Pere Duran
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Javier Cercas investiga tio-avô que lutou pelo regime de Franco

'O Rei das Sombras' é lançado quase duas décadas após o sucesso de 'Os Soldados de Salamina'

Paulo Nogueira*, Especial para o Estado

22 de dezembro de 2018 | 16h00

Javier Cercas bombou em 2001, primeiro na Espanha e depois no mundo, com o magnífico Os Soldados de Salamina. Paparicado por Vargas Llosa, o romance açambarcou prêmios, vendeu 1 milhão de exemplares só em solo espanhol e foi traduzido para mais de vinte idiomas, além de adaptado para o cinema por David Trueba. Perante tal façanha, Cercas meio que tremeu na base (como me contou num papo em Lisboa) e considerou desistir do projeto seguinte, uma ficção sobre a guerra do Vietnam. Foi Susan Sontag (autora do ditirâmbico prefácio da edição americana de Os Soldados de Salamina) que o encorajou a persistir. Dezesseis anos depois, o próprio Cercas descreve O Rei das Sombras como a conclusão literária daquela sua obra icônica. Se o primeiro relatava como, no final da Guerra Civil espanhola, um soldado republicano anônimo salvou a vida de Rafael Sánchez Mazas (ideólogo falangista), o segundo exuma a morte de Manuel Mena, aos 19 anos, a mais sangrenta do mesmo conflito. Acontece que Mena era tio-avô de Cercas, e lutou e morreu do lado franquista.

Permitam-me uma nota pessoal: enquanto romancista e professor de Escrita Criativa, nas minhas noites de autógrafos e aulas vira e mexe rola esta pergunta: “Mas de onde os escritores retiram suas histórias?” A resposta canônica: 1) das pessoas reais que conhece (parentes, amigos, etc) 2) de personalidades públicas (daí o “roman a clef”) 3) de uma pesquisa (como no romance histórico) 4) da sua própria autobiografia 5) da sua imaginação e fantasia. Muitas vezes, a obra é uma miscelânea de todos esses mananciais. 

Mais recentemente, tais recursos foram sofisticados com duas outras abordagens – a autoficção e a metaficção. Aliás, mais recentemente uma pinoia: Dom Quixote já é metaficção, pois remete aos livros de cavalaria, para zoar com eles. Além disso, Cervantes reclama que foi obrigado a escrever uma continuação por causa de uma versão pirata (e lá se foi a “quarta parede”). Quanto à autoficção, o termo foi cunhado em 1977 pelo literato francês Serge Douborvski. A autoficção combina numa única entidade as três instâncias da criação literária: o autor, o narrador e o protagonista. Condescendendo no modismo facinho, ela tende a enjoar. Como atesta um manifesto divulgado este ano por escritores franceses, contra “o romance reality-show, uma forma degradada que se reduz a testemunhos narcisistas para saciar o voyeurismo dos leitores e encher os bolsos dos editores.” Claro que cada caso é um caso: os autoficcionistas Karl Ove Knausgard, Rachel Cusk e Lucia Berlin (esta também metaficcionista) são o bom do boom. Assim como Cercas, que parte de uma pergunta clássica, como estas: Dom Quixote está mesmo biruta? Por que o capitão Ahab encasquetou com aquela baleia branca? Em O Rei das Sombras, eis a questão: o que levou Mena a combater como voluntário franquista, defendendo uma causa que não era nem justa nem a sua? A resposta, nos três casos, reside na escrita do respectivo livro. 

Assim, O Rei das Sombras enreda duas histórias: os trâmites do autor para alinhavar sua obra, e o percurso do protagonista rumo a seu fim. Quando digo “protagonista”, digo Manuel Mena, mas também Javier Cercas (que por isso se refere a si mesmo pelo nome, e não pelo pronome na primeira pessoa). Atenção: apesar de todos este requinte e complexidade estruturais, o livro não é isento de emoção, de “pathos”. 

Cercas recupera aqui um tema habitual nele: a guerra. Mas se interessa menos pelas carnificinas ou estratégias militares do que pelos seus fantasmas. Mais como o Dino Buzzati de O Deserto dos Tártaros, que Cercas cita, do que como o fetiche bélico de um Ernst Junger. O Rei das Sombras menciona duas representações pictóricas da guerra. Primeiro, A Rendição de Breda, de Velásquez, “com o campo de batalha ainda fumegante e aquelas pessoas tão nobres, tão dignas na derrota e tão magnânimas na vitória, que dá vontade de estar ali, mesmo que como um derrotado: até os cavalos parecem generosos”. Segundo, Os Desastres da Guerra, de Goya, “que quando você vê tem vontade de sair correndo”. A verdade serpenteia entre essas extremidades. 

Mas Cercas não se limita a esgrimir autoficção e metaficção – também recicla o romance histórico. Ora, a ficção biográfica é diferente da biografia, um discursos baseado em provas. Tudo tem que ser verificável – e a consciência, o pensamento, é uma coisa que não está disponível, exceto pelos poucos traços deixados em cartas. O que a pessoa está pensando ou sentindo no tempo, momento a momento, não é acessível. Daí que um Tolstoi (Guerra e Paz) ou uma Marguerite Yourcenar (Memórias de Adriano) especulem alegremente. Cercas, não: “Eu poderia imaginar tudo isso. Mas não o imaginei, ou pelo menos não fingirei que o imaginei”. Ainda assim, esta obra – fundindo afresco histórico e a existência singular do autor – é ficção, e é literatura. Daí que o clímax abarque o parentesco dos dois monarcas sombrios: o tio-avô Mena e seu sobrinho-neto Cercas. E isto através da dicotomia homérica Aquiles/Ulisses. Na Ilíada, Aquiles é homem da vida breve e da morte gloriosa (kalos thanatos, a expressão grega para uma “bela morte”), que transcende a própria mortalidade. Ulisses é o oposto: o cidadão pacato, até medíocre, que só quer voltar para casa e levar uma vidinha sossegada com Penélope. Já na Odisseia, Ulisses visita Aquiles na mansão dos mortos, e o saúda como o invejável rei das sombras. Mas Aquiles responde: “Eu preferia estar na terra, como servo de um servo/Do que reinar aqui sobre todos os mortos.”

Como no verso de Camões: “em paz com a minha guerra.” Ao decifrar seu esfíngico parente, Cercas não foi devorado, mas exorcizou uma quimera e criou uma alteridade convincente e arrebatadora, ainda que não empiricamente irrefutável. Ah, sim: o nome disso continua sendo literatura. 

*Paulo Nogueira é autor de 'O Amor é um Lugar Comum' (Intermeios) 

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