Isto sim é diva

Entre aplicações de botox, assessores mil, dores de corpo e de alma, 48 horas apoteóticas com a maior operária da música brasileira

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2010 | 01h16

Muito bem. Se isso aqui fosse enredo de escola de samba... humm, deixa ver... podemos tentar algo como "Assim é se lhe parece - nas plagas escaldantes do Rio de Janeiro dos loirinhos estrangeiros na areia e da polvorosa por Beyoncés e Madonnas, uma viagem de 48 horas pelo universo musico-sexy-luxuriante-multiassessorado de nudez, preenchimentos, silêncios e reminiscências da eterna diva e futura fazendeira Elza Soares às vésperas de seu desfile como madrinha da bateria de sua escola de alma e coração, a Mocidade Independente de Padre Miguel". Mais ou menos por aí. Elza entrará na Sapucaí amanhã à noite, à frente dos batuques e compondo a ala do Eldorado, um dos paraísos imaginados pelo carnavalesco Cid Carvalho. Virá no chão, com muito brilho, pouco pano e sem samba no pé, sentada num trono de rainha com rodinhas empurrado por dois marmanjos. Uma recente torção de tornozelo lhe dificulta o caminhar. Mas ela promete surpresas e efeitos especiais. Façamos, pois, um sobrevoo por esse esquindô-esquindô.

COMISSÃO DE FRENTE

No lado de fora do barracão da Mocidade, Cidade do Samba, zona portuária do Rio, o termômetro jura que faz só 32°. Cá dentro deve passar dos 40°. É meio-dia, e a sirene de fábrica avisa aos 250 operários que está na hora da bóia. O cheiro de feijão misturado ao de cola, resina e isopor não apetece. Com uma fita métrica de costureira no pescoço e vestindo uma camiseta cinza com lantejoulas cor-de-rosa formando a palavra "champion", Cid Carvalho - quatro vezes campeão com a Beija-Flor e desde 2008 na Mocidade - explica por que Elza. "Porque para ser madrinha de bateria não basta balançar a b*%#@ e pagar. Essas que pagam só atrapalham. Elza é de Padre Miguel, já puxou samba aqui, tem história na escola", resume. Na terça-feira, ela foi ao barracão e parou geral. Cantou trechos de Salve a Mocidade e quis ser erguida ao alto do carro abre-alas, que trará o casal do Gênesis em enormes dimensões. No dia seguinte, a caminho de uma sessão de estética facial, no Leblon, ela me contaria: "Olha meu bem, sentei no colo do Adão e não senti nada".

EVOLUÇÃO

Elza circula pelo Rio de Zafira preto, não tão novo, com vidros escurecidos e dirigido por motorista particular. Sentada no banco de trás, ela parece menor do que realmente é. Na rua, se apóia firme no braço de sua assessora pessoal Sabrina Bueno, uma morena sorridente que cuida dos compromissos pessoais, preenche os cheques e está sempre por perto. Elza vai pé ante pé, no miudinho. Degraus altos não a intimidam, apesar do tornozelo direito inchado que lhe rouba o bom humor nesta quarta-feira suarenta. Bengala e cadeira de rodas, "Deus me livre". Tem ainda uma dor nas costas de lascar que vem desde 2000, quando pela primeira e única vez em 57 anos de carreira ela caiu do palco. Tombaço de 3 metros de altura. Desmaio, ambulância, quatro vértebras quebradas. "Quando acordei no hospital fui logo pedindo que fizessem um exame de sangue, pra provar que não estava bêbada", diz. "Caí porque não tinha marcação no palco e um refletor me ofuscou os olhos." No ano passado a dor se espalhou pela perna esquerda e por um mês Elza sucumbiu à cadeira de rodas, "uma coisa humilhante, cara, você nem queira saber". Foi quando chorou pela última vez: "Morri de medo de não voltar a andar." E sem que eu lhe perguntasse, mas talvez imaginando a que elucubrações eu me daria a partir de sua dificuldade de locomoção, subiu a gostosa voz rouca: "Cara, quer me ver leão é só perguntar a minha idade. Este país não respeita a sabedoria. Idade aqui é ter a b*%#@ dura, então eu tenho."

HARMONIA

Verdade. Aos 70 e mais alguns, Elza não balança. Malha diariamente com personal trainer há mais de 30 anos, de modo que seus 52 kg se encaixam bem no seu 1,55 m e ainda sobra espaço para os peitos siliconados e a cinturinha fina que ela tanto preza. Come e dorme pouco, porque lhe disseram que essa é a receita da vida longa - "fora transar, é lóóógico", ela completa, na verdade usando um verbo parecido para a mesma ação. Elza também consulta muito o espelho, seu psicanalista e conselheiro das horas mais duras. "Se ele me diz que está sobrando algo aqui ou ali, mando cortar. Aí volto, mostro como ficou e ele briga: "Elza, tu não tens vergonha nessa cara preta cheia de passado, não?"" No consultório da médica estética Lêda Villas Bôas - "a medicina a serviço da beleza e da juventude" -, Elza manda me chamar na sala de espera: "Vem ver, meu bem, como se desenvelhece a mulata". Ela acabara de receber injeções sobre o lábio superior para preencher o que a doutora chamou de "código de barras, aqueles vincos que se formam quando a mulher faz biquinho". Teve ainda aplicações no lábio inferior e entre as sobrancelhas e radiofrequência para tirar manchas da pele. Elza continua o tratamento em casa, com oito produtos da grife Beleza Por Favor, de propriedade da própria médica. Um deles é uma jujubinha antirradicais livres "deliciosa" de R$ 300 a caixa com 30 unidades. "Mas precisa três caixas para dar resultado", informa doutora Lêda. Antes de sair, ela adverte: Elza deveria maneirar nos beijos e evitar levar mordidas nos lábios. A paciente chiou: "C@#*&$%, doutora, faça isso não!".

FANTASIAS E ADEREÇOS

Nesse quesito existem três Elzas. A Elza do dia a dia na rua usa collants apertadíssimos, generosamente abertos nas costas e sem mangas. A Elza do dia a dia em casa usa nada. Está quase sempre pelada, a menos que haja visita. Nesse caso ela se cobre - pouco - com um camisetão folgado. A Elza dos palcos vai de vestido, de preferência amarelo, sua cor querida, transparente e esvoaçante. Roupa íntima, Elza nenhuma usa. Nem em cima, tampouco embaixo. Mas todas as Elzas capricham nos brincos grandalhões, nos óculos escuros Dolce&Gabbana maiores ainda e na exuberante maquiagem. "Ela não sai de casa sem fazer pelo menos um olhinho", diz o maquiador Wilson Maia, um sujeito baixo e troncudo que Elza conheceu no SBT e contratou para atendê-la com exclusividade, 24 horas por dia. Maia, que prefere ser chamado de Latoya (apelido que ganhou por amar o irmão mais novo de Latoya Jackson, o falecido Michael), mora com Elza. E age como uma sombra: está sempre às cotas dela, com escovas a remexer seus cabelos alaranjados e pincéis e bastões a cutucar suas bochechas e boca. Na quarta-feira à noite, Latoya fazia força para encaixar três pulseiras grossas e douradas no pulso direito de Elza. Dali a alguns minutos ela se apresentaria no Teatro João Caetano, em uma cerimônia de premiação cultural promovida pelo governo do Estado. No carro, ela diz que está indo trabalhar de graça, não cobrou nada porque é um número só. Vai cantar O Morro não Tem Vez e fim de papo. Pergunto se ela pode se dar a esse luxo, se já está com a vida tranquila. "Ah, já. Para quem comia pão com pão e espantava os urubus do lixo para encontrar alimento, comer boi ralado todo dia está ótimo, meu bem. Não tenho apego a coisas. Agora estou vendo de comprar uma fazendinha pra descansar de vez em quando." Um amigo, contudo, segreda que não é bem assim. Que embora as coisas tenham melhorado nos últimos dois anos, Elza ainda precisa dar duro. Só o aluguel de um apartamentão como o dela - em Copacabana, de frente para o mar - custa por volta de R$ 10 mil por mês, diz um corretor de imóveis da área. E ainda tem Sabrina, Latoya, motorista, personal e as jujubinhas da doutora Lêda pra pagar.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Terminada a apresentação no João Caetano, Elza se refugia no camarim. O espaço é pequeno, não mais que dois metros por três, e as duas janelas estão tapadas por chapas de compensado. Sobre a mesa há canapés, água, cerveja e um vaso cheio de sal grosso e pimentas vermelhas. Elza não quer comer. Quer tomar champanhe. No canto perto do espelho, um rapaz alto, de rabo de cavalo e barba desgrenhada fuma sem parar. É Bruno Lucide, 26 anos, marido, empresário e produtor musical de Elza. Está dizendo que não viria ao show porque na hora de sair de casa se irritou com a empregada, que não arrumou direito suas meias na gaveta. Mas resolveu vir depois de encontrar o pé faltante no meio da roupa para passar. "Bruno é organizado e eu não sou, por isso a gente dá certo", diz Elza. Os dois estão juntos desde 2002, e em novembro último se casaram de papel passado. "Eu acho importante, eu queria...", começa Elza. Bruno interrompe: "Deixa que eu respondo. Foi só uma formalidade para facilitar uns trâmites". Mineiro de Itabira, branco como leite, ele fala um bocado alto. E quando fala, Elza cala. Em abril, Bruno põe nas lojas o CD Arrepios, com Elza na voz e João de Aquino no violão. E depois do Carnaval começa a gravar Elza cantando standards do jazz americano. Empolgado, Bruno vai cortando as frases com uma porção de palavrões. Elza ensaia uma advertência. "Você vai me censurar, gatinha? Olha que te ponho para cantar de manga comprida e gola rulê", ele brinca. Ela devolve o carinho: "Não faz isso comigo, vida minha". Se alguém arrisca perguntar sobre a diferença de idade, Elza repete: "Bruno não precisa de mim. Eu preciso muito mais dele".

DISPERSÃO

Na quinta-feira, Elza me recebe na sala ampla e iluminada de seu apartamento. Parece mais disposta depois de uma visita matinal ao médico das costas. Dos oito quadros pendurados nas paredes, cinco são retratos seus, e cada um deles mostra uma Elza diferente. Na mesa de jantar, Bruno, Sabrina e mais dois produtores se revezam entre telefones e laptops, num ritmo frenético. De collant camuflado e rosa no cabelo, a dona do pedaço vem da cozinha filosofar. Enquanto estoura um plástico-bolha, mania antiga, vai disparando: "Eu continuo ingênua. Ingenuidade não se perde, e se você tenta removê-la a força se torna um bruto"; "Se tem uma fruta que eu não como é morango, fruta de bacana"; "O mundo está tão violento por culpa das mulheres, que mimam seus filhos homens em vez de ensiná-los a ser gentis, cavalheiros, companheiros". Sabrina lembra que a doutora Lêda aguarda para dar os últimos cuidados na mais nova madrinha da bateria, antes da apoteótica noite no sambódromo. Ainda há tempo para um desabafo que, sozinho, garante nota 10 geral para o ziriguidum de infinitas voltas por cima da grande Elza Soares: "Quando eu tinha 5 anos São Jorge veio falar comigo e me disse que eu apanharia muito. Eu achei que fosse do meu pai e depois iria parar. Não imaginei que fossem me bater a vida inteira".

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