Geraint Lewis
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Jardim que Derek Jarman plantou durante a doença ainda traz alegria

Lar do cineasta até sua morte oferece residências a artistas, pensadores, escritores e até jardineiros

Mary Katharine Tramontana, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2020 | 16h00

Na planície desértica de Dungeness, promontório no sul da Inglaterra, há um chalé de madeira com um pequeno jardim. As paredes pretas com detalhes amarelos são cercadas por flores e pedaços de madeira trazidos pela maré, decorados com patas de caranguejo e conchas de caramujo: uma cena típica que é subvertida pela usina nuclear ao fundo da paisagem.

A casa, chamada Prospect Cottage, foi lar do cineasta, artista e ativista britânico Derek Jarman, figura de destaque nos círculos vanguardistas de Londres dos anos 1970 até os 90. Seu primeiro longa-metragem, Sebastiane (1976), filme inteiramente falado em latim a respeito do martírio de São Sebastião, chamou atenção por seu homoerotismo incontido. Jarman ainda dirigiu muitos filmes a respeito de figuras históricas gays e bissexuais, como os biográficos e artísticos Caravaggio (1986) e Wittgenstein (1993). Também dirigiu videoclipes musicais para The Smiths, Pet Shop Boys e Bryan Ferry.

Em 1986, depois de receber diagnóstico positivo para o HIV no auge do pânico causado pelo vírus, Jarman falou publicamente a respeito da doença e se tornou uma importante voz do ativismo ligado à Aids. Naquele mesmo ano, ele comprou o Prospect Cottage por £ 32.000, ou cerca de US$ 48.000 na época, com uma herança modesta que recebeu do pai, e logo começou ali seu jardim.

No seu diário, Jarman escreveu a respeito do alívio que o jardim lhe proporcionou em meio à crise da Aids. Sua “farmacopeia” de plantas medicinais, lavanda, narcisos, couve-do-mar e abelhas silvestres era vista como terapia e, em entrevista a uma emissora britânica um ano antes de morrer, ele disse: “Eu devia ter sido jardineiro".

Jarman morreu de complicações ligadas à síndrome em 1994, e deixou o chalé para seu companheiro, Keith Collins, que cuidou do jardim também até morrer, em 2018. Mas, antes do fim, Collins criou um fundo para preservar a propriedade. Uma campanha de captação de recursos comandada pela instituição de caridade britânica Art Fund reuniu cerca de US$ 4 milhões, e a organização artística local Creative Folkstone vai oferecer residências na casa a artistas, pensadores, escritores e outros — incluindo jardineiros.

A campanha recebeu o apoio de alguns dos amigos e colaboradores de Jarman, incluindo a atriz Tilda Swinton. Em discurso feito em evento introdutório realizado em Londres em março, Tilda disse que alguns lugares deveriam ser preservados não apenas para lembrar a vida de um artista, mas “por causa da influência que tiveram quando vivos, as práticas de trabalho que tornaram possíveis", e “a energia transitória que investiram".

A campanha captou os recursos em apenas 10 semanas, com mais de 8.000 doações via financiamento coletivo, e contribuições substanciais por parte de fundos e fundações, e do artista David Hockney. A figurinista Sandy Powell, que trabalhou com Jarman, contribuiu reunindo autógrafos de celebridades em uma roupa que ela vestiu para ir às cerimônias de premiação do Oscar, do Critics Choice Awards e do BAFTA, leiloada por cerca de US$ 20.000.

Durante essa pandemia do novo coronavírus, talvez seja interessante explorar o que podemos aprender com a prática de Jarman, que cuidou de plantas durante sua própria emergência de saúde. Será que o prazer simples e tátil de cutucar a terra ou acompanhar as mudas brotando pode nos confortar em um momento de perda e confusão?

Falando pelo telefone de sua casa em Londres, Sandy, cujo primeiro trabalho para o cinema foi em Caravaggio, disse que perder-se na jardinagem deu a Jarman o conforto e a energia para seguir trabalhando — mesmo depois de ter perdido a visão em decorrência do Aids.

Conforme ficava cego, Jarman via uma luz azul, que ele recriou no filme Blue, lançado em 1993, um longa-metragem meditando a respeito da morte iminente, narrado durante um único plano de azul ultramarinho saturado, com trilha sonora de Simon Fisher Turner.

Criar “o deixava feliz e o mantinha são", disse Sandy. “Seu entusiasmo e alegria de viver eram contagiantes. Era muito generoso com seu tempo e conhecimento, sempre dizendo, ‘Temos que ir trabalhar todos os dias como se fôssemos a uma festa’.”

Além de produzir filmes em Prospect Cottage, Jarman também fazia pinturas e esculturas, e escrevia livros e poesias lá. Usava também aquilo que a maré deixava na praia para criar arte a partir dos objetos encontrados.

O fotógrafo Howard Sooley, que conheceu Jarman, disse que “ele passou por todas as doenças conhecidas pela humanidade, o que é notável, pois estava sempre ocupado". Os dois se conheceram em 1991 quando Sooley foi fotografar o jardim para a revista The Face. Mais tarde, depois de se tornarem amigos, Sooley ajudou Jarman a recolher objetos na praia e trazê-los ao jardim, levando e trazendo o cineasta do hospital várias vezes.

“A jardinagem nos transporta a um lugar fundamental onde vivemos mais do que fazemos", argumentou Sooley. “Quando estava muito doente, ele começava a melhorar assim que chegávamos a Dungeness, passando o dia na jardinagem como se dependesse daquilo para respirar.”

Christopher Woodward, diretor do Museu da Jardinagem, em Londres, disse em entrevista pelo telefone que os jardins são “mais do que uma beleza ornamental". Uma futura exposição no museu a respeito de Prospect Cottage, com fotografias de Sooley, foi adiada indefinidamente por causa do coronavírus.

Os jardins oferecem um alívio para as pressões da vida moderna, explicou Woodward. “Olhamos para uma tela e nada faz sentido. Então, vamos até o jardim e, 10 minutos depois, tudo parece ter se resolvido sozinho", acrescentou ele. “É o mistério dos jardins.”

Stephen Deuchar, que comandou a campanha da Art Fund e é sócio da Creative Folkestone, disse por telefone que o jardim de Jarman era uma resposta à paisagem incomum de Dungeness, que inclui não apenas a usina nuclear e sua aparência brutal, mas também uma miniatura de trem a vapor que atravessa o promontório. “É como se houvesse uma disputa entre o otimismo e a audácia das plantas e a paisagem implacável que as cerca", disse Deuchar.

“Há algo de comovente a respeito das pequenas plantas que insistem em brotar em meio às pedras", disse ele. “É o que torna tão fascinante a última grande obra de arte dele: esse jardim.”

Sem nenhuma cerca nem canteiros de terra, em meio aos ventos que cobrem tudo de sal, o desafio de cultivar a vida em meio a um ambiente tão inóspito reflete a tenacidade de Jarman, que insistia em criar apesar do vírus que o flagelava; cada botão de flor é uma maravilha.

“Derek costumava dizer que um jardim nos situa na eternidade", destacou a autora Olivia Laing, cujo livro mais recente, Funny Weather: Art in an Emergency, inclui um ensaio a respeito do jardim de Dungeness. “Também é algo que nos conecta ao futuro", continuou ela por e-mail. “Quando não sabemos quanto tempo temos pela frente, a sensação de plantar algo que vai florescer no próximo verão nos confere muita força.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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