Jogo de cena
Imagem Ugo Giorgetti
Colunista
Ugo Giorgetti
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Jogo de cena

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

27 Dezembro 2014 | 16h00

:::MUNDO REAL::: Esta ficção foi baseada nos seguintes fatos de 2014: Mais de 1 milhão de pessoas de 202 países vieram ao Brasil em julho para ver a ‘Copa das Copas’. Marcada por protestos fora de campo, jogos e cenas inesquecíveis dentro (a mordida do Uruguaio Suárez, a joelhada nas costas de Neymar, o choro do capitão Thiago Silva, a eliminação precoce da Itália, etc.), a competição foi vencida pela Alemanha, que aplicou um histórico 7 a 1 no Brasil na semifinal e, depois, na decisão, bateu a Argentina por 1 a 0.

Não, não, nessa época eu estava no Brescia. Depois é que eu fui pra Fiorentina. O Leléco conhecia um italiano superpilantra e tinha me indicado pro cara. Foram os dois que começaram esse negócio de vender jogador na Europa. E nisso eu entro na história. Tava jogado lá no Santos, tinha só uma proposta do Bangu, quando o Leléco me recomendou pro sócio. Mas não me disse que o cara tirava pinta de onça com benzina. Muito pelo contrario, me disse que o cara era ponta firme. De qualquer jeito o cara me falou que tinha uma oferta do Juventus e eu fiquei na maior empolgação. Lá fui eu pra Itália, e só quando eu cheguei lá fiquei sabendo que a proposta não era do Juventus, era do Brescia, que estava na Série B. Naquele tempo era tudo meio assim na confusão, sacou? Ainda não tinha essa de empresário, procurador e não sei mais o quê. Era você e Deus. Isso foi em 1974, 75, por aí. Brescia é frio pra caramba, você já foi pro norte da Itália? Não é brincadeira, parece a Alemanha. E a gente estava lutando pra subir pra série A, com um time cheio de cintura dura e matador de cobra, saca? Mas depois de um tempo eu fui me acertando e comecei gostar da cidade. Grande culinária, grande culinária! Tem um ravióli que eles fazem, grandão, recheado à base de ovo, queijo, espinafre ou carne, tudo temperado com muita manteiga derretida com sálvia. Meu amigo! Meu amigo!

E as mulheres?! Belas meninas. Gente rica, bem-vestida, saudável. Tipo carnuda, entendeu? Me dei bastante bem com elas. Brasileiro na Itália era raridade naquele tempo, hoje não sei. Tinha aquele negócio de trópico e não sei mais o quê. O certo é que me dava bem.

Por causa de uma mina dessas é que eu entrei naquela partida louca. Tava discutindo a renovação do contrato e a coisa tava meio dura, eu não cedia nem eles. Nessa fiquei um tempo parado, comendo ravióli e saindo com a mina. Ela era estudada, vivia lendo e coisa e tal, vendo tudo quanto é filme no cinema, discutindo política, o diabo. Não sei como ela foi se chegar pro meu lado. Deve ter sido aquele negócio que eu falei de trópico, sei lá, terceiro mundo, não sei. Imagina que ela vivia me pergunta sobre a Amazônia!!

A Amazônia, meu! Eu que nunca tinha saído do Bairro do Limão! Só vi índio na matinê do Cine Astral, e assim mesmo índio americano...

Bom, mas eu não queria nem saber. Ela era uma daquelas, carnuda, meio grandona, mas de peito pequeno. Eu adoro mulher grande, carnuda e de peito pequeno. Nunca fui muito chegado em peito grande, desses que tá cheio em filme de sacanagem e em revista de mulher pelada, sabe? Nunca. Sempre me dei bem com peitinhos. Ela era assim.

Falava demais, é verdade, mas eu quase nem ouvia. Meu negócio com ela era outro.

Um dia ela me disse que tava trabalhando num filme que estavam fazendo por lá. Naquela época faziam muito filme na Itália e ela tinha arrumado um lugar, acho que estagiária, coisa assim. Não parava de falar nisso, porque parece que era filme grande, com um diretor muito importante. Tinha até ator americano na parada. Claro que ela me contou tudo sobre o filme, a vida do diretor, o assunto, etc. Guardei pouca coisa do que ela falou. Tava interessado em outras coisas, como te falei. 

