Tiziana Fabi/AFP
Tiziana Fabi/AFP

J. M. Coetzee publica continuação de 'A Infância de Jesus'

Nobel de Literatura em 2003 aborda o drama da imigração em 'A Vida Escolar de Jesus'

Mateus Baldi*, Especial para o Estado

10 Novembro 2018 | 16h00

Um homem está em um barco cheio de imigrantes quando vê uma criança à procura dos pais. Os dois desembarcam em uma terra hostil onde só se fala espanhol, e lá recebem outros nomes – Simón e David, respectivamente. Neste novo lugar, chamado Novilla, Simón cuida do menino com afeição desmedida e, conforme busca seus pais, David vai se revelando uma criança peculiar: responde tudo com perguntas complicadas e não parece entender as coisas mais básicas da vida. Atordoado, Simón começa a perceber que neste mundo estranho só ele parece fazer algum sentido. 

Com pouco mais de 300 páginas, essa é a premissa de A Infância de Jesus, experimento radical do sul-africano J.M. Coetzee, vencedor do Nobel em 2003. Agora, a Companhia das Letras lança A Vida Escolar de Jesus, que continua do mesmíssimo ponto em que A Infância parou: Inés – a mãe do menino, conhecida numa situação absurda, como tudo que ronda este universo –, David e Simón estão fugindo de Novilla rumo a Estrella. Metidos em problemas com o Estado, que quer obrigar a criança a estudar numa espécie de reformatório para delinquentes, os três precisam refazer a vida.

Em A Infância, David aprende a ler com Dom Quixote. Coetzee abre A Vida Escolar com uma epígrafe de Cervantes, dizendo que “segundas partes nunca foram boas”. De fato, esse segundo volume não é nada bom para os personagens, quase todos com nomes bíblicos. No primeiro, uma distopia elegante nos moldes de Ensaio Sobre a Cegueira, o foco era David e seus questionamentos, mas Coetzee opta por abraçar a fábula e a gravidade da condição humana. Recorrendo explicitamente a divagações dostoievskianas, ele expõe David e seus sete anos a toda sorte de pessimismo possível.

Na Academia de Dança, um contraponto ao ensino tradicional e comandada pelo casal Arroyo, onde afinal vai estudar, David aprende a fazer as complicadas “danças dos números”, que nada mais são do que formas de trazê-los do céu para a terra. Seduzido pela presença constante de Dmitri, o segurança do museu que funciona embaixo da Academia, ele se distancia de Simón, que precisa lutar contra o próprio ciúme. Quando a tensão parece atingir os mesmos níveis do livro anterior, Coetzee desvia para um crime brutal e mergulha a jornada numa aura pegajosa cujo eixo parece ser a seguinte frase: “Não há mais reis, não há mais super-homens, não há mais seres excepcionais.” 

Presente desde A Infância de Jesus, o deslocamento da realidade agora contagia Simón e parece prendê-lo de vez ao mundo onírico de Estrella: não é possível existir espaço para elaborações de tratados sobre a bondade – a ordem é caos total. Decidido a romper com a moral do Ocidente, Coetzee ataca os que estamos aqui fora quando fala mais de Simón que David. Para além da própria realidade, a mudança de foco questiona na passividade do adulto a verdadeira ética de um mundo cada vez mais bélico – “se houvesse menos paixão, o mundo seria um lugar mais seguro”. 

Ao botar um juiz dizendo que os humanos não são animais, Coetzee fixa o espelho e deixa o reflexo agir. A cena do julgamento, ponto alto, queima ritos sociais como se Estrella fosse a anti-Terra. Ali, tudo é possível, e o próprio Simón, desesperado, parece deixar isso bem claro.

Nas conversas filosóficas com David, Simón estabelece que eles vêm da “outra vida”, da qual pouco se lembram. Não seria exagero traçar paralelos com a morte, ainda que seja o caminho mais fácil. David é quem mais chega perto de descobrir quem era antes do navio, tendo lampejos e operando o que se pode inferir como pequenos milagres nessa ópera do absurdo. No minimalismo trágico da inversão, impera a fábula. Um cadáver estrangulado é ponte para os mistérios do sexo. O pragmatismo de Inés diante da surrealidade ataranta Simón. Em resumo, nada faz sentido, a começar pelo título, e esse é o triunfo. Jesus é David? Jesus é uma simples provocação às tradições ocidentais? Jesus é o leitor? Mais que isso – Jesus importa?

Mesmo não sendo tão grandioso quanto o primeiro volume, esse contribui para uma tentativa de elucidação de uma sociedade cada vez mais fraturada. Repleto de momentos bonitos e cruéis, é sobretudo um livro de crimes e (ausência de) castigos cujo entendimento só cabe ao leitor. Sendo Coetzee, que tem na conta um Nobel e pelo menos um dos livros mais brutais da literatura recente – Desonra –, está de bom tamanho.

*Mateus Baldi é escritor, roteirista e fundador da plataforma literária 'Resenha de Bolso' 

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