JPT Records
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Jazz revive as canções de protesto dos anos 1960

O baterista Ulisses Owens Jr. produz um disco dedicado às divas ativistas da década, como Nina Simone e Joni Mitchell, convocando a musa René Marie

João Marcos Coelho, Especial para o Estado

14 de setembro de 2019 | 16h00

O populismo não assola apenas nosso coitado país que tanto apanhou no passado e agora assiste a praticamente uma reprise mais tosca do danoso Febeapá (para quem é mais novo, era o modo como Stanislaw Ponte Preta, codinome de Sérgio Porto, abreviava a expressão Festival de Besteira que Assola o País). Também o grande irmão do norte sofre com esta maldita síndrome. Pois por lá um baterista de jazz chamado Ulisses Owens, Jr., nascido 36 anos atrás em Jackson, na Flórida, concebeu, em 2016, por encomenda de Jason Olaine, diretor de programação do Jazz at Lincoln Center, um espetáculo abarcando o jazz da década de 1960 até o presente. E, para não cair no surrado pot-pourri ou justaposições disparatadas, Owens lembrou-se do populismo trumpiano que então ameaçava pairar sobre os norte-americanos. 

A ideia premonitória – Trump ganhou as eleições e assumiu em janeiro de 2017 – salpicou-lhe o cérebro ao percorrer as manchetes dos jornais dos anos 1960, com notícias quase diárias de brutalidade policial, incluindo vídeos de negros sendo assassinados por policiais. Quais eram os músicos que se opunham publicamente a tudo isso, que protestavam e lutavam pela igualdade racial e um mundo mais justo? Não precisou procurar muito. 

Encontrou de cara as duas cantoras mais francamente militantes dos anos 1960: Nina Simone (1933-2003) e Abbey Lincoln (1930-2010), que lutavam pelos direitos civis. O perfil da canadense Joni Mitchell e suas canções assegurando que “qualquer maneira de amor vale a pena” (lema de Milton Nascimento na genial Paula e Bebeto, em 1975) completou o núcleo do espetáculo e agora do CD, ambos intitulados Songs of Freedom.

Lançado este ano por um selo novo, que parece ter nascido por causa da ascensão de Trump à presidência, em 2017, Resilience Music Alliance tem cara e jeitão de coletivo. Dedica-se a “empoderar os artistas (...) resilientes que têm visões artísticas singulares, inspiram histórias de vida e compartilham a intenção de fortalecer a resiliência individual e social por meio de sua música, preocupação social e modo de vida”.

A sacada final de Owens foi buscar nas vozes atuais aquelas afinadas com as três divas militantes dos anos 1960. Assim, a sensacional e injustamente pouco conhecida René Marie, 67 anos, que viveu aquela época de luta, encarna com autoridade Nina Simone. Ela mesma foi responsável por um ousado gesto em 2008. Convidada a cantar o The Star-Spangled Banner num evento cívico em Denver, substituiu-o pelo hino nacional negro Lift Every Voice and Sing. Sua feroz, emocionante recriação de Mississippi Goddam (algo como Maldito Mississippi), o clássico grito de revolta de Nina Simone lutando pela igualdade de direitos civis dos anos 60, mostra que ainda há muita luta pela frente (vide hoje a questão das armas, por lá e por aqui, tratada com uma banalidade que assusta).

René Marie também nos deixa arrepiados com sua leitura enfurecida de Driva’ Man, uma das canções da suíte Freedom Now (1960), parceria original do baterista Max Roach com a cantora Abbey Lincoln. Ela denuncia os abusos dos senhores de escravos que usavam sexualmente a jovens negras a torto e a direito. Violenta, exige leitura incendiária – o que Marie faz com extrema competência.

A terceira canção de Nina é Everything Must Change, um resignado grito abafado pedindo mudança. Ela recebe uma leitura camerística da jovem Alicia Olatuja, forjada no Brooklyn Tabernacle Choir, em Nova York, com destaque para o violão de David Rosenthal. E em outra gema de Nina Simone, Be my Husband, ela cai num gospel delicioso.

De volta à suíte Freedom Now, considerado, e não só pelo engajamento, um dos maiores discos de jazz do século 20, tropeçamos em Freedom Day numa surpreendente releitura de Joanna Majoko, nascida na Alemanha de pais do Zimbábue, onde morou com a família e, de 2001 em diante, no Canadá. 

Deixei para o final meu cantor preferido, Theo Bleckmann, por sinal também alemão, nascido em Dortmund, em 1966, e desde 1989 vivendo e atuando em Nova York. Ex-integrante do grupo de Meredith Monk, mantém a mesma qualidade artística na vanguarda contemporânea, em Kurt Weill e na música mais acessível. Dono de uma voz versátil, capaz de timbres diferenciados, e sempre arredondados, macios, Bleckmann esbanja competência em três antológicas intervenções: seus improvisos vocais fazem Balm in Gilead, tradicional spiritual, flutuar no espaço sonoro como mágica; sutil, mostra nuances insuspeitadas no clássico Borderline, de Joni Mitchell (1943); e vira até Bobby Marley no reggae Baltimore, de Randy Newman, imortalizado por Nina.

Salpicadas entre as canções, pequenas falas de cada uma das divas dos anos 1960 são acompanhadas pela bateria de Ulisses Owens, Jr. que reproduz em seu instrumento o pulso anímico de cada uma delas: em Nina, rufos da caixa e ritmo bem marcado; em Joni Mitchell, escovas macias, evocando o senso poético de sua fala; e nos 46 segundos de Abbey Lincoln, um delicadíssimo prato esparge sons acolchoando suas palavras.

A qualidade dos músicos que o acompanham ganha com justiça espaço para um número instrumental, Oh Freedom, que é praticamente um “spiritual sem palavras”, parafraseando Mendelssohn em suas cativantes Canções sem Palavras. O piano de Allyn Johnson, a guitarra de David Rosenthal e o contrabaixo de Ruben Rogers são ideais para a bateria instigante do líder.

Depois de ouvir várias vezes Songs of Freedom, dá para imaginar o que seria uma versão brasileira deste lindo e necessário projeto musical. Como soariam hoje clássicos como Pra não Dizer que Falei das Flores, Sinal Fechado, Apesar de Você, É Proibido Proibir, Cálice e O Bêbado e a Equilibrista?

João Marcos Coelho é autor do livro 'Pensando as Músicas do Século 21'

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