Lembro que um dia tava dando uns amassos nela e ela, alvoroçada, não parava de contar uma novidade. Pra dizer e verdade ouvi meio que pela metade. O que eu entendi é que tinha um outro filme sendo rodado ali pela região e que era também um filme da pesada. O diretor do filme dela tinha brigado com o diretor desse outro filme que também era um cara importante. Um não falava com o outro havia muito tempo, apesar de que tinham sido muito amigos. Coisa de italiano, sacou? A turma do deixa disso, quando soube que tavam trabalhando na mesma região resolveu fazer um jogo da paz, entendeu? Um jogo de confraternização, pros dois diretores resolverem a parada deles e tudo terminar bem. É aí que começa a minha participação no negócio. Ela bateu pro pessoal dela que podia trazer um jogador do Brescia pra reforçar o time, e, além disso, brasileiro. Os caras vibraram, mas resolveram não falar pra ninguém do outro time que tavam levando um profissional. Ficaram na moita, como se eu fosse da equipe de filmagem.

Falaram pra eu dizer que era auxiliar de eletricista, se alguém perguntasse alguma coisa. No dia do jogo eu cheguei e tava todo mundo lá. O campo era legal, com umas pequenas arquibancadas. Cheio de gente, todo mundo de cinema. Os dois times eram formados por assistentes de câmera, assistentes de produção, maquinistas, eletricistas, tinha até uns atores de segunda, já batendo bola no campo. Tava todo mundo alegre e falando muito. Gente de cinema é muito alegre. Sempre com umas mulheres circulando, de óculos escuros e coisa. Os caras do meu time me trataram bem pra caramba, alguns até me conheciam ou fingiram que me conheciam. Ficou decidido que eu não ia entrar de cara, porque os outros iam desconfiar que eu era profissional. Mas se a coisa engrossasse daí eu entrava. Minha mina sentou comigo no banco e ficou me contando quem era quem. Eu ia jogar no time do Novecento, nome esquisito pra filme, você não acha? No Brasil deve ter entrado com outro nome, sei lá. Bom, ela me mostrou os caras no campo e o que eles faziam na filmagem, inclusive do outro time, do filme chamado Salò, que, muitos, ela também conhecia. Me mostrou os diretores, os dois que tinham brigado, e aí eu achei a coisa estranha mesmo. Vou explicar: o diretor do “meu” time, o Novecento, estava sentado na arquibancada, bonitão, de chapéu-panamá, cercado por várias pessoas, inclusive aquele artista americano que tá até hoje por aí, o Robert De Niro. De vez em quando o diretor falava alguma coisa e todo mundo ria alto. Mas o outro diretor, o do Salò, estava em campo, pronto pra jogar. O pior, meu, é que ele tinha cara de boleiro! Um nariz meio achatado, uma cara assim afundada, olho miúdo, tinha enrolado a camisa na cabeça, parecia um maloqueiro. Devia ter mais de 50 anos, o cara, mas era forte. O outro na arquibancada parecia ter uns 30, mais ou menos. Já achei esquisito o velhão jogando e o mais novo assistindo, mas tudo bem. O que me balançou mesmo foi quando a minha mina virou pra mim, chegou bem perto para falar baixinho, e me disse que o diretor que tava em campo era “homossexual”. Na hora eu nem entendi direito a palavra, certo? Eu não tava acostumado a falar desse jeito, mas logo entendi tudo. E daí me alarmou! Mas como? Quer dizer que a tia tava em campo pra botar pra quebrar e o machão ia ficar na arquibancada sentado? Não entendi nada. Será que ela não tava enganada? Será que ela não tinha invertido a situação? Olhei pra arquibancada e aquele cara, com aquele chapéu-panamá, lenço no pescoço, bom, não sei não... Enquanto isso o outro batia bola. Ele não era pior que os outros. Ali ninguém sabia muito mesmo. Tavam lá pra se divertir e pronto. O jogo começou e logo eu vi que o diretor do Salò não tava lá pra se divertir, tava jogando sério. Apesar da idade ele dividia todas, e tava na cara que queria ganhar. E o outro na arquibancada rindo. O Salò fez um a zero. O Novecento empatou. Tinha chegado mais gente, principalmente atrizes, que ficavam gritando por qualquer coisa e torcendo no lance errado, aquele negócio. Algumas gritavam pro diretor no campo, mas ele nem olhava pro lado. Sério pra caramba. Salò fez dois a um e três a um. O diretor do Salò vibrava. O do Novecento se divertia. Não tava nem aí. No fim do primeiro tempo o Novecento encostou. Três a dois.

