Eliot Blondet
Eliot Blondet

Jean-Claude Grumberg usa tom fabular para desconstruir negação do Holocausto

Escritor francês desmonta o revisionismo histórico pela paródia no livro 'A Mercadoria Mais Preciosa'

Luiz Nazário*, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2019 | 16h00

Quando comecei a ler o pequeno livro A Mercadoria Mais Preciosa, de Jean-Claude Grumberg, apresentado como “Uma fábula sobre o Holocausto”, pensei comigo mesmo: será mais uma tentativa de reduzir o horror desse evento a uma fantasia tragicômica palatável, como o fez Roberto Benigni no filme A Vida é Bela (1997), que abriu as portas para o novo tom agridoce da abordagem do Holocausto pelo cinema.

Miraculosamente, o cineasta judeu-romeno radicado na França, Radu Mihileanu, conseguiu criar uma fábula grotesca e verdadeira em O Trem da Vida (1998): em 1941, num schtelt da Europa Ocidental, a notícia trazida por Schlomo, o bobo da aldeia, de que os nazistas estão chegando para deportar os judeus, cria o pânico. Até que o próprio Schlomo tem a ideia de forjar um trem de deportação com os judeus interpretando todos os papéis: os alemães, os maquinistas, os deportados. Antes da chegada dos nazistas, o falso trem parte rumo à Terra Prometida. Tudo segue como planejado, mas as encenações dos judeus ficam cada vez mais realistas, com os “nazistas” assumindo sua violência, os “deportados” tramando uma rebelião, os comunistas declarando guerra aos burgueses e imperialistas. A fábula retoma o sentido da verdadeira tragédia do Holocausto graças ao recurso final do deslocamento do sonho para a realidade.

Mas ao forçar a realidade histórica de um genocídio a seguir as leis de uma fantasia atemporal e etérea, o narrador corre sempre o risco de cair na pieguice revisionista. Assim, em O Menino do Pijama Listrado (2006), de John Boyne, adaptado para o cinema por Mark Herman (2008), somos levados a nos horrorizar com a queda de um bom menino alemão no destino reservado aos judeus, como se a morte destes nas câmaras de gás não despertasse mais nenhuma compaixão, sendo necessário agora colocar ali o filho de um carrasco da S.S. para tocar os corações endurecidos.

Também em Um Homem Bom (2008), de Vicente Amorim, o professor alemão de literatura francesa John Halder, alheio à ditadura opressora de Hitler, ascende em sua carreira depois de escrever um romance sobre a eutanásia (!), chegando a assumir um cargo honorário nas S.S. e ver-se, subitamente, comandando o terror num campo de concentração. A trama inverossímil justifica o genocídio pela “bondade” do caráter dos carrascos... 

Mais recentemente, o cineasta húngaro László Nemes tentou criar uma fábula sombria em O Filho de Saul (2015), mas, ao optar estilisticamente pelo uso constante da câmera subjetiva em movimentos frenéticos, acabou sobrepondo à narrativa dos fatos históricos um artificialismo desnecessário, que a fez soar falsa apesar da premissa macabra e realista.

Minha impressão inicial era a de que Jean-Claude Grumberg cairia no mesmo erro formalista dessas fábulas revisionistas ao optar por criar personagens sem nome (“pobre lenhadora”, “pobre lenhador”, “mercadoriazinha”, “o destilador”) vivendo numa floresta, ao lado de personagens com nomes (Dinah, Henri, Rose) vivendo em locais reais (Rue de Chabrol, Hauteville, Pithiviers, Drancy, Paris). 

Outro arriscado formalismo do autor pareceu-me o abuso das anáforas (“não não não não”, “o objeto, o objeto”, “protesta e protesta”, “que fazer, que fazer”, “uma história verdadeira? Uma história verdadeira?”, etc.). Essa figura de linguagem costuma ser usada por escritores medíocres para disfarçar sua literatura menor com ares de uma prosa poética ao estilo da grande literatura.

Contudo, à medida que a narrativa avança, num ritmo cada vez mais acelerado e sinistro, o estilismo aparente cede ao realismo, com a fantasia da fábula servindo às verdades humanas mais profundas, arrancando o leitor de seu conformismo, convidando-o a se jogar no abismo junto com seus personagens, que não conhecem qualquer limite.

