistas. Na imprensa ocidental, seduzida pela simplicidade gráfica do "choque de civilizações", quase nunca se registra que os protestos são um fracasso, principalmente se cotejados com as manifestações multitudinárias da Primavera Árabe. E, sobretudo, não se confere destaque à "crítica da crítica".

Na Líbia, o assassinato do embaixador americano Christopher Stevens por jihadistas ensandecidos encontrou resposta no The Sorry Project, uma página no Facebook que coletou dezenas de milhares de mensagens de desculpas escritas por pessoas comuns - os "líbios legítimos", como muitos se definiram. No Líbano, Hassan Nasrallah, o líder do Hezbollah, partido fundamentalista xiita, conduziu uma tonitruante manifestação contra o vídeo. O ato produziu efeitos indesejados: nos jornais, nas ruas, nas mesquitas, ergueram-se vozes incontáveis acusando-o de hipocrisia. Com que autoridade ele acusa os EUA, perguntaram, enquanto apoia o regime sírio de Bashar Assad, cujas tropas devastam mesquitas e apontam armas para a nuca de fiéis, obrigando-os a dizer que "não há outro Deus senão Assad"?

No Egito, inclinando-se à pressão dos salafistas, o governo de Mohammed Mursi deu sinal verde para a inclusão de um artigo contra a "blasfêmia" no projeto de texto constitucional. A iniciativa foi imediatamente exposta ao escárnio público por grupos de direitos humanos que defendem o princípio da laicidade do Estado. Os ativistas impetraram ações judiciais contra um xeque fundamentalista que, a pretexto de repudiar o vídeo, queimou a Bíblia diante de uma pequena aglomeração de fanáticos. As leis contra a "blasfêmia" são o verdadeiro alvo da crítica do escritor libanês Elias Khoury, que escreveu um artigo cortante sobre as reações violentas contra o vídeo provocativo. "O espetáculo somos nós", não o vídeo, observou implacavelmente o escritor. Ninguém prestou atenção nas imagens do idiota solitário, mas o mundo assiste, consternado, aos excessos de furor religioso que misturam oportunismo político e crassa ignorância.

Somos todos Khaled Said é o nome da página egípcia do Facebook que divulga as manifestações da Primavera Árabe na Praça Tahrir e conta com 2,4 milhões de seguidores. Para se dissociar da gritaria odienta dos fundamentalistas, a página publicou uma lista de fatos sobre o vídeo contra Maomé. No alto, figura o mais importante: apenas 500 pessoas haviam clicado no filmete do YouTube antes do início dos protestos, cifra que ultrapassou 30 milhões dias atrás. O espetáculo, realmente, não se desenrola no éter da internet, mas nas ruas e praças do mundo muçulmano.

As sociedades muçulmanas não precisam de leis contra a "blasfêmia", que só servem como pretextos religiosos para uma operação política de cerceamento da liberdade de expressão e para o projeto ideológico de congelar a Primavera Árabe. O Brasil também não precisa de leis contra a "blasfêmia" - ou de juízes malucos determinados a exercer uma censura ilegal. Afinal, de que lado queremos estar na "guerra civil das ideias" em curso no mundo muçulmano, e bem além dele?

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