Jack arretado

Falsário preso no Recife com foto do ator norte-americano na carteira de identidade ganha 15 minutos de fama internacional

Samarone Lima, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2012 | 03h09

Era para ser mais um golpe na extensa carreira de estelionatário de Ricardo Sergio Freire de Barros, iniciada em 2003 - sem um deslize, por sinal. Estava numa das agências mais movimentadas do Banco do Brasil, no bairro de Boa Viagem, no Recife, na manhã do dia 28, quando apresentou os documentos da sua falsa firma, acompanhado de um falso contracheque e uma falsa carteira de identidade.

Tudo caminhava bem. No golpe anterior, usando a falsa empresa Grid Soluções Alternativas Ltda., ele conseguiu talões de cheque, cartões de crédito, tudo em nome de Ricardo José de Melo. Em dois bancos, deixou um prejuízo de R$ 470 mil.

Faltava pouco para abrir mais uma conta quando um detalhe interrompeu bruscamente a carreira de Ricardo. O gerente do banco resolveu olhar a foto na identidade. Estava lá a imagem de um homem na faixa dos 70 anos, calvo, com expressão assustada. Era uma foto do ator Jack Nicholson, com uma carreira de quase meio século no cinema, vencedor do Oscar, um dos rostos mais populares do mundo. No documento, "Jack Nicholson" interpretava um tal João Pedro dos Santos, nascido em Arapiraca, interior de Alagoas, em 11 de abril de 1941.

O gerente pediu um minuto e ligou para a delegacia de Boa Viagem. O delegado, Erivaldo Guerra, mandou uma equipe ao banco averiguar. Com 14 anos de Polícia Civil, ele é um especialista na área de estelionato. Mas não imaginava que esse caso estaria entre os mais comentados no twitter dos EUA no dia seguinte. "Este ano, já prendemos mais de dez falsificadores só aqui em Boa Viagem", conta Erivaldo. "Mas esse foi especial. Ligaram para mim do México, Argentina, Uruguai, Canadá, Estados Unidos, Chile. Hoje mesmo vem um pessoal do Fantástico."

Ricardo, o verdadeiro, já estava dentro de uma Picape S-10, cabine dupla, do ano, quando foi abordado pelos policiais. Não ficou afobado. Chegou à delegacia com sua pasta 007. Dentro, além da identidade com a foto do ator, tinha outras cinco, cada uma com nome, data de nascimento e filiação diferentes - quatro tiradas em Alagoas e uma em Garanhuns, Pernambuco. E mais 36 folhas de cheque do Banco do Brasil, documentos de empresas inexistentes e cartões de crédito. Uma de suas "empresas" teria em caixa R$ 2 milhões. No meio da penca de papéis falsos, apenas um verdadeiro: a Carteira Nacional de Habilitação emitida pelo Detran de Pernambuco.

Ricardo declarou que só falaria em juízo. O delegado diz que nem ia convocar a imprensa, mas não é todo dia que um golpista usa o RG falso de um astro de Hollywood. No jargão policial, Ricardo é o que se chama de "mosca branca". Aplicava golpes desde 2003, mas nunca foi pego. O uso da foto do ator norte-americano pode ter sido fruto de uma característica dos estelionatários bem-sucedidos que é velha conhecida dos policiais - uma certa megalomania. "Eles repetem tanto os golpes que começam a tirar onda", observa Márcio Carvalho, policial civil que acompanhou o caso.

"Mais idiota, impossível", escreveu o jornal britânico Daily Mail, na linha de outros veículos estrangeiros que zombaram do "artista" brasileiro. "De abestalhado ele não tem nada", corrige o delegado. "Foi com essa mesma carteira que ele abriu outras duas contas e deixou um rombo de R$ 470 mil".

Baixinho, gordinho, cabelo sem entradas, olhos mansos e fala suave, Ricardo não lembra nem a sombra do astro de O Iluminado, Um Estranho no Ninho e As Bruxas de Eastwick, entre outros filmes. Nascido no Recife, tem 42 anos, é solteiro e tem dois filhos - revelou a investigação. A polícia ainda tenta descobrir seu endereço. Sabe-se que os pais moram em um apartamento simples no bairro de Rio Doce, em Olinda. Quando chegou à delegacia, sua grande preocupação foi não ser filmado ou fotografado, pois o pai ficaria "contrariado", segundo disse. Mas não é difícil deduzir que, ao contrário do que convém a um ator de cinema, em seu ramo profissional é melhor manter o rosto anônimo.

Autuado por estelionato e falsificação de documentos, cuja pena vai de 1 a 5 anos de reclusão, o fake Jack Nicholson teve seus 15 minutos de fama e permanece, até o momento, no Centro de Triagem (Cotel), em Abreu e Lima, grande Recife. "Depois de sair da prisão, ele vai fazer o mesmo. Estelionatário sempre faz de novo", resigna-se o delegado.

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