A Mercadoria Mais Preciosa resulta num fábula terrível e maravilhosa – no sentido original do termo, isto é, miraculosa. Jean-Claude Grumberg soube usar aqueles recursos formais suspeitos para criar uma narrativa complexa, que estiliza a História sem desfigurá-la, evocando suas próprias feridas familiares, jamais cicatrizadas. Ele o faz magnificamente com a experiência de quem cresceu sobrevivendo aos pogroms, à deportação e ao Holocausto, ao qual sucumbiram seus avós e seu pai.

Depois de exercer diversas profissões, como a de alfaiate e ator, Grumberg começou a escrever e se tornou um premiado autor teatral, autor de 36 peças, nas quais inseriu os dilemas da comunidade judaica francesa durante a Ocupação nazista e após o Holocausto, como na trilogia Dreyfus (1974), L’Atelier (1979) e Zone Libre (1990).

Mas o talento de Grumberg não se limitou ao teatro adulto, onde conquistou, entre outros, seis prêmios Molière e o Grand Prix du Théâtre (Grande Prêmio do Teatro) da Académie Française.

Grumberg também escreveu oito peças infantis, um seriado para a TV e sete roteiros para o cinema, com destaque para O Último Metrô (Le Dernier Métro, 1980), de François Truffaut; O Pequeno Apocalipse (La Petite Apocalypse, 1993), de Constantin Costa-Gravas; Fait d'Hiver (1999), de Robert Enrico; Amém (Amen, 2002) e O Corte (Le Couperet, 2005), de Gavras. Por Amém, sobre o qual disse não ser “um filme histórico, mas sobre o mundo de hoje: um filme sobre a omissão de várias entidades”, Grumberg foi merecidamente premiado com o César de melhor roteiro em 2003. 

A morte do pai, simples alfaiate romeno, num campo de concentração, marcou toda a obra do escritor. Sobre esse pai desconhecido, Grumberg escreveu o “quebra-cabeça” literário Mon Père. Inventaire (Meu Pai. Inventário, 2003), reunindo tudo o que sabia ou acreditava saber sobre ele, numa tentativa tardia de reconstituir a memória do pai que perdeu muito cedo. No vazio deixado pela ausência cresceu nele a revolta por um abandono imaginário: “Nunca soube para que servisse um pai”, escreveu o órfão inconformado. 

A mercadoria mais preciosa também trata de amores desesperados; de uma escolha de Sofia em que o pai decide salvar um dos gêmeos da morte certa de ambos na câmara de gás; desse pai que sobrevive no campo de extermínio raspando os crânios dos cadáveres para recuperar cabeleiras que servirão para fabricar tecidos baratos; da orfandade mais desoladora sob a fome, fugindo dos colaboradores, sempre dispostos a entregar os judeus para os nazistas. 

Como uma história assim pode ser apresentada como uma fábula? Esse é o milagre da literatura de Grumberg: ele consegue fazer desse enredo macabro um hino à vida. E para evitar o revisionismo das “fábulas do Holocausto” ele afirma no epílogo que ninguém deve acreditar em sua história, que nada nela pode ser verdadeiro, que ela é uma mentira desde o início, que nada disso aconteceu, nem poderia jamais acontecer.

Ao negar a realidade histórica que ele estilizou com precisão, Grumberg eleva a fábula a um nível ainda maior de realidade, incorporando a negação do Holocausto na dimensão fabulosa, desconstruindo o revisionismo pela paródia da negação da realidade tão horrenda que jamais poderia ter sido real e que, no entanto, aconteceu, como prova o Memorial da Deportação dos Judeus da França, organizado por Serge Klarsfeld em 1978, a partir das listas alfabéticas dos judeus franceses deportados e que Grumberg fez questão de citar, num apêndice esclarecedor, para os leitores “amantes de histórias verdadeiras”. Tão verdadeiras quanto o seu terrível e maravilhoso conto de fadas. 

*LUIZ NAZÁRIO É PROFESSOR DE TEORIA E HISTÓRIA DO CINEMA NA UFMG E AUTOR DE ‘O CINEMA ERRANTE’ (PERSPECTIVA)

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