University of Southern California
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J.D. Salinger tem contos e novelas publicados no Brasil

Salinger deu voz não apenas ao inconformismo de uma geração, mas também a anseios ancestrais do espírito humano

Jerônimo Teixeira*, Especial para o Estado

23 de novembro de 2019 | 16h00

O adolescente Holden Caulfield enoja-se com o lamentável estado do aparelho de barba de Ward Stradlater, seu colega de quarto na escola interna da qual é expulso nas primeiras páginas de O Apanhador no Campo de Centeio. Crítico precoce das afetações e dissimulações que regem a vida social, Caulfield constata o descompasso entre a vaidade de Stradlater e o desleixo de sua lâmina enferrujada, sempre suja de espuma e restos de pelos. Em um livro posterior de J.D. Salinger, Franny & Zooey – recém relançado no Brasil pela Todavia, em nova e fluida tradução de Caetano W. Galindo –, um aparelho de barba recém-lavado e com lâmina nova é acidentalmente arremessado no lixo pelo jovem ator Zooey, no meio de uma inusitada discussão com sua mãe, no banheiro do apartamento da família Glass, em Nova York. Zooey recupera o aparelho de barba do cesto de lixo, mas esquece de enxugá-lo, e o guarda no armário ainda molhado – índice da exasperação a que sua mãe o conduz, ou sinal de seu alheamento em relação à realidade. Salinger possuía a rara habilidade de fazer com que objetos triviais desvelassem sutilmente o caráter ou estado emocional dos personagens. Até o cigarro cumpre essa função: os personagens de Salinger fumam como se quisessem superar as emissões de carbono da China, e é sempre revelador o modo como deixam a cinza cair, ou como esquecem o cigarro aceso entre os dedos até serem queimados. Ainda na cena do banheiro, há uma notável mostra do consumismo hipocondríaco de Bessie, a mãe de Zooey, na longa e saborosa enumeração dos itens contidos no armário sobre a pia – um desfile de marcas hoje esquecidas como Argyrol, Mosterole e Aspergum. No entanto, Franny & Zooey não se limita à bruta exibição de itens materiais: os dois protagonistas estão envolvidos em uma turbulenta busca espiritual. 

Terceiro dos quatro livros que o americano Jerome David Salinger (1919-2010) publicou em vida, Franny & Zooey foi lançado em 1961, reunindo duas narrativas complementares que haviam saído anos antes na revista The New Yorker. O autor então já se escondia há mais de uma década em Cornish, New Hampshire, em reclusão agressivamente misantrópica. Parece ter vivido em permanente inquietude religiosa, envolvendo-se ora com o misticismo hindu, ora com a Ciência Cristã. Franny aparece no conto que carrega seu nome no meio de uma crise íntima similar: apartada da vida social na universidade em que estuda e desligada do grupo de teatro em que se destacara como atriz, ela busca uma elusiva revelação mística nos exercícios devocionais prescritos em um livro do século 19, Relatos de um Peregrino Russo. O resultado, porém, não é a iluminação, mas a depressão: já na novela Zooey, o personagem-título tenta arrancar Franny do sofá da casa dos pais, onde ela afinal se abriga, chorosa e desgrenhada. 

No ano em que se passam as duas narrativas, 1955, Franny (por extenso, Frances) tem 21 anos, e seu irmão Zooey (apelido familiar de Zachary), 25. São os caçulas da família Glass, que atravessa várias obras de Salinger. No excepcional Nove Histórias, já lançado pela Todavia, aparecem três dos cinco irmãos mais velhos da dupla – o perturbador Um Dia Perfeito para Peixes-Banana, conto que abre a coletânea, narra a morte dramática de Seymour, o primogênito. 

Com dupla ascendência judaica e irlandesa-católica (como, aliás, o próprio Salinger), os irmãos Glass são, cada um a seu modo, intelectualmente brilhantes mas socialmente desajustados. Perseguem uma inefável elevação espiritual (não necessariamente religiosa) que parece impossível em meio à vulgaridade secular dos Estados Unidos no pós-guerra. Franny, em sua conflituosa busca de iluminação, abandona a universidade porque não vê sentido em aulas nas quais se transmite conhecimento mas nada se diz sobre sabedoria. Zooey tenta resgatar a irmã da caverna esotérica em que ela se enfiou, mas ele mesmo está em constante e doloroso conflito com a carreira e a vida que escolheu: considera medíocres quase todos os telefilmes em que atua, e despreza o convívio social com colegas. O clã Glass reaparece no último livro que Salinger publicou, a ser relançado pela Todavia no primeiro semestre de 2020. O título provisório da nova tradução é Erguei a Viga, Carpinteiros & Seymour — Uma Introdução.

Recentemente, o criador dos irmãos Glass virou personagem de desenho animado. Com a voz de Alan Arkin, a paródia de Salinger em BoJack Horseman, série da Netflix, exaspera-se porque a única obra sua que as pessoas lembram é O Apanhador no Campo de Centeio. Encarnação pioneira e insuperável da rebeldia juvenil que se tornaria clichê nas décadas seguintes, Holden Caulfield tornou-se talvez mais célebre que seu criador. Mas Nove Histórias e Franny & Zooey atestam que Salinger deu voz não apenas ao inconformismo de uma geração (o que já não é pouca coisa), mas também a anseios ancestrais do espírito humano.

*JERÔNIMO TEIXEIRA É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘OS DIAS DA CRISE’ (COMPANHIA DAS LETRAS)

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