Werther Santana/Estadão
O escritor João Anzanello Carrascoza, autor de 'Elegia do Irmão' Werther Santana/Estadão

João Anzanello Carrascoza vê literatura nacional como 'um mapa se mexendo'

Autor de 'Elegia do Irmão' fala sobre momento do País, autores novos e seu livro mais recente

João Prata, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2019 | 16h00

Relações afetivas são um tema recorrente na literatura do paulista João Anzanello Carrascoza. Em Elegia do Irmão, o autor explora o amor fraterno, tema pouco explorado em sua obra. No romance, Carrascoza conta a vida de Mara, de 29 anos, que se descobre portadora de uma doença sem cura. As lembranças emergem sob o ponto de vista do irmão, que num primeiro momento precisa lidar com a trágica notícia e depois superar o luto. O autor conversou com o Estado sobre o processo criativo da nova obra, as dificuldades enfrentadas por conciliar duas profissões pouco valorizadas no País (Carrascoza, além de escritor, é também professor universitário) e a visão otimista sobre o atual momento da literatura nacional: “Tem um mapa se mexendo e isso é bom.” 

Por que escrever sobre a relação entre irmãos?

Questão de necessidade. Os laços afetivos aparecem muito na minha obra, sobretudo de pai e filho, mãe e filho. De irmãos, não sei por que, não tinha trabalhado muito. Talvez os outros laços fossem mais obsessivos como escritor.

A história é contada do ponto de vista da perda. Seu livro anterior, de certa forma, serviu de inspiração?

O Catálogo de Perdas, que é de contos, tinha muitos depoimentos de narradores contando suas perdas. Acontece que para dar ideia de pluralidade tinha também uma situação de irmão falando sobre irmão. A capa do livro é de uma irmã contando sobre um irmão. É um conto muito duro. Me veio a ideia de que poderia trabalhar com esse sentimento, esse tipo de ligação fraternal. Até por uma questão existencial. Lá em casa nós somos seis irmãos. Estamos todos vivos, com 50 e poucos anos o mais novo. A gente se vê pouco porque moramos em cidades diferentes, mas quando se vê é muito forte. Estamos envelhecendo e uma hora não serão mais seis. 

O livro é dividido em duas partes: antes e depois da perda. Por que fazer essa separação?

Queria trabalhar com a celebração da vida, não a morte propriamente dita. Minha ideia é de como lidar com a notícia de quando alguém muito querido vai partir e a pessoa vai se preparar. Ainda há a presença dessa pessoa, mas ela já está se ausentando. Você tem de elaborar essa dor, entendê-la e continuar a vivência. Em outro momento ela não está mais presente e você vai se lembrar dela por meio da evocação. Você vai fazer mergulhos nas memórias mais profundas. Quando você está junto de uma pessoa, por mais que a finitude esteja próxima, você ainda está com ela. Quando ela parte, a sua vida muda, se metaboliza, e isso não é do dia para noite. É preciso ir lá no fundo e conseguir se recompor aos poucos, porque o luto tem um tempo para acontecer.

Você optou também por fragmentar o romance em capítulos não lineares...

É como vem a memória. Não dá para lembrar o que você viveu com uma pessoa como um todo. Você vai aos poucos recordando fatos vividos. É meio que um caleidoscópio. O capítulo lá da frente ganha outra força quando lê o capítulo da primeira parte. E o capítulo da primeira parte às vezes é ressignificado por um trecho contado lá na frente. A ideia é que o livro, como uma pessoa, fosse construído aos poucos. 

Em nenhum momento você diz qual é a doença de Mara, embora descreva os sintomas dela.

Justamente para não demarcar demais. Quando finaliza o tipo há todo cenário imaginário. Isso não importa. O que importa é que vai acabar, não precisa entrar em detalhes. O que interessava era essa evocação. 

Vivemos tempos difíceis, de raiva. Escrever sobre afeto de certa forma é transformador?