E daí, não teve jeito, eu entrei. Logo que eu peguei a bola e fiz um lançamento o diretor do Salò, me olhou esquisito. Não, meu, não é nada disso que você tá pensando. É que ele me olhou com um olhar que eu percebi que o cara tinha sacado ou desconfiado que eu era boleiro profissional. Até admirei o cara. Porque precisa ter olho pra ver. Claro que se você tá acostumado a jogar bola é fácil. No primeiro toque que alguém dá na bola você já mata se é profissional ou não. O cara tinha sacado. E o pior é que, um minuto depois, eu empatei o jogo. E eles nem tinham dado outra saída, eu roubei uma bola e deixei um cara na frente do gol. Quatro a três pra “nós”. Aí o diretor do Salò pirou. Me deu duas entrada pra valer e quando eu reclamei o cara me falou umas grossas. Ele tava puto! Me acusou de profissional, de boleiro de aluguel, disse que aquilo era uma vergonha. Ficou tão queimado que começou a reclamar também com o time dele. Que ninguém tava passando a bola pra ele, que era um bando de gente que não sabia nada e de repente, arrancou a camisa da cabeça (ele nunca tinha chegado a vestir ela direito), jogou a camisa no chão e saiu do campo. Acho que ele tava é muito cansado. Tinha corrido pra valer e olha, olhando o cara assim de perto, ele tava mesmo pra lá dos 50. E tinha corrido um tempo inteiro e mais metade do segundo! Ele saiu do campo e desapareceu atrás da arquibancada. E o outro diretor, do Novecento, rindo na arquibancada. Esse eu tenho certeza que nunca tinha visto uma bola de perto na vida. Ele não sabia nem olhar o jogo. Bom, já que a coisa tinha melado mesmo eu fui lá e fiz mais dois e a partida acabou. Novecento seis x Salò três.

O ambiente apesar disso não ficou pesado. Todo mundo levou na brincadeira e tinham até preparado uma macarronada. Acho que quem organizou o negócio ficou feliz. Vi os dois diretores falando numa boa e parece que acertaram a situaça. Normal. Pasta e vino. Gozado, o diretor do meu time nem me deu bola. Não porque ele fosse antipático não, mas é porque ele não entendia mesmo nada do negócio. Pra ele eu era um jogador qualquer. Mas o outro veio falar comigo. Achei muito legal da parte dele. Pediu desculpa pelas entradas e pelo que tinha falado. Eu também pedi desculpa porque não devia ter aceitado jogar no meio deles. Ficou a maior paz entre a gente. Ele falou que tinha a maior admiração pelo futebol brasileiro. Falou do Rivelino, do Tostão, de todo aquele pessoal de 70. Adorava futebol. No fim perguntou até se eu queria ser ator, pode? Agradeci, mas preferi ficar na bola mesmo. 

Quando eu contei isso pra minha mina ela quase me matou. Como eu ia deixar passar aquela oportunidade?! Convidado por um dos maiores diretores do mundo! Ela me explicou que ele era famoso por trabalhar com ator amador, que escolhia por aí, no meio do povo, mas não teve jeito. Não dou pra essas coisa.

Agora, que o cara era importante era. Sabe que logo depois ele foi assassinado? É, meu, foi morto perto de Roma. Uns dois meses depois desse jogo uns malacos pegaram ele e mataram a paulada. Paulada! Quebraram o cara todo, veja você!

Daí, só dava ele nos jornais. Primeira página todo santo dia, e dá-lhe noticia na TV e dá-lhe debate, o diabo. O enterro dele foi um negócio. Tinha artista e gente da Europa toda.

Foi o maior escândalo. 

Até outro dia eu ainda lembrava o nome dele, agora esqueci. Mas era um cara importante, pode crer.

DIRETOR DE CINEMA, ROTEIRISTA, PRODUTOR, COLUNISTA DO ESTADO. NASCEU EM SÃO PAULO (SP) E REALIZOU OS LONGAS-METRAGENS BOLEIROS, SÁBADO, O PRÍNCIPE E CARA OU COROA

Mais conteúdo sobre:
Retrospectiva 2014 retrospectiva

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.