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JOGO DE CINTURA

Voz dos homens com vagina, ator americano diz como luta pela aceitação das diferenças: ‘Meu corpo é meu ativismo’

Igor Giannasi, O Estado de S.Paulo

22 Novembro 2015 | 06h00

O ator, diretor e ativista transexual americano Buck Angel, de 53 anos, faz um pedido ao leitor. “Antes de ler esta reportagem, pare por um momento, limpe sua mente e não tenha uma ideia preconcebida de mim, como ‘oh, ele é um homem e tem uma vagina, ele é estranho’. Não faça isso, por favor. Olhe para mim apenas como ser humano. Porque eu poderia ser seu filho, seu amigo, seu marido, seu tio ou o que for, e aí você teria mais simpatia e empatia com pessoas como eu.”

Pioneiro no ramo dos vídeos pornográficos cujo protagonista é um transexual masculino, e famoso nessa indústria por não ter feito a redesegnição (cirurgia de reconstrução genital), Buck notou, com o tempo e a manifestação de fãs, que a visibilidade de seus filmes o tornou uma voz para mostrar às pessoas (trans ou não) a importância da autoaceitação.

“Meu corpo é meu ativismo”, diz. “Vi a oportunidade de mostrar a importância de aceitarmos nosso próprio corpo. Então uso meu trabalho pornográfico para dar uma apresentação positiva de um homem com vagina.”

Buck chegou a São Paulo no início da semana passada, para ser um dos jurados do 23.º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade. Na quarta-feira, foi agraciado com o prêmio Ida Feldman, destinado a quem se destacou no evento. Na quinta, foi uma das atrações da festa Open, em uma casa noturna na Bela Vista, onde faria um show de strip-tease. Na sexta e no sábado, tinha um workshop e uma palestra programados para contar sua história na 1.ª Conferência Internacional[SSEX BBOX] [SSEX BBOX], realizada paralelamente ao festival. Hoje, último dia da mostra, está no curta Dificuldades Técnicas da Intimidade, do diretor Joel Moffett.

Nos transexuais, a identidade de gênero é oposta ao sexo biológico. Em outras palavras, a pessoa é anatomicamente de um sexo, mas psicologicamente de outro. Assim, a transformação corporal – com tratamento hormonal e operações – é a saída para esse conflito interno, pelo qual, obviamente, Buck também passou.

Uma criança feliz vivendo nos arredores de Los Angeles, o ativista era um típico tomboy – menina com aparência masculinizada –, sempre brincando com os meninos. A infância idílica se transformou em pesadelo na adolescência, fase complicada tanto para héteros e homossexuais quanto para trans. Aos 16 anos, enquanto jogava futebol americano com os garotos da vizinhança, sentiu a roupa íntima molhada e imaginou ter urinado. Ficou “louco” ao ver o sangue da menstruação. “Era uma traição do meu próprio corpo”, comenta. “Foi um momento definidor de não gostar de mim mesmo.”

Vendo o desenvolvimento de características femininas em si, tentou se matar por duas vezes, além de se ferir nos braços e bater nos seios que cresciam. Os pais encaminharam Buck a um psiquiatra, que deu o diagnóstico: era uma mulher que gostava de mulher. “Por muitos anos pensei ser lésbica, porque era o que todo mundo me dizia. Uma lésbica muito masculina. Aceitei isso por um tempo, mas comecei a beber muito e a cheirar muita cocaína. Ficando bêbado e chapado, não precisava pensar sobre nada. Eu estava miserável.” Nessa fase, chegou a ter uma curta carreira como modelo, mas a imagem nas fotos não o agradavam.

Somente aos 28 anos, ao procurar outro psiquiatra, dessa vez uma mulher, ouviu uma nova análise: Buck era homem. “Ela salvou minha vida”, comemora. Na época, mesmo entre profissionais da saúde, não se sabia muito sobre transexualidade. O médico que iniciou seu tratamento com testosterona o chamava de “cobaia”, já que até então só havia atendido transexuais femininos. “Uma parte minha estava muito nervosa e com medo, mas a outra estava muito feliz porque eu poderia me tornar um homem. Na verdade, não tinha escolha. Eu tinha que fazer isso”, lembra.

Meses depois, observando no espelho as primeiras mudanças, Buck se sentia física e mentalmente uma nova pessoa. Deixava de ser Susan para se tornar quem realmente era. Ainda que por muito tempo quisesse ter um pênis, decidiu manter sua genitália, receoso do resultado de um implante. “[SSEX BBOX]No mundo, quando você tem uma vagina, você é uma mulher. [/SSEX BBOX]Foi muito difícil fazer com que minha mente aceitasse minha vagina como masculina. Quando o fiz, aprendi que isso não importa, eu sou um homem.”

Essa sua característica anatômica foi oportuna no business do entretenimento adulto. Primeiramente, Buck, que se define como bissexual e foi casado duas vezes (com mulheres), fez um filme pornô com sua companheira da época, em 2002, aos 40 anos. Não vendeu nada. Depois tentou uma nova produção, fazendo sexo com um homem e uma mulher. As vendas reagiram timidamente. O estouro veio quando ele contracenou apenas com homens, em filmes como Buckback Mountain e V for Vagina. “Por que os homens gays estão comprando meus produtos? Isso realmente mostra que a sexualidade é tão vasta. É minha energia masculina, eu acho, que faz os gays se atraírem por mim.”

Atualmente, Buck se dedica a falar de direitos humanos. Ele demonstra preocupação, por exemplo, com os altos índices de violência contra homossexuais e transexuais no Brasil. No Mix Brasil, conheceu João W. Nery, de 65 anos, a quem chama de “irmão”, o primeiro transexual masculino a ser operado no Brasil. A transformação de Nery ocorreu em 1977, portanto antes do processo do americano. Combinaram que o diretor vai ajudar o brasileiro a lançar uma versão em inglês de seu livro, Viagem Solitária (Leya).

Antes de voltar para Los Angeles, nesta segunda-feira, o ativista gostaria de ter participado do Programa do Jô, da TV Globo. Em julho, uma foto de Buck foi mostrada ali e ele alvo de brincadeiras do apresentador e de um entrevistado, o jornalista Fernando Moreira, autor de um blog que trata de notícias “bizarras”. Os comentários sobre a voz e as transformações no corpo dele, por exemplo, foram considerados transfóbicos pelos fãs do ator, que foi alertado nas redes sociais. “Isso não é um problema para mim”, diz sobre as piadas. E mandou um recado para o apresentador: “Leve-me ao seu programa de TV e tenha uma conversa comigo. Então nós faremos outro tipo de interação”.

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