É um sentimento muito próprio, do meu momento, de olhar para os meus irmãos. Olhar para as pessoas e pensar que existem coisas boas. O lado social se dá inicialmente na sua casa. Você é um ser coletivo que tem individualidades e isso se aprende em casa, depois com os amigos, vizinhos, as pessoas nas ruas, o mundo. Queria falar sobre entendimento do outro. Como viver as diferenças no mesmo lugar para depois aprender a conviver com essas diferenças lá fora, sem precisar se digladiar porque pensa diferente. Foi uma tentativa de entrar em conexão com o outro. 

Suas duas profissões, professor e escritor, vêm sofrendo ultimamente. De que forma essa onda de desvalorização da educação e da cultura te atinge?

Até nos dá mais força para continuar a luta. Você vai trabalhar de qualquer forma, é da sua natureza trabalhar para salvar a educação. Não se é professor porque se quer, mas porque se deseja aprender e, desejando aprender, você partilha seus aprendizados. Se você escreve, é porque está ali sentindo sua existência e compartilhando com quem está ao redor. E tem o mundo a sua frente. Se tiver uma cerca, você vai. Se não tiver, você vai também, porque a linguagem é o limite. É claro que a gente se preocupa com a questão prosaica, mundana. Pode dificultar formar pessoas com dimensão profunda da existência. Mas ao mesmo tempo aciona nosso mecanismo de resistência. A gente luta não só como professor universitário, mas como cidadão.

O que tem chamado sua atenção hoje na literatura?

Tem uma paleta muito colorida, diversa. Tem autores há bastante tempo trabalhando. Vieram outras gerações que estão sendo reconhecidas por prêmios, traduções, em grandes editoras. Há uma pluralidade e uma abertura para as minorias. Vejo literatura da periferia, ascensão de editoras pequenas, que lembram vozes esquecidas, vozes estreantes. Ao mesmo tempo tem a crise do mercado editorial. Tem um mapa se mexendo. Pontos que se acendem, que se apagam. Está tendo movimento – e isso é muito bom. 

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'Elegia do Irmão' parte do luto para falar sobre o afeto

Livro conta a história de irmãos muito próximos que se preparam para a morte de uma irmã doente terminal

João Prata, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2019 | 16h00

João Anzanello Carrascoza tem seis irmãos, uma escadinha, como ele diz. A infância com todos juntos foi vivida em Cravinhos, cidade a 300 quilômetros da capital paulista, de ruas empoeiradas e que serviu de ponto de partida para Elegia do Irmão. O receio de mastigar a hóstia na igreja, a liberdade de brincar na rua, o cheiro da chuva, a descoberta de um outro mundo ao se deparar com a água salgada do mar, os perrengues nas viagens adolescentes com os amigos, a relação com os pais, tudo isso é elevado à enésima potência quando lembrado a partir do sentimento de perda. A vida celebrada de forma melancólica, a dor e a necessidade de superação são quase como nuvens negras que invadem o fim de tarde de lembranças quase sempre solares.

Como num conta-gotas, todo o sentimento se revela de capítulo em capítulo em doses homeopáticas, com o cuidado para não ser raso e também de não transbordar. Ali dentro, Carrascoza conta a história de dois irmãos muito próximos. O mais velho, de 31, é quem narra as lembranças a partir da descoberta da doença incurável da irmã, Mara, de 29.

Há momentos de alegria simples em poder compartilhar coisas boas, a mágoa por discussões mal resolvidas e tudo o que poderiam ainda fazer juntos. Os fragmentos do cotidiano estão todos lá e, ao juntar todos os pedaços, é que se tem a dimensão de toda a vida. 

Carrascoza consegue trazer de forma lírica as imperfeições da vida, que de um minuto para o outro pode mudar completamente. O café da manhã, mais uma refeição banal do cotidiano, precede a trágica notícia e a transformação de uma família. A disposição das coisas na geladeira, a organização da casa, tudo muda de repente. Mas o tempo não dá trégua. A surpresa dá lugar à raiva, que aos poucos é substituída pela esperança, o apego ao 0,00001% do milagre. A realidade volta com impacto brutal, então vem a indignação, a descrença, o luto, a superação, a lembrança que surge de maneira desordenada, o afeto que permanece. E a vida que segue. 

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