REPRODUÇÃO
REPRODUÇÃO

Je suis Pepone

Por que na América Latina não se levantam milhares a declarar que são José Carrasco, Luis de Jesús Luna, Regina Martínez?

Ariel Dorfman, O Estado de S. Paulo

17 Janeiro 2015 | 16h00


Não obstante a distância da América Latina, o ataque terrorista contra o semanário Charlie Hebdo parece terrivelmente próximo e tristemente familiar.

Não faz muito tempo aqui em Santiago do Chile, não longe da casa em que vivo parte do ano com minha mulher, Angélica, jornalistas e escritores que ousaram enfrentar o regime do general Pinochet foram sistematicamente assassinados, muitos torturados antes de serem mortos. Entre tantos lembro-me especialmente de José Carrasco (nós o chamávamos Pepone), que foi meu aluno na universidade, depois amigo e companheiro de revolução e exílio e, de volta ao Chile, redator da revista Análisis, uma publicação semiclandestina que com frequência publicava artigos satíricos, semelhantes aos que costumam aparecer no Charlie Hebdo. A polícia secreta chegou em busca de Pepone antes do amanhecer do dia 8 de setembro de 1986. Os agentes lhe disseram para não se preocupar em colocar os sapatos. Não fariam falta, avisaram. Horas mais tarde apareceu seu cadáver crivado de balas.

Mais um mártir entre os muitos que, sim, de forma aterradora e familiar povoam a América Latina. Do outro lado dos Andes, na vizinha Argentina, centenas de escritores, intelectuais e jornalistas foram detidos por esquadrões da morte e desapareceram para sempre. Ante a necessidade de simbolizar aquela tragédia em uma pessoa fico com o nome de Rodolfo Walsh. Em 5 de março de 1977 Walsh, um dos grandes escritores argentinos, fundador do jornalismo testemunhal do continente, foi emboscado e sequestrado por um comando militar. Um dia antes havia enviado à junta que governava, e muito mal, o país, uma carta aberta, provocadora, insultante, mordaz, denunciando não só os abusos contra os direitos humanos, mas também a política econômica neoliberal que resultava em fome para a população. Até hoje seu corpo não foi encontrado. Aquela carta aberta lembra o tom audaz e irreverente que encontramos nas páginas do Charlie Hebdo.

Tanto o Chile como a Argentina, e muitos outros países latino-americanos que suportaram ditaduras cruéis - Uruguai, Paraguai, Peru, Brasil, Bolívia, Haiti, El Salvador - são hoje democracias em que os jornalistas podem realizar seu trabalho sem temer, no geral, a batida na porta, a faca na garganta, a vala à meia-noite.

Contudo, durante a última década um lento massacre de jornalistas vem assolando, infectando, corrompendo a América Latina, um assédio quase invisível contra a liberdade de informação. Não são incidentes tão espetaculares e dramáticos como o do Charlie Hebdo; tampouco se inserem no contexto dos conflitos suscitados por uma pequena minoria de fanáticos islâmicos, mas estamos presenciando de todo modo uma agressão incessante, desmedida e metódica. Os casos mais pavorosos concentram-se em Honduras, Guatemala e México. No mês de agosto de 2013, por exemplo, três jornalistas guatemaltecos foram mortos a tiros, entre eles Luis de Jesús Lima, famosa figura do rádio que em seus programas discutia assuntos polêmicos. E no México, entre as dezenas de jornalistas recentemente assassinados está Regina Martínez, correspondente em Veracruz da revista Proceso. Um grupo entrou em sua casa, golpeou-a brutalmente e em seguida a estrangulou. Que coincidência: ela vinha investigando os vínculos entre narcotraficantes e os políticos de Veracruz. Em Honduras, o lugar mais perigoso do mundo para exercer a profissão de jornalista, em 9 de março de 2012 Alfredo Villatoro, que tinha um programa de rádio de grande penetração, foi sequestrado em Tegucigalpa. Seis dias depois seu corpo apareceu com uma bala na cabeça. Estava vestido com uniforme militar, o rosto coberto por um sinistro lenço roxo. As ameaças de morte que recebia havia meses finalmente se tornaram realidade. E a lista continua, até no Brasil: em 18 de outubro de 2010 Francisco Gomes Medeiros, famoso por sua cruzada contra a corrupção e os traficantes de droga, foi morto a tiros por um motoqueiro.

O mundo, basicamente, ignorou esses atentados.

Para ser franco, desconfio da frase que atualmente é utilizada para manifestar solidariedade com perseguidos: I am Salman Rushdie, Je suis Charlie, Somos todos Ayotzinapa, se bem que muitas vezes assino petições de denúncias ostentando palavras similares. Claramente, há algo comovedor no fato de nos sentirmos parte dos milhões que, de todos os continentes, demonstram solidariedade às vítimas do terror. Não estávamos realmente ao lado delas quando chegaram os assassinos nem vamos protegê-las com nossos corpos. E muitos dos que entoam estas palavras, Je suis, Je suis, especialmente autoridades de governo ou membros das forças de segurança, não demonstraram ontem a tolerância que proclamam hoje com tanto fervor. Mesmo assim, é importante sem dúvida que aqueles que não enfrentam nenhum perigo imediato digam ao mundo - e especialmente àqueles que pretendem voltar a matar amanhã - que não vamos nos deixar amedrontar nem permitiremos que o medo e o silêncio exerçam seu domínio letal.

E talvez, depois de tudo, o grito Je suis Charlie se justifique nesse caso, porque o ataque a essa revista satírica parisiense foi particularmente selvagem e maciço e, por certo, institucional. Se o objetivo era enviar uma mensagem a toda a sociedade, tem sentido que toda a sociedade, da França e além das fronteiras francesas, afirme pública e coletivamente sua dor e sua coragem.

Apesar disso, visto a partir de Santiago do Chile, da perspectiva de uma América Latina onde colegas mexicanos, guatemaltecos e hondurenhos dos jornalistas do Charlie Hebdo morrem em grande número neste mesmo momento sem que ninguém preste atenção, é urgente perguntar por que as ruas do nosso desafortunado planeta não se enchem com centenas de milhares de cidadãos declarando Je suis Alfredo Villatoro, Je suis Regina Martínez, Je suis Luis de Jesús Luna. Por que tão poucos pensaram em gritar Je suis Rodolfo Walsh? Por que milhões não declararam Je suis José Carrasco, Je suis Pepone?

Palavras como essas não impedirão provavelmente horrores futuros. Eles parecem inevitáveis num mundo enlouquecido pelo fanatismo e ódio. Mas pelo menos aqueles que quase anonimamente, em lugares distantes dos Champs Elysées e das luzes fulgurantes da mídia televisiva, continuam levantando a voz contra a estupidez e a opressão possam talvez se sentir um pouco menos sós. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO


ARIEL DORFMAN É ESCRITOR CHILENO. SEU ÚLTIMO LIVRO É ENTRE SUEÑOS Y TRAIDORES: UM STRIPTEASE DEL EXILIO (SEIX BARRAL)

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.