Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Joca Reiners Terron imagina o fim da Amazônia em ficção futurista

'A Morte e o Meteoro' narra a trágica trajetória de uma tribo ameaçada de extinção

José Castello*, Especial para o Estado

09 de novembro de 2019 | 16h00

O tempo não guarda a linearidade que, para nos defender do horror, lhe atribuímos. O tempo é incerto, é explosivo, é “um todo falho e cambiável”. A definição vem do narrador de A Morte e o Meteoro, o novo e impactante romance de Joca Reiners Terron, que acaba de sair pela Todavia.

Mecânica e repetitiva, a lógica do tempo é destroçada pela força do mito, que a desarranja e a revira. O mito – essa mágica cola que gruda e sustenta, mas também despedaça o tempo – dirige a vida dos índios kaajapukugi, personagens centrais do livro. “Ao se isolarem na subjetividade de um tempo próprio, os kaajapukugi subvertem o tempo histórico e objetivo”, relata o narrador, um aventureiro triste e solitário. Seguindo os passos de seu mestre, o antropólogo Bartolomeu, ele se embrenha na selva amazônica e se envolve até a alma com a história dessa tribo que, depois de lutar por longo tempo para manter sua autonomia e isolamento, e prensada pela política predatória do governo brasileiro, pede asilo político ao México.

O romance pode ser lido como uma ficção futurista horripilante. Ambientado em torno de 2030, quando a Amazônia já está destruída, quando já não sobra nenhuma esperança nem para a floresta, nem para os índios, cujos sobreviventes eram caçados por grupos de extermínio. Fogem, enfim, para a reserva de Oaxaca, no sul do México.

Depois de um desastroso contato com os brancos na primeira metade do século 20, os kaaja desapareceram na floresta e só foram redescobertos por Boaventura no ano de 1980. Passado mais meio século, porém, Bartolomeu morre e o narrador de Terron se torna o responsável pelo resgate. É uma tribo pequena, formada por apenas 50 homens velhos e uma única mulher. Falam uma língua indecifrável. Seus olhos “se mexiam como vaga-lumes na escuridão”. Frágeis e indefesos, enfrentam o rolo compressor da História.

O mito, porém, devora a História e desmascara seu caráter ilusório. Triunfo da ficção: também a história material só se mantém viva porque mitos (individuais e coletivos) a sustentam. Hipnotizado pela cosmogonia kaaja, Bartolomeu, desde o início, planejou nela se dissolver. “Percebia que desejava apagar meu sobrenome e me tornar outra pessoa”. Ao encontrar os índios perdidos, ele medita: “Eu atingiria o que tanto tinha almejado: seria invisível, e minha humanidade, ou o que ainda restava dela, seria apagada sem deixar sombra”. Ele se lembra então de Einstein, para quem “o fato de nos percebermos como indivíduos não passa de uma ilusão de ótica”.

Quando alcança a pequena ilha do Alto Purus onde os kaaja realizam seus rituais sagrados, Bartolomeu chega – repetindo Joseph Conrad – ao coração das trevas. Lá, devorando imensos besouros, os kaaja chegam ao transe com que superam o tédio da vida. Bartolomeu narra sua aventura em um vídeo a que, muitos anos depois, o narrador assiste. Nesse futuro inóspito, em que Brasil e Venezuela lutaram uma guerra de oito anos e no qual o Chile desapareceu nas águas do Pacífico, o narrador reencontra os 50 cadáveres dos índios – entre eles o de um estranho caucasiano, cuja procedência a polícia o encarrega de investigar.

Descobre então a cosmogonia kaaja, na qual o mundo está sempre preso “ao curso desse rio de destruição e de renascimento”. Antes de morrer, Bartolomeu engravidou a índia kaaja, que lhe deu um filho, mas morreu no parto. Suas últimas palavras foram: “Para nós, vocês estão mais vivos depois que morrem do que quando estão vivos”. Os kaaja sempre viram os brancos como o Grande Mal. Nunca se iludiram – e por isso a destruição que os esperava não os surpreendeu. 

No centro da ilha sagrada há um monólito retangular – uma tumba – que Bartolomeu termina por violar. Gravado sobre ela, um pictograma, cujo sentido desconhece. Muito tempo depois, o narrador vê, por acaso, na TV, o mesmo pictograma gravado na roupa espacial de cosmonautas chineses que embarcam para uma missão a Marte. Ele reaparece ainda no traje do homem mumificado encontrado na sepultura. A repetição da imagem lhe surge como “uma prova de que o Tempo pode ser manipulado, que ele não é irreversível” – reflexão que, nos dias de hoje, acalenta a esperança do leitor.

Nas últimas páginas, como num jato, o romance de Terron adquire súbita velocidade, arrastando o leitor para um desfecho não só surpreendente, mas aterrador. Ao leitor, resta o medo de que esse seja também o futuro explosivo que o aguarda. 

*JOSÉ CASTELLO É JORNALISTA, MESTRE EM COMUNICAÇÃO PELA UFRJ E ESCRITOR. AUTOR DE 'RIBAMAR' (BERTRAND BRASIL)

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