It's a joke!

Slogans só funcionam se não são analisados: destinam-se à multidão, que, por definição, não foi inventada propriamente para reflexões

SÍRIO POSSENTI, É PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE LINGUÍSTICA/INSTITUTO DE ESTUDOS DA LINGUAGEM DA UNICAMP, AUTOR DE QUESTÕES PARA ANALISTAS DE DISCURSO (PARÁBOLA),

13 de novembro de 2011 | 03h08

SÍRIO POSSENTI

Segundo jornais, FHC sugeriu ("teria sugerido" parece melhor, como se verá, até porque a forma verbal tem sido cada vez mais frequente) uma adaptação do slogan de Obama, Yes, we can (Sim, nós podemos) para Yes, we care (Sim, nós cuidamos). Teria acrescentado que "o que falta é carinho, é atenção".

Slogans só funcionam quando não são analisados. Destinam-se à multidão que, por definição, não foi inventada propriamente para a reflexão. Não são teses filosóficas, que podem ser defendidas, nem leis científicas, que podem ser demonstradas. Ao contrário, sempre se revelam mais ou menos ocos quando submetidos a um olhar crítico. Nós podemos. "Nós" quem, cara-pálida? E podemos o quê?

Se explicitamos a quem se refere o pronome "nós" e preenchemos a posição de objeto do verbo, a frase deixa de ser um slogan (ela se torna um pequeno tratado, um programa de governo), e pode se revelar falsa. Se precisar de explicação, não é slogan, não mobiliza.

Para mobilizar, fazer votar ou fazer comprar, é preciso que seja um pouco irracional. Talvez um pouco bobo. I like Ike é bem bobo, considerado seu conteúdo. É infantil, pode-se dizer. E por isso funcionou. Vota-se por emoção, dizem estudiosos da costa leste. Prefiro dizer que é por ideologia, por difusa que seja, ou porque se torna sólida em contextos definidos ("é a economia, estúpido", aponta para uma coisa bem sólida).

I like Ike repete "ai" três vezes. Além disso, os sons se encaixam, como aquelas bonecas russas, sem contar que Ike está contido em like, como se o objeto óbvio de like é Ike. Uma análise de criança, diria Freud.

A essa análise "formal" o slogan resiste. Mas que não se pergunte por seu sentido político, nem pelas razões para gostar de Ike.

Lula lá é tão oco quanto Isto é que é. Funcionam? Claro. Afinal, os sons se repetem! "Lá" é um lugar que todos pensam que sabem onde fica. No contexto, a interpretação parece óbvia: "lá" é o palácio do Planalto. Mas é claro (deveria ser) que um presidente não é apenas alguém que vai morar em certa edificação. Ele vai "lá" para exercer o poder... Os que acharam que sabiam onde fica "lá" queriam que Lula ocupasse aquele lugar. Mesmo que (ou desde que) não soubessem precisamente por quais razões (eu disse "razões").

Yes, we can funcionou porque muitos decidiram ou acreditaram que eram parte de "we" - uma espécie nova de americanos. E que podiam (fazer) alguma coisa que não era muito clara, mas que era desejável ou necessária.

É reconfortante pensar que se sabe o que quer dizer uma frase vaga. E é ainda mais reconfortante ter algum tipo de certeza de ser um dos que vão fazer coisas acontecerem, contra todos os que acham que isso é impossível. Olivier Reboul (O Slogan, Cultrix) explica isso e algumas coisas mais.

Mas o que dizer de slogans em língua estrangeira? Das Auto associa um carro ao imaginário sobre a tecnologia alemã, apelando para uma forma que soa como alemão (não importando se é). Just do it faz pensar em ação porque vem no final de um filme característico (quem não quer ação hoje, mesmo atolado no sofá?). Mas aqui se trata de um carro e de um tênis. Como vender uma ideia política com um slogan numa língua dos outros? A multidão pode não ser composta por sábios, mas também não é uma soma de beócios.

O partido será associado ao entreguismo, depois de ter sido associado à privatização? Será mais uma "confirmação" da falta de relação com a realidade que caracterizaria os tucanos? O tucanês, como se sabe, segundo o imaginário "popular", é uma espécie de coleção de eufemismos.

Tucanês em inglês pode dar certo? Acrescente-se que "care" não é palavra das mais conhecidas, não é um Mac, nem mesmo um business. E se, escrita, for lida letra a letra, CARE? Traduzido, o slogan funciona? "Sim, nós cuidamos" dá samba? Seria repetido involuntariamente durante o banho?

O mais grave: "cuidar" foi associado a Dilma, e em boa medida por ser mulher. ("A mulher cuida e um país como o nosso precisa disso, precisa de cuidado", ela disse, ainda em campanha). E não parece Madre Teresa demais para uma personalidade que sempre defendeu "o processo", algo bem impessoal? "Cuidar" é o avesso disso tudo.

Só resta uma hipótese: a fala de FHC foi lida como se fosse séria. Mas era, de fato, uma intervenção irônica. Afinal, FHC nunca resistiu muito a essa tentação (um jornal disse que se tratava de uma paródia, depois de ter noticiado o evento como se fosse sério).

Ironia não é, como se aprende na escola, uma forma de significar o contrário do que se diz, mas uma fala que alguém produz como se fosse outro. Assim, não teria sido o FHC tucano quem propôs Yes, we care, mas um personagem que ele inventou na hora - e ele não devia ser levado a sério.

Mas qual seria o sentido de sua fala, se essa hipótese for correta? Não é fácil descobrir. As interpretações se fazem no interior dos processos históricos, não são mera questão de língua. E sabe-se que não adianta muito algum especialista meter-se a explicar o que se quis dizer.

A frase quererá indicar que, dado o estado de coisas, é melhor concorrer em outro país? Se sim, o problema é o país, não o partido? Ou que não há candidato nativo que dê conta do recado? Ou que os discursos disponíveis já foram apropriados, que é preciso importar um? Mas por que exatamente um que parece petista e que é o contrário do que sempre foi o dos tucanos? Choque de gestão combina com "we care"?

Dados os rumos que as coisas tomam no partido, se as informações e avaliações da mídia são corretas seria mais realista propor outro slogan, fazendo uma tradução com toques regionais: "Nóis cuida, uai". Acontece que Aécio é um mineiro do Leblon. A fórmula pareceria ainda mais falsa